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Cultura e Deus

Cultura é Deus.

Nada e tudo.

É invisível, mas se debate sua existência.

Para alguns, cultura é universal.

Assim como Deus.

E se a globalização quer unificar as culturas, não falta quem queira unificar os deuses.

Para muitos, porém, cultura é algo pessoal; não tem nada disso de macro, não.

E quem nunca falou “Deus está é em você”?

Há quem diga, entretanto: “Deus está nas pequenas coisas”.

A cultura também está nas pequenas coisas, defendem muitos.

No aperto de mão, no beijo no rosto, em uma festa, em uma música, no comportamento no trânsito. É tudo pequena coisa. É tudo cultura.

Assim como no aperto de mão, no beijo no rosto, em uma festa, em uma música, no comportamento no trânsito. É tudo pequena coisa. É tudo Deus.

Ou não.

Deus pode ser grande.

E a cultura também.

Aliás, Deus não existe; você pode vê-lo?

Cultura não existe; você pode vê-la?

Ah, aqui há uma pequena diferença, pois quem defende que cultura não existe constitui um grupo menor que os ditos ateus. A semelhança vem quando mesmo essa maioria que admite a existência da cultura não age como se, de fato, ela existisse. Essa tal intolerância.

Por outro lado, a maioria da maioria (perdôo-me a repetição) dos religiosos age também como se Deus não existisse. A não ser para pedir uma coisinha, agradecer o pão e a saúde (porque dizem que só pedir pega mal), dar uma rezadinha aqui, outra acolá.

Então, cultura é Deus, de qualquer forma.

Tem gente que compara culturas. Antropólogos sentem calafrios, sociólogos põem a mão na testa. Que coisa feia comparar culturas!

Há também quem compare deuses. O verdadeiro Deus, o Deus da Salvação... E quem nem reconhece a existência de um outro Deus, o que é comparar, também.

Deus é tão volúvel quanto a cultura.

E, se juntar meia dúzia de quaisquer pessoas para debater o assunto, seja Deus ou cultura, vai dar polêmica!

Se Deus é cultural e a cultura é endeusada, por que um não há de ser o outro?

Qual a identidade cultural do brasileiro?

Quem se importa? A identidade é não ter identidade! A identidade é ter todas as identidades juntas!

Qual o Deus do brasileiro?

Quem se importa? Dizem por aí que somos um país cristão - e somos majoritariamente -, mas temos tantas inúmeras e incontáveis religiões e deuses... Qual era mesmo a pergunta? “Qual o Deus do brasileiro”? É; quem se importa?

Tem aqueles mais envergonhados dos deuses do Brasil, principalmente dos oriundos da África, que vão garantir de pés juntos que, no Brasil, o único Deus é o romano - europeu é mais cult.

Tem também quem se envergonhe da cultura brasileira e, mesmo que adore um futebol, uma mulata e um carnaval, vai contar aquela piadinha batida: “Deus, quando fez o mundo, quis ser o mais justo possível. Então, em terras boas pôs mau povo e vice-versa. Assim, surgiu o Brasil, como fiel retrato desse equilíbrio divino. Terra maravilhosa e povo estúpido e imbecil! Já no Japão, por exemplo...”

E até nas piadas Deus e cultura se misturam!

A discriminação no Brasil é racial, econômica ou ambas?

Ambas! É também sexual, etária, religiosa...

É contra deficientes, quem Deus não fez perfeito.

É contra loiras, pois são burras; contra negras, pois são feias.

Contra magros, pois são fracos; contra gordos, pois são feios; contra musculosos, pois são burros.

Deus, se fosse criar um homem totalmente livre de preconceitos, ver-se-ia em dificuldades sérias!

O homem é o lobo do homem, Hobbes; concordamos! Mas é também o lobo de Deus, o lobo da cultura.

Deus também é lobo!

Deus é um lobo temido, porém, ao contrário dos homens.

É difícil, mas chega uma hora em que confiamos em um homem. Já em
Deus confiamos sempre com um pé atrás. Ele é tão forte!

Deus é lobo do homem, da cultura, de demônios e de outros deuses!

Deus é carnívoro e vegetariano, assim como a cultura.

Ambos ajeitam as massas, possibilitam uma convivência pacífica, seja através de leis, tratados ou um toque de amor, mas sempre prontos para o combate. Se desejas a paz, prepare-se para a guerra. Não é assim que a bíblia diz?

A Filosofia criou Deus, depois o matou no século XIX (pobre Nietzsche que leva essa culpa injustamente), o ressuscitou no XX e seus assassinatos se abrangem à cultura. A Filosofia mata esta também, constantemente. Mas é tão prepotente que não se dá conta disso e tão hipócrita que, quando assim percebe, não admite!

Mas tanto Deus quanto a cultura são maiores que a Filosofia, conhecimento elitista disfarçado por uma legitimação qualquer.

E Deus chora ao ver um mundo mau, dizem os poetas. Estes, sim, merecem créditos. São os poetas que deveriam mover o mundo, não os filósofos. Mesmo às vezes também prepotentes e hipócritas, fazem, ao menos, o mundo mais bonito, ao contrário dos últimos.

Mas a cultura chora também. Se ainda não houve poeta que assim falasse, deveria!

A Universidade, nesse mundo regido por Deus e cultura, toma partido da Filosofia e ajuda a matá-los. Pobre mundo acadêmico, tão longe da poesia.

Sem mais!

Sem mais Deus, sem mais cultura!

Se um prosseguimento houver, quantas mais contradições haverão de
surgir!

E quão mais caótico haverá de ficar tudo isso!

Mas que Deus é cultura e cultura é Deus, isso é!

Ou não; quem se importa?
Marcelo Maio
Enviado por Marcelo Maio em 16/10/2007
Reeditado em 27/02/2009
Código do texto: T696887
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Marcelo Maio
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 31 anos
154 textos (3150 leituras)
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Marcelo Maio