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IMPRESSÕES DE LEITURA: VIDE O VERSO !

Em mãos o livro VIDE O VERSO, de Paulo Buzatto & Ely Belles, 2004, que me foi ofertado pelo co-autor Buzatto, ao final do 1º Sarau Poético Musical da Associação de Arte e Literatura da Zona Norte de Porto Alegre – AALZON. O ato foi coordenado pelo presidente Ruy Franceschini e por Ieda Cavalheiro, secretária e apresentadora do evento, realizado no dia 10 de agosto de 2004.

Constato, na obra, poemas interessantes pela forma e pelo tema: 01. Quiçá; 02. O Extado; 03. Etc e tal (sic); 04. Cidade grande; 05. Uso popular; 06. Exilados; 07. Disse que disse.

A proposta poética ficou prejudicada pela apresentação do livro: precariedade da edição, inexistência do endereçamento do autor e do editor e não apresentação de numeração de páginas. Trata-se de edição singela, inexpressiva, lembrando a militância socialista e o natural panfletarismo underground (?)

Tudo plenamente compreensível. Autores novatos a mostrar a sua arte. Querem os brotos de suas lavraturas andando no mundo por suas próprias pernas. Os livros são suas pernas-de-pau, simplesmente, sem roupagens de festa. Não há grana nem apostadores que arquem com o patrocínio.

A lavra dos poemas, sua urbanidade de cena e crua linguagem, sem rebusques, nada de preocupação com a metáfora e os cânones tradicionais, lembram o americano Gregory Corso, principalmente em “Gasolina & Lady Vestal” – poesia urbana, Coleção Olho da Rua, L & PM Editores, 1985.

Os poemas relatam a voz popular de dois autores – dueto na voz poética – fato muito incomum por estes brasis. Dois bardos lidos, no mínimo informados (e inconformados) com o que ocorre no mundo de hoje.  Botam eles a boca no mundo como arautos dos tempos modernos, utilizando as suas trombetas eletrônicas:

“EXILADOS
É
um ultraje,
um degredo,
vítimas de um soldo tão pequeno,
vivem à custa de favores,
sujeitos
aos currais do passe livre,
às porções das cestas básicas,
às longas filas da saúde,
gerações de aposentados,
mendigos na anciania,
alienígenas no país que construíram.”

Lembram, no nosso meio mais próximo, a voz de Rossyr Berny aos 18 anos, em seu primeiro livro, o “Homem Autômato”, de 1976, que constrangeu inclusive a mim, por sua dureza de linguagem. O mesmo ocorrera na década de sessenta, com o maduro Hugo Ramírez, aos 45 anos, que fundira e legara à posteridade uma poesia mordaz e denunciadora de novos tempos, no seu “A Era Feroz”, em 1967, e em a “Véspera do Caos”, no ano seguinte. É de lembrar também o poeta Carlos Aguiar, com criações poéticas da década de setenta, vindas a lume no seu “Na mala do louco”, em 1985.

Uma plêiade, enfim, de preciosos vates que, se não previam o futuro, como é da origem da palavra e do verbo latino vaticinare, ao menos estavam em consonância com a sua época, e os seus versos são gumes afiados denunciando “os anos de chumbo” em que viviam.

E estes precisavam ser corrigidos nas veredas do conviver, através do Idealismo, do Altruísmo e do Amor, congeminados na Liberdade. É esta a rainha dos albores de todos os tempos, na cabeça dos que pensam mudar o mundo, dar-lhe nova face pela palavra.

Enquanto o solidarismo é a pedra-de-toque permanente do verdadeiro poeta, inoculemos o dardo da inspiração – novo ou antigo – no coração dos poucos que lêem, neste país pleno de futuro e também pejado de ansiedades sociais.

“Beleza é fundamental” como queria Vinicius de Moraes, não só para as mulheres e, sim, para uma Pátria que precisa cantar o contemporâneo e suas espertas angústias. Nada de desesperançar. O Brasil, intenso e imenso, vive no coração de seus poetas.

De parabéns os autores Ely Belles e Paulo Buzatto, denunciantes e visionários. É muito bom quando os poetas, os vates, os profetas, cantam em coro.

O dueto destes moços, nas páginas abertas do livro, é a tentativa de operacionalização de seus sonhos de mudanças. O sonho é essencial para o artesão da Poesia.

Sem operacionalizar o sonho, como se antever o Belo no lixão do Mal? E como encontrar o possível nos redutos do caos?

Hosanas à Poesia! Nem tudo está perdido!

– in OFFICINARIUM – Amor & Inclusão Social, 2:1, suplemento do RS LETRAS, setembro de 2004.

– do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006 /2007.
http://www.recantodasletras.com.br/ensaios/710308
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 26/10/2007
Reeditado em 26/04/2008
Código do texto: T710308
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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 70 anos
2776 textos (755038 leituras)
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Joaquim Moncks