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O OUTRO LADO DO AMANHECER

FRAGMENTOS DO CAPITULO 3

...A manhã vestida de açafrão ergue-se, quebrando a monotonia da paisagem árida, seca, íngreme, de onde surge a silhueta de uma pequena casa. No minúsculo quarto Gisele  levantou-se, ainda cansada pelo trabalho árduo do dia anterior, lembranças incomodas atorturavam-na, sonolenta ainda, sacudiu os lençóis de "cambraia", agora já envelhecidos e rasgados, que foram presenteados pela tia que morava na cidade, enquanto dobrava-os pensou: já faz muito tempo... a lembrança da tia surgiu em seus pensamentos, sorrindo em sonoras gargalhadas, no belo rosto cuidadosamente pintada. Sentiu indagações curiosas, repentinas, agitando-se em sua alma, mas cautelosamente procurou  afastar o vazio e a ligeira tristeza  que lhe afligia naquele despertar. Atravessou por uma cortina de tecido colorido, que balançava sob a brisa que soprava através da janela aberta. O barulho dos chinelos no chão de barro batido, ao andar, quebrava o silêncio. Parou em frente à cama onde seu irmão menor ainda dormia. Sacudiu as pernas de Israel, enquanto tirava-le o lençol.
-Israel!  Levanta da cama menino, a mãe já saiu cedinho, antes do sol chegar, preciso de lenha pra acender o fogo, vai buscar.... não demore!
As palavras escorregaram dos lábios da menina como se espetassem a boca, na voz grave, aparentando cansaço, mas ainda infantil, nitidamente fazia um enorme esforço para manter os olhos abertos, sonolentos. Israel levantou o rosto para vê-la melhor, sentou-se na cama e passou a mão na cabeça. O pequeno menino de dez anos,  de uma infância presa a pequenas angustias, que sentia junto as crescentes  necessidades da família, perdida na pobreza e no abandono. Não lhe sobrava tempo pra ser criança, não brincava, já não tinha seus pequenos sonhos, apenas trabalhava o dia inteiro, nem a escola ia mais, era necessário a sua ajuda pra que pudesse subsistir naquele lugar que parecia pra ele esquecido. As pequenas plantações no entorno da casa, pouco lhes rendiam, o suficiente apenas para breves períodos, quando o desgaste pelo sol não queimava tudo, destruindo, aniquilando, dias, semanas de trabalhos, ele não entendia nada daquilo, como se fosse impedido de ver a própria criação da vida. A inquietação da idade, as pequenas vibrações de um ingênuo despertar, na sua inocente conscientizarão como pessoa, diluía-se em constantes voltas com o que fazer ou deixar de fazer. Isso de alguma forma abortava suas descobertas, estraçalhando o sorriso, restando a calmaria chata, monótona e arrasadora daquele lugar esquecido, vestindo e despindo as imagens da natureza, como a matar em si a própria criação.
A pequena família na rude excrescência habitada chorava e carpia seu desespero. O pai migrara meses atrás para o Rio de janeiro, a falta de dinheiro, a miséria crescente, a dificuldade em levar a mesa o alimento mínimo à subsistência, o forçara a tomar aquela atitude, fora em busca de dias melhores, ver tudo aquilo, doía-lhe o peito, sentia-se impotente diante de tudo. Às vezes sozinho sentia os olhos ficarem úmidos.
Já na cidade, percebeu que ela pouco lhe ofericia, senão a continuação de tudo já vivido anteriormente e, ele quedou-se no seu espanto. Num breve momento de lucidez percebeu que na sua terra, tinha dificuldades, viviam em extrema pobreza, mas, ele tinha dignidade, tinha valor como pessoa. Agora se via subjugado a uma situação pior, foi parar numa favela, e era rotulado como um desocupado, à margem de uma sociedade, que exclui que condena que projeta uma convulsão social, reduzido as pessoas a números, sem identidade, sem valores, sem princípios. Num vertiginoso ciclo e continou movimento de frustração. Perdeu o animo, ver tudo aquilo o enfraquecera, as desilusões o deixara sem coragem e viu no álcool a saída, ou a perdição. Mastigara com pouco prazer as horas de devaneio, enluvando com a imagem da família a sua espera. Algumas vezes escrevera à mulher e filhos, e quando o fez, dissimulou a situação, sublimou seus anseios, buscando acalenta-los de que de alguma forma conseguiria um resultado melhor, mas no seu intimo sabia das mazelas da cidade, e do submundo que ela o condicionara, quase uma condenação. Condicionou-se a essa psicoadaptação.
Tudo parecia não ter sentido sentia as bofetadas da vida no rosto, mas cobria de esperança aqueles que esperavam nele uma mudança de uma vida melhor.
Israel encostou-se na parede sem rebocos, sentado na cama de tábuas, suspensa por dois cavaletes em suas extremidades. Ele pouco aceitara aquela decisão do pai. Tinham necessidades sim, mas, estavam juntos, eram uma família, e isso era muito importante para ele. Opusera-se, revotou-se, mas, qualquer coisa que ele falasse  era pouco levado a serio, ele quis dizer  mais uma vez, ao pai que não fosse,  mas a voz  estrondosa da mãe, o reteve
– fique quieto menino – vociferou ela  -  não ta vendo que seu pai ta indo  fazer a vida  em outro lugar? Pro nosso próprio bem? .
Ele encolheu-se  e  pensou: Eles são os adultos, e decidiram, revendo as cenas daquela tarde  numa cor de aço quando seu pai, taciturno, ganhava a porta de saída, sorrindo sem jeito, virando o rosto para trás, como se ao faze-lo sentisse dor, e, ele ficara a olhá-lo timidamente, acenando num adeus depois de um longo abraço, recai sobre eles, concluiu seu pensamento, atribulações, responsabilidades, e um monte de coisas inconvenientes, que muitas vezes dão um tom cinzento mesmo onde há um arco-íris. Estendeu o olhar à irmã por entre os dedos esfregando os olhos
– não ouvi os meus passarinhos cantarem hoje – exclamou – por quê?
- ora Israel, com tudo que eu tenho pra fazer vou prestar atenção a isso? – sentenciou ela numa voz embalada de sono, acordava sempre tão cedo, que às vezes enquanto empurrava a lenha no fogo, cochilava, depois esfregava os olhos ardendo, com os dedos aquecidos pelo fogo
– levanta logo menino, e vá buscar lenha, não tem mais nenhuma aí, mas olhe aqui Israel, não faça como das outras vezes, não demore – observou ela, girando nos calcanhares e fazendo um pequeno floreio na saia prestes a rasgar
– você não ouviu mesmo eles cantarem, uma única vez?  Insistiu Israel - estranho, eu sempre acordo com eles estarem cantando...
Ela parou na porta do quarto, segurando a cortina com uma das mãos, encostou o rosto na parede e olhou para ele
– não Israel, eu não vi passarinho nenhum cantar, e agora sai dessa cama de uma vez, e vá logo buscar a lenha, tenho que fazer o café a mãe saiu cedinho, antes de o sol nascer, e deve estar com fome. Israel pulou para fora da cama, deu alguns passos à frente e estendendo o braço, abriu a janela de uma única parte, fazendo um rangido continuado, ouviu a voz da Gisele que vinha lá da cozinha apressando-o a ir buscar a lenha, abafada entre o barulho do cair da água no barro batido do quintal atirado para fora pela janela. Pulou pra fora pela janela do pequeno quarto,  do lado de fora sob uma cobertura de telhas, suspendeu o olhar onde estavam  as gaiolas  dependuradas, que foram trazidas pelo pai da vila. Israel ficou observando tudo por um breve instante, certo de que eles logo cantariam, mas o silencio foi mantido, ele então exprimiu entre seus lábios sons que imitavam seus cantos, mas, nada veio em resposta, o silencio continuava, então ele emitiu novos sons e falou-lhes como costumava fazer quando admirava suas cores, de uma nova muda, ou quando eles ficavam muito quietos. Nenhum sinal lhe chegou aos ouvidos, apenas os apelos de Gisele rasgados por entre as frestas da parede. Israel inquietou-se
– seus bobalhões, vocês não sabem que quando não cantam isso aqui fica muito triste?  E se ninguém se importa, eu me importo muito viu. Ele arrastou um banquinho de madeira que estava próximo, e subiu nele, pegou uma das três gaiolas com todo o cuidado, espantou-se e bruscamente fez malabaris no banquinho para manter-se em pé. O pássaro estava deitado de lado, morto. Então ele apressou-se em pegar as outras duas gaiolas e pode ver estupefato os outros dois pássaros também mortos. Israel emudeceu, duas lagrimas rolaram pelo seu rosto ainda com sinais de sono, abaixou-se, e lentamente retirou os pássaros das gaiolas e os colocou lado a lado no chão vermelho de barro. A voz de Gisele projetava-se a ele vindo da cozinha - Israel, você ainda não foi buscar... Ela parou bruscamente em frente a ele. Israel levantou-se e olhando para ela, estendeu as duas mãos contendo os três pássaros
– mortos – ele murmurou baixinho – mortos Gisele, eles estão mortos – agora a sua voz era um lamento... – por quê? Por quê?- Ele chorou! Quieta Gisele aproximou-se dele, encostou a cabeça dela junto à dele. O rosto de Israel estava molhado de lagrimas, e com os olhos aquecidos pela dor que sentia naquele momento, estendeu o olhar para o horizonte, pro vazio...

BY JORGE BRITO
JORGE BRITTO
Enviado por JORGE BRITTO em 29/09/2007
Reeditado em 29/09/2007
Código do texto: T673198

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Sobre o autor
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