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UMA VIAGEM PELO NORDESTE COLONIAL

Uma viagem pelo nordeste colonial

UMA VIAGEM PELO NORDESTE COLONIAL COM HENRY KOSTET
Na historiografia brasileira do período colonial tenho uma simpatia especial por um cronista estrangeiro que viveu aqui em Pernambuco no início do século XIX. Trata-se de HENRY KOSTER, inglês que viveu boa parte das primeiras décadas do século XIX aqui em Pernambuco e, portanto, presenciou acontecimentos que ainda guardavam relação muito estreita com o final do século XVIII.
KOSTER deixou um legado de grande importância: VIAGENS PELO NORDESTE DO BRASIL, livro que foi publicado pela primeira vez em 1816, em Londres e que teve sua publicação aqui no Brasil em fascículos entre 1898 e 1931, pela Revista do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico de Pernambuco. Antes, foi publicado, também, nos Estados Unidos e em Weimar, em 1817; em Paris, 1818; em Leipzig, em 1831 e, como obra autônoma somente veio a ser publicado no Brasil em 1942. Na edição mais recente, de 2002, publicada pela Editora Massangana, em Recife, da FUNDAÇÃO JOAQUIM NABUCO, KOSTER é intitulado de “o mais fiel retratista da paisagem” por LEONARDO DANTAS SILVA para quem teria sido ele, entre os viajantes, “o que melhor soube expressar os sentimentos de nossa gente”. O próprio LEONARDO DANTAS SILVA, no prefácio, nos dá conta das andanças de KOSTER por PERNAMBUCO, PARAÍBA, RIO GRANDE DO NORTE, CEARÁ e MARANHÃO.
Inquieto, o inglês que chegou aqui, pela primeira vez, em 07 de dezembro de 1809, com apenas 25 anos de idade em busca de melhores ares para saúde comprometida por uma tuberculose. Em 1810 partiu para uma viagem, a cavalo, até à Paraíba e de lá, resolveu ir “esticar” até FORTALEZA, onde chegou em 04 de dezembro do mesmo ano, tendo voltado à RECIFE em fevereiro de 1811 e, neste mesmo mês viajou ao MARANHÃO, de navio e de lá retornou à Inglaterra em abril. Mas, por ter gostado da terra, o inglês voltou em 27 de novembro de 1811, somente retornando para a Inglaterra em 1815 depois de ter se instalado como senhor de engenho em Itamaracá, onde arrendara o engenho Amparo. Aclimatou-se tão bem à terra e seus costumes, que teve seu nome aportuguesado para HENRIQUE DA COSTA e muitos duvidavam de sua origem inglesa. Ouviremos palavras do próprio KOSTER sobre a temporada que passou aqui, mas creio indispensáveis os comentários feitos com maestria por LUÍS DA CÂMARA CASCUDO no prefácio da primeira edição publicada no Brasil e agora repetido nesta última publicação. KOSTER é uma referência importantíssima para se entender a colônia, porque é um dos poucos que retrataram os modos e costumes do povo e, inclusive traça um perfil psicológico dos tipos locais. Entre os predecessores dos nossos interpretes, o que mais traz elementos à compreensão do homem colonial. Veja-se o perfil que CÂMARA CASCUDO traçou de KOSTER: HENRY KOSTER não é um viajante, caçando anedotas e filmando o pitoresco nem um naturalista, tendo a investigação anteriormente programada. Não há nele a missão unilateral de estudar um aspecto ou fixar pormenores. Não o subsidia Museu ou Instituto. É uma curiosidade ampla e livre...É uma criatura humana, vivendo humaníssima e logicamente. Não teve obrigação técnica de regressar à Pátria, com bichos, folhas e relatórios. Independe de qualquer autoridade uma sua conclusão....Koster tomava notas sentado na porta da casa-grande, pisando o massapé do canavial, cochilando no embalo da rede, sacudido no choto do cavalo tungão, mastigando léguas-de-beiço. Veio para viver em Pernambuco. Viver se defendendo da tuberculose. OU morrer devagar, como diria El-Rei D. Sebastião. ....... O depoimento de Koster é o primeiro, cronologicamente, sobre a psicologia, a etnografia tradicional do povo nordestino, o sertanejo no seu cenário. Depoimento completo, apaixonado de pormenores, rico de cor, de movimento, de notícia. ..... Comendo o pirão de farinha de mandioca, a banana comprida, banhando-se nos rios de enxurrada, viajando a cavalo, a pé, de rede, debaixo dos couros enquanto desaba o temporal e no escurão urram as onças, centenas de traços o situam como um familiar, um velho parente que conheceu o encanto das casas-grandes, a preguiça faustosa dos senhores de engenho, as histórias assombrosas da escravaria, o pavor dos bichos terríveis que andam de noite. Em superfície e profundeza, para a época, ninguém fixou a sociedade pernambucana, a sociedade dos fazendeiros do Nordeste, a psicologia do senhor de engenho, o mundo escravo, como Henry Koster. Fixou porque viveu intensamente essa exigência que conhecemos descrita por mão contemporânea ou olhos atuais. Koster era contemporâneo aos Capitães-Mores, viu as selas altas, aparelhadas de prata, o Entrudo furioso, as reixas nas residências senhoriais, escuras e sinistras pelo seu silêncio morno e penumbra aristocrática. Koster traz para seu livro as figuras e ambientes, desde Caetano Pinto de Miranda Montenegro, o Capitão-General até Gonçalo, sacristão do Pilar, que, ajudando um recalcitrante moribundo em sua agonia lentíssima, disse-lhe, numa animadora exprobração cristã: morre logo e deixe de bobagens...”. KOSTER, na galeria dos que escreveram sobre o Brasil, em uma lista organizada na Inglaterra, em 1816 é chamado the accurate Koster, ou seja, o exato Koster. Sua palavra, como lembra CASCUDO, é clara e limpa de ta testemunha ocular. Chegou aqui quando os sentimentos e modos do século XVIII ainda se faziam presentes nos costumes do povo e nas instituições, embora o ambiente político e social tenha começado a se transformar em decorrência do processo de mudanças políticas na Europa e, também, por conta da chegada da família real à colônia. Conviveu KOSTER com os últimos capitães-mores e assistiu manifestações pela independência política. Viu o traçado urbano e a arquitetura do RECIFE modificar-se. Esse é o KOSTER que CASCUDO afirma que pretendeu “restituir à circulação intelectual do Brasil” em seu apaixonado prefácio. KOSTER faleceu no começo de 1820 e informa LEONARDO DANTAS SILVA que se encontra enterrado no CEMITÉRIO DOS INGLESES DO RECIFE, que fica situado no bairro de Santo Amaro no cruzamento da Avenida Norte com a Avenida Cruz Cabugá. O que KOSTER observou: a) O RECIFE e SUA ORGANIZAÇÃO POLÍTICO-ADMINISTRATIVA: O viajante inglês que aqui chegou em um lindo dia ensolarado e deliciou-se com a vista encimada de Olinda – “a vista é magnifíca” - pôs-se a descrever a formação urbana do RECIFE, na verdade a então VILA DE SANTO ANTÔNIO DO RECIFE, “comumente chamada de Pernambuco, embora este seja propriamente o nome da Capitania”, que já contava com cerca de 25.000 habitantes - sobre Olinda, diz ter 4000 - apresentando-a como “um lugar próspero, aumentando dia-a-dia em importância e opulência” , resultado que ele credita, em parte, às ações do Governador e Capitão-General da Capitania, Caetano Pinto de Miranda Montenegro, o qual não interfere nos negócios privados, garantindo-os uma vez estabelecidos. Essa observação de KOSTER contraria a espinha dorsal da tese de RAIMUNDO FAORO (OS DONOS DO PODER) da extrema ingerência burocrática nos negócios particulares, porém deve ser entendida no contexto de um observador que não se propunha a ser historiador ou jurista. Festeiro, o inglês relata as muitas festas de que participou com visível satisfação. Relata que era costume português, abandonado pelo povo pernambucano, de “descobrir-se”, ao passar diante de uma sentinela militar ou por militares, em sinal de respeito. Relatou também o incômodo que era para os ingleses – por conta da religião - o costume de ajoelhar-se diante de um cortejo fúnebre e assim permanecer até que a procissão sumisse de vista. Quanto à administração política, afirma que a capitania, como as outras de primeira classe, eram governadas por Capitães-Generais ou Governadores nomeados por três anos, com poderes absolutos, mas que deveriam apresentar suas credenciais ao SENADO DA CÂMARA, à CÂMARA ou Municipalidade “constituída pelos indivíduos mais respeitáveis do lugar” anotando que o Governador é o comandante militar, além de julgar as causas que lhe chegassem, sem mais possibilidade de apelos, ou então, remeter ao juiz competente. As causas civis e criminais eram julgadas pelo Ouvidor e o Juiz de Fora, sendo o primeiro superior hierarquicamente, embora com poderes semelhantes, com nomeação por três anos e possibilidade de recondução. Quanto à administração da justiça diz que é um departamento onde “são numerosas” as ocasiões para enriquecer. Na confusão de cargos e poderes, anota que o PROCURADOR DA COROA, o procurador-geral é autoridade de “considerável poderio”, assim como o INTENDENTE DA MARINHA e o ESCRIVÃO DA FAZENDA REAL, CHEFE DE TESOURARIA, JUIZ DA ALFÂNDEGA, funcionários que compõem a JUNTA ou CONSELHO que se reunia, uma vez outra, para debater os negócios da capitania. Assusta-se o inglês com o número de funcionários: “inúmeros inspetores sem objeto a inspecionar, um sem-fim de coronéis sem regimentos para comandar, juízes para dirigir cada ramo da administração, por menor que seja”. Os gastos com a burocracia eram grandes e o povo não colhia nenhum benefício do “Estado”, além de que os impostos tinham a característica injusta de pesar sobre os menos afortunados, sem alcançar “quem os poderia suportar desafogadamente” . Conseqüência dessa profusão de cargos e servidores, são os baixos ordenados, e, por extensão, “o peculato, a corrução e outros crimes decorrentes” , embora registre que há homens cujo caráter não tem manchas. Sinal da unidade territorial e política que já havia, é o registro de que em PERNAMBUCO se pagava um imposto para iluminação das ruas do RIO DE JANEIRO, embora as do RECIFE estivessem “em total escuridão”. Registra, com o olhar inglês, que quase não se produziam produtos manufaturados em RECIFE, exceto “de bugigangas de prata e ouro”. Sobre as instituições públicas de ensino destaca que, embora poucas, “são excelentes”, principalmente o SEMINÁRIO DE OLINDA que não obriga que seus alunos “terminem tomando ordem”. b) SOCIEDADE e COSTUMES: No dia 31.12.1809 KOSTER foi convidado para as festividades em homenagem à Nossa Senhora do Monte, em Olinda. É a igreja do Monte, como até hoje é conhecida.Está no ponto mais alto da cidade e foi uma das primeiras erguidas pelo Donatário Duarte Pereira, já sendo feita referência a essa capela no foral de Olinda de 12.03.1537, segundo CASCUDO em anotação ao livro de Koster (p.100). Na época dessa festa, registra que a ”cidade” é tomada de alvoroço e distrações, com a igreja decorada especialmente para decorada e iluminada. Os fiéis juntos, homens e mulheres, rezavam. Nas festividades do Poço da Panela, em Recife, deu-se a novena com cantos e hinos nas noites anteriores. A música do novenário era executada por uma senhora burguesa, acompanhada de alguns instrumentos de sopro, “tocados por pessoas respeitáveis”, tendo sido a música vocal entoada pelos tocadores dos instrumentos de sopro e “alguns mulatos, escravos da senhora”. KOSTER é sempre criterioso e demonstra respeito pelas tradições e costumes da colônia, mas, ao relatar as festividades do Poço da Panela não esconde que se surpreendeu com “o tom” avançado das danças e marchas presenciadas e ouvidas. À noite, houve queima de fogos e as casas se encheram de gente que vinha de todas as partes e, mesmo quem não era convidado, assentava-se às mesas para jantar. Uma “balburdia” logo tomou conta da festa, tendo nosso amigo ido a uma casa onde se encontrava o Governador, anotando que, embora ele próprio fizesse questão de deixar os demais convivas à vontade, “a idéia de linhagem e proeminência” era tão grande que as conversas se davam em tomo de murmúrio. Época de festas, num lugar em que o povo parecia gostar delas, KOSTER confessa que não perdia nenhuma delas. Logo estava na festa de SANTO AMARO e aproveita para descrever que as pessoas do povo amarravam fitinhas no tornozelo ou no pulso, “usando-as até que se desfizessem”. Essas festas somente terminavam com o fim da páscoa e todos, então, voltavam à cidade, para tristeza de KOSTER. É de suntuosidade o ambiente das igrejas na quinta-feira da semana santa, ficando todos juntos, inclusive as mulheres brancas e pretas na parte interior da igreja e os homens nas laterais da nave. Os vestidos das mulheres, que na quinta-feira foram exibidos em roupas de seda, coloridas e recobertos de ouro e enfeites, na missa da sexta-feira se apresentam sombrios. No sábado, após o período da abstinência, a cidade amanhecia com as ruas cheias de gente, ouvindo-se o mugido dos bois, o grunhido dos porcos, e a algazarra que as escravas faziam para vender galinhas. Começavam as “operações hostis, sem piedade e escrúpulos, contra perus, porcos, etc., e todo o restante dessas miseráveis tribos, fadadas a vítimas indefesas da nossa natureza carnívora”. Não lhe faltavam festas e ocasiões para encontrar-se com os senhores da terra e seus filhos, tendo escrito várias vezes que as mulheres das residências do interior quase nunca apareciam aos convidados, ao contrário do que acontecia em Recife, onde relatou haver tido oportunidade de conhecer uma moça muito distinta e de “conversação viva e sedutora” mas, apesar de sua graciosidade, era entre as mulheres de cor que se encontravam as brasileiras “belas, com mais vida e espírito, maior atividade de espírito e de corpo, mas adaptada ao clima’’. Sobre o povo, KOSTER se antecipa a GILBERTO FREYRE, afirmando que “os mestiços parecem ser os verdadeiros habitantes do país. As feições são freqüentemente boas, e a cor, mesmo quando é desagradável nos climas europeus, não aparece mal nesse ambiente”, acrescentando que belas, belas mesmo eram as mulatas, “os mais lindos espécimes de forma humana”. Os hábitos de receber convidados, os jantares, os batizados, notava KOSTER que estavam mudando, assemelhando-se a o padrão europeu, embora tal estilo de vida fosse restrito aos homens de posse KOSTER não é apenas o “fiel retratista” que nos traz notícias geográficas e observações sobre a fauna e a flora. Da leitura de seu texto infere-se, que suas preocupações alcançam, também a realidade política e social da época. Do embalo gostoso da rede armada no alpendre da casa-grande do Engenho Amparo, nas tardes amenas da Ilha de Itamaracá, ele lançava seu pensamento muito além das belezas e encantos da terra. Inglês nascido em Portugal, tributário das revoluções européias, não esconde sua inclinação pelos governos liberais e sua grata satisfação com os acontecimentos políticos da Europa que precipitaram a abertura dos portos da colônia à Inglaterra. A transferência da família real para a colônia é saudada pelo nosso observador como auspiciosa. Classificou o quadro político anterior a esse evento como “ANTIGO REGIME” num descuido – assim como outros – que a ele não se pode cobrar maiores explicações, vez que não era e nem deixa transparecer que almejasse pretensões de intelectual, historiador ou filósofo. É, antes de qualquer coisa, apenas o homem que CÂMARA CASCUDO disse que viveu humanisticamente. Não sendo homem de academia e nem tendo pretensões de sê-lo, KOSTER não se esquiva de emitir suas opiniões políticas. Chama a colônia de país e demonstra sincero desejo de que este venha alcançar melhor desenvolvimento social, profetizando que ultrapassaria a metrópole européia, como se verá adiante. Ouçam-se as palavras de KOSTER: “A negligência do antigo regime sob o qual o Brasil fora administrado, apareceu, freqüentemente, por toda a parte. A vinda do Soberano para este país animou bastantes pessoas que há tempos, estavam com os hábitos de indolência, e desenvolveu a atividade de outras que esperavam o momento de despertar. Os brasileiros sentem a importância de ver a terra nativa dar presentemente leis à Mãe Pátria. O espírito, longamente contido sob severa sujeição dos antigos governos coloniais e seus regulamentos, tem atualmente oportunidade para expandir-se, e provar que saindo de longos sofrimentos e os suportando com resignação, existe e se, doravante, não forem tratados como homens deixaram a infância, reagirão, rompendo os ferros aos quais se tinham submetidos. Espero, sinceramente, que o supremo Governo veja a necessidade de reformas e que o povo não espere demasiado, considerando porém que são preferíveis as privações a uma geração de sangue, confusão e miséria. A livre comunicação com outras nações tem sido útil ao país e os benefícios auferidos irão aumentando. Esse rebento do nosso continente europeu crescerá e a árvore que produziu será mais poderosa que o ramo de onde nasceu. Mesmo que a razão para sua maturidade esteja muito distante, a rapidez ou lentidão de sue crescimento dependerá de cuidados ou indiferentes negligências de seus governos. De qualquer forma que esses governos procederem, sua extensão, fertilidade e outras numerosas vantagens possuídas, darão, no curso do tempo, o lugar que ele tem direito de reclamar entre as grandes nações do Mundo”. (p.114). Quanto à confusão e imprecisão que KOSTER - aqui acolá cometeu – ao referir-se a conceitos políticos e econômicos, tais como “antigo regime” e “feudalismo”, estas não comprometem o valor histórico e nem a riqueza da escrita. Encontraremos ele classificando o engenho de ANDRÉ DE CUNHAÚ, na capitania do Rio Grande do Norte como “feudal”, bem assim como considerando que os capitães-mores viviam um “estilo de vida feudal’ quando relatou as recepções que recebeu nas viagens feitas à Paraíba e no Rio Grande do Norte. KOSTER é o homem que viveu a transição de um século para outro e se não era “letrado” formalmente, era culto e vinha de círculos sociais da Europa onde as palavras “antigo regime” e “feudalismo” eram, de certa forma, palavras de ordem, da moda e que expressavam, sobretudo, o que rejeitavam os liberais formados no final do século XVIII. É somente assim que se deve entender esses termos na boca dele. Ao registrar a recepção que teve na casa-grande do engenho onde residia o Capitão-Mor da Paraíba, diz que foi recebido afetuosamente e que a construção tinha apenas um pavimento e sem forro no teto, detalhando a simplicidade da ceia que lhe foi servida: carne-seca, pirão de farinha de mandioca – que não apreciou muito -, bolachas e vinho tinto. Como sobremesa, uma variedade de doces, sobre os quais disse que “o rico homem brasileiro tem tanto orgulho dos seus doces quanto o cidadão inglês de sua mesa ou dos seus vinhos”. Referindo-se a esse Capitão-Mor da Paraíba, sempre recolhido ao seu engenho, foi que KOSTER afirmou que os capitães-mores viviam em estilo feudal. Continuando a narrativa dessa mesma viagem, já em terras da capitania do Rio Grande do Norte, o viajante dá conta da magnífica recepção que recebeu no ENGENHO CUNHAÚ, de propriedade de ANDRÉ D´ALBUERQUE MARANHÃO, “homem de imensas propriedades territoriais” e que morava “no seu engenho feudal”. Senhor de grandes cabedais, o Coronel esperava o visitante à frente da casa-grande, ladeado de seu capelão e muitos empregados “gozando a frescura da tarde”. Ouça-se, nas exatas palavras de KOSTER, como foi a recepção na casa do coronel de Cunhaú: “Veio para perto de mim, logo que desmontei, e lhe entreguei as cartas que levava, e eles as pôs para ler com sossego. Fez-me sentar e conversou sobre várias questões, meus planos, intenções, etc. Levou-me aos aposentos reservados aos hóspedes, a pequena distância dos seus. Encontrei um bom leito. Trouxeram água quente numa grande bacia de latão, e todo o necessário foi providenciado. Tudo era magnífico e até as toalhas tinham franjas. Quando acabei de vestir-me esperei ser chamado para jantar mas, com surpresa, apenas a uma hora da madrugada é que um criado veio buscar-me. Encontrei na sala de jantar, uma comprida mesa inteiramente coberta de pratos incontáveis, suficientes para 20 pessoas. Sentamo-nos, o coronel, seu capelão, outra pessoa e eu. Quando havia saboreado bastante para estar perfeitamente saciado, surpreendeu-me a vinda de outro serviço, igualmente profuso, de galinhas, pastéis, etc, e ainda apareceu um terceiro tendo pelo menos dez espécies diferentes de doces. O jantar não poderia ter sido melhor preparado nem mais perfeito mesmo se fosse feito no Recife, e um epicurista inglês teria ali cm que agradar seu paladar. Meu leito era ótimo e tive ainda mais prazer por não esperar encontrar um, naquelas paragens pela manhã, o coronel não me quis deixar partir sem almoçar, chá, café, bolos, tudo de excelente gosto...”. Esse rico senhor potiguar, mereceu de CÂMARA CASCUDO uma nota de referência digna de comentários. Favorável e integrante dos movimentos libertários que se sucederiam poucos anos depois da passagem do viajante inglês e que culminaram com a REVOLUÇÃO DE 1817, o coronel potiguar terá o curso de sua vida alterado de forma dramática. “ANDRÉ DE CUNHAÚ”, como diz CASCUDO que ele era chamado, além de potentado econômico, tinha o nobre título de CAVALEIRO DA CASA REAL, mesmo assim tornou-se o principal líder local do movimento revolucionário, tendo armado uma estratégia para prender o Governador da capitania e marchado para Natal, onde instalou um governo republicano no dia 29 de março de 1817, porém foi deposto menos de um mês depois. Deposto à força, “ANDRÉ DE CUNHAÚ” resistiu e entrou em luta, tendo sido ferido e jogado algemado em um quarto escuro do FORTE DOS REIS MAGOS, sem receber qualquer tipo de tratamento, vindo a falecer na madrugada do dia em que foi preso. “Assim morreu, numa agonia terrível, abandonado e ferido quem Koster visitara, tranqüilo e acolhedor, no meio das grandezas da casa-grande de Cunhaú”. KOSTER visitou duas aldeias indígenas nas vizinhanças de FORTALEZA, no Ceará, onde hoje se encontra a cidade de MESSEJANA. Relata que as aldeias tinham dois juízes, um branco e um índio, com supremacia do branco sobre o indígena com autoridade para julgarem pequenos crimes, cabendo ao ouvidor da capitania, julgar os crimes considerados mais graves. As aldeias também tinham a mesma organização política das vilas e cidades, tanto assim que possuíam suas CASAS DE CÂMARA e PRISÃO, tendo seus capitães-mores, o que era motivo de galhofa por parte dos brancos, porque tais andavam seminuas, mas com uma bengala de castão e ouro, simbolizando seu poder. Sobre o Maranhão, diz que “a província não pode sofrer confronto com a de Pernambuco. Ainda está numa idade infantil” . “A população pode ser computada em cerca de 12.000 pessoas ou mais, incluindo negros, proporcionalmente avultados e mesmo superiores aos de Pernambuco. As ruas são, em sua maioria, calçadas mas não há conservação. As casas são limpas e bonitas, tendo apenas um andar....As igrejas são numerosas...A cidade possui casa de Alfândega e a tesouraria. A primeira é pequena para os negócios que a ocupam...A importância da província aumenta com rapidez. Há 60 anos não exportavam algodão e eu soube que, quando a primeira carga estava em ponto de ser embarcada veio uma petição de muitos moradores à câmara ou municipalidade, requerendo que a exportação fosse proibida por pensarem que o artigo fizesse falta ao consumo local...Existe uma desigualdade de posição em São Luís. As principais riquezas da região estão nas mãos de poucos homens, possuidores de propriedades prósperas, com extensões notáveis, grupos de escravos e ainda são negociantes...Como porto de comércio com a Europa, São Luís é apontado em quarto lugar, e na classe de importância, segue Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco....O nome que se dá, aqui e em Pernambuco, a todos os índios selvagens é Tapuia, e Caboclo é aplicado ao índio domesticado...” REgistra que o governador do Maranhão era um déspota, a quem o povo temia. O governador exigia que todos se descobrissem quando passassem em frente ao palácio e que mandara prender um cocheiro de rico comerciante porque não parara seu carro ao vê-lo passar. Preso o cocheiro, o comerciante mandou avisar que tinha muitos outros e, na mesma tarde, para surpresa de todos que estavam na prisão, mandou dois homens levarem uma bandeja, “coberta com uma toalha ricamente bordada, e cheia dos pratos mais saborosos, doces e vinho, nada sendo esquecido” e mandou repetir tal gesto três vezes por dia, até que o cocheiro fosse posto em liberdade. Esse mesmo governador mandou prender o ouvidor da província, sendo substituído pelo juiz de fora e provocando uma imensa polêmica. AS MUDANÇAS DO MUNDO E DA COLÔNIA. A transferência da família real para o Brasil, fato considerado alvissareiro por KOSTER, é símbolo definitivo de um tempo de mudança cujas origens remontam a fatos ocorridos nas últimas décadas do século XVIII. A independência dos Estados Unidos, o declínio do sistema colonial, os ideais libertários disseminados no mundo pela Revolução Francesa e, em Pernambuco, particularmente, as idéias que irradiavam do Seminário de Olinda e da maçonaria fortalece o sentimento nativista pernambucano já demonstrado quando dos embates com os holandeses. Além do mais, a seca de 1817, fielmente descrita por KOSTER, provocou queda na produção do açúcar e colheita do algodão, afetando sobremaneira a economia nordestina. Esse nativismo opõe-se ao lusitanismo e, na administração do governador CAETANO PINTO DE MIRANDA MONTENEGRO – Caetano no nome, pinto na coragem, monte na altura e negro nas ações, como era ridicularizado pelos revoltosos – explode o clima de revolta. Rejeita-se o trigo e o vinho português, passando-se a larga utilização da farinha de mandioca e da aguardente, até nos rituais da Igreja, onde a hóstia é fabricada com a farinha de mandioca e, ao invés do consagrado vinho tinto lusitano, a pernambucana cachaça de seus engenhos. Os revoltosos tomaram o poder e passaram a adotar o nome de patriotas, mandando emissários para outras províncias e ao exterior, para obter apoio e reconhecimento do novo governo. O governo é revolucionário e republicano. Entre seus atos, cria-se uma bandeira que deu origem à atual bandeira do Estado de Pernambuco. Ficou conhecida também como a REVOLUÇÃO DOS PADRES, tamanho foi o envolvimentos destes. KOSTER desfrutou da amizade do Padre JOÃO RIBEIRO. Também participou do movimento o Padre JOÃO INÁCIO RIBEIRO ROMA, o famoso “PADRE ROMA” que foi um dos lideres do movimento e encarregado de buscar apoio na Bahia, onde foi preso e executado. Esse movimento alastrou-se pela Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte, mas as forças realistas terminaram por vencer os rebeldes, dissolvendo a “República” com a mesma rapidez que ela se formou. Os revoltosos tinham como objetivo diminuir os impostos sobre suas terras – devendo se ressaltar que muitos padres eram senhores de grandes propriedades rurais. O padre João Ribeiro Pessoa, amigo de Koster suicidou-se em terras hoje do Município de Paulista e lá foi sepultado, porém, para cumprimento da sentença imposta contra os revoltosos, seu corpo foi desenterrado e sua cabeça exposta numa vara em Recife, bem assim como os corpos de outros que foram condenados à morte. Antes mesmo de eclodir a revolução, o governador toma conhecimento dos projetos dos revoltosos e mandar prender alguns de seus líderes, ocorrendo e, em reação, um destes, o capitão Joaquim de Barros Lima, chamado de “LEÃO COROADO” por sua valentia e por uma careca na forma de coroa, termina por matar o brigadeiro que foi prendê-lo. Iniciava-se a revolução. Em 1818, por ocasião da proclamação do rei D. João VI, foi ordenado o encerramento da devassa e concedida anistia aos revoltosos, exceto àqueles que já estavam sendo processados na RELAÇÃO DA BAHIA. Fica aqui uma sugestão. Leia VIAGENS PELO NORDESTE DO BRASIL. A leitura não será enfadonha.
Caruaru, 25 de Novembro de 2006.


Por Augusto N. Sampaio Angelim: hildinho@bol.com.br


Augusto Sampaio Angelim
Enviado por Augusto Sampaio Angelim em 08/10/2007
Reeditado em 15/03/2008
Código do texto: T685166

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Sobre o autor
Augusto Sampaio Angelim
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