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DESENTENDIMENTO COM A MINHA LÍNGUA AS CUSTAS DE UM SER PROLIXO

DESENTENDIMENTO COM A MINHA LÍNGUA AS CUSTAS DE UM SER PROLIXO
O Homem Suburbano Desenvolve a Essência do Indivíduo
Sylvio Neto

“ Ela vai/ela vem/ depois dela
depois dela não tem pra mais ninguém”
MAX DE CASTRO – SAMBA RARO
                                                                                                                                                                                                                     

“ Samba fala na minha língua
Me pisa , me prova.
Ele sabe me provocar”
MAX DE CASTRO – SAMBA RARO

“  Eu meto quando quero/
mas só de camisinha/ a galera fala/
 mas que se  foda porra, /
    a buceta é minha”
MC SABRINA - PROVIDÊNCIA


A literatura mundial é vasta e antiga. Através dela o leitor pode conectar-se muito facilmente com as diversas escolas literárias e também com o ambiente ético, moral, antropológico, filosófico, ideológico, político-social e econômico de diversas nações e culturas, tanto quanto com paisagens, odores, sabores e ares nas diversas partições de tempo que o homem fundou. Pode ser levado a remota e antiga Mesopotâmia ou ser trazido ao inferno contemporâneo do Iraque, pode ser levado ao Éden dos primeiros seres humanos bíblicos – Adão e Eva – ou aos laboratórios dos novos seres humanos produzidos em série pela biotecnologia. Estamos falando aqui da Bíblia, do Alcorão, de A República de Platão, de Ética a Nicômaco de Aristóteles, do Livro Vermelho de Mao Tse Tung, de Crime e Castigo de Dostoievski, dos Versos Satânicos de Salman Rushdie, de Casa Grande e Senzala de Gilberto Freire, de Raízes do Brasil de Sérgio Buarque, do Bem Vindo ao Deserto do Real de Slajov Zizeck e de tantos outros que se aqui listados consumiriam toda a nossa paciência.
Erguem-se verdadeiras montanhas os volumes da literatura que aqui tratamos, se empilhados. Vergam-se estas cordilheiras literárias hora para a mais completa e correta absorção por parte de seus leitores e hora para a mais completa e absoluta incompreensão. É ali daquele lado que se erguem verdadeiras muralhas ao entendimento, pois que, muitas das diversas páginas que a literatura oferece, são enormes armadilhas e arapucas prontas a desconstrução do saber e do deleite prazeroso do ler (na verdade prestam-se a esta missão não por conterem em si, a intrínseca vocação maléfica para gerar tal ação, mas por existirem assim, assim, sem se fazerem entender). São enormes os fossos, os pântanos, as áreas movediças e os mares de lava que separam o leitor e a sua leitura do significado dado ao texto por seu autor. Imagine a obra Spinozana sendo lida por incautos leitores desacostumados com a textura filosófica do autor citado...eleve a imaginação até a leitura da obra Cartesiana e seus encontros e desencontros. Não são leituras fáceis.
De todo, vale a pergunta, por que escrevemos o que não conseguimos fazer entender? Tanta leitura...que muito parece cálculo...literatura matemática seria um bom índice remissivo para classificar tais textos, de frases inteiras como expressões algébricas, de parágrafos parecidos com fórmulas de integrais ou diferenciais.
Renato Aranha, um bom amigo e professor de Língua Portuguesa e Literatura que há muito não comentava minha poesia e enfim meus textos, veio comentar o último poema classificando-o de fácil, simples, possível de ser entendido – direto:
“ Muito bom. Engraçado... a linguagem está bem mais simples do que a de costume, embora isto não represente perda de apuro poético. Particularmente, gosto mais assim. UM GRANDE ABRAÇO, PARA UM TRISTE REI DAS PALAVRAS.QUE AS NUVENS SE DISSIPEM  E O SOL POSSA BRILHAR E REINAR SOBRE AS CORES DO SEU SER, SOBRE O PRISMA DE SUA ALMA.”

AS VISTAS QUE MEUS OLHOS OLHAM
 Há mais vistas  que meus olhos  olham - muito além  do chão - acredite
 No sonho acordado  enxergo cenas da vida  com texturas de seda
 com flores e arabescos  compondo um lindo bordado
  Nos sonhos, sonhados  quando o corpo e a mente  quase descansam
 enfrento dragões, quimeras  monstros lendários e contemporâneos:
 deleito-me com beijos de amor
 paisagens onde o belo  não tem fim
 choro e riso se misturam
 e quando acordo -  vai se o belo sonho -  e os pesadelos insistem
 em ainda viver em mim
  Há mais estrelas  em meu caminho, mente  e corpo são - que as que
 posso contar no céu,  sou o universo inteiro
 jorram inferno e céu de minha caneta  como raios, ventos e trovão
 segue ela os volteios  de minha mão  que é pingo d´água, chuva
 queda d´água, marola  onda de meu coração
   meu coração bate, pulsa, explode,  dói...sob o comando
 do pulsar, quasar, buraco negro
 toda ou outra dimensão  que cria , ordena e ordenha
 o pensamento  que cria a mãe mente'
 intelecto, objecto,  trama neuronial  de absurdo impacto
 neste corpo celeste  unidade rupestre  que habita o chão
   O mesmo chão  que é jardim,  casa-mata, porta-mina,  armadilha e plantação
   o chão que  que meus olhos  olham  procurando por mim
 o chão que meus olhos  procuram,  procurando por um
   um que seja o oposto  e que me faça par - uma
 um que seja o caminho  que me possa abrigar  um infinito universo
 de letras e palavras  poeta que soul

È bem verdade que sou subjetivo demais e que crio uma textura por demais prolixa (sem maldade, mas com intenção), beirando rumores filosóficos (que pretensão). Nós poetas somos filósofos, sim. Em muitos momentos não estamos a produzir dialéticas ou retóricas, rimamos simplesmente os acordes harmônicos do dia a dia, das paisagens urbanas e rurais e do amor universal e em outros estamos a criar palanque de defesa e ataque, a verborragizar neologismos e a deter a rima, esta adocicada sereia que encanta os apaixonados, os jurados de concursos literários e a poetas nem tão poetas assim, pois a poesia não serve somente a estética, muito mais e antes de tudo a uma construção ética (de universo, de mundo, de livro, de comportamento, de pensamento, de atitude, de paixão (...))
Recentemente participei de dois concursos literários: Redação para Professores (A Palavra na Era da Imagem) – Folha Dirigida e III Concurso Nacional e Internacional de Poesias do CPAC (Centro de Poesia e Arte de Campinas) – tema: raiz ou raízes, o primeiro privilegiaria os três primeiros colocados com prêmios em dinheiro e aos cem primeiros  o brinde de serem publicados em uma coletânea, o outro premiou com brindes os cinco primeiros.
Não estive premiado (como já se torna natural e normal). Fiquei pensando: - qualidade, simplicidade, ininteligibilidade?O que faltou, o que foi de menos, o que foi de mais?
Daí surgiu à vontade de escrever, sobre escrever sem se fazer entender e também de procurar a essência da simplicidade no escrever. Comprovo aqui neste texto que tento terminar a horas, que existe uma fraqueza minha em dar ao texto a  vida que quero, pois  sem autoridade vejo-o ir-se autônomo, a  se construir sozinho, e vai assim ele se fazendo, complicando, prolixizando, me danando e fazendo-me perder os prêmios, que me exigem o ego de poeta de merda e prosador sem moral e força.
Hoje, 09Nov05, fiquei feliz  com todo este drama matemático literário, com todo este estigma pseudoprolixo vendo as histórias de Nelson Rodrigues contadas a Sérgio  Brito (Arte com Sérgio Brito, TVE, canal 2), por seu filho Nelson Rodrigues Filho – O barbudo Nelsinho. Nelsinho e Sérgio falaram da simplicidade do que era escrito por Nelson e daí vinha sua genialidade, pois que o que continha ali era extremamente complexo, pois que era o cotidiano familiar, das relações de amor e amizade, do dia a dia: “A vida como ela é”, enorme sucesso no jornal Ultima Hora (recomendo a leitura da autobiografia de Samuel Wainer). Nelsinho destila uma frase do pai que adorava o subúrbio e dele a sua simplicidade: “O homem suburbano desenvolve a essência do indivíduo”.
Pensei... Caramba!, Eu sou suburbano, vivo em um microcosmo genial, cercado de uma simplicidade genial que inspira a muitos (inclusive a mim mesmo). Recentemente soergueram-se de pequenos mundos, importantes escritores como Paulo Lins (autor de Cidade de Deus), Ferréz (autor de Capão Pecado, Manual Prático do Ódio e .......) ou aqueles que escrevem sobre o corriqueiro dia a dia dos pequenos mundos trazendo até nós a complexidade e a verdade sobre os valores, projetos, formatos e entendimentos de vida de suas comunidades, na verdade um olhar especial à coexistência de múltiplos valores e fraquezas que se agregam e/ou diluem a todo instante, que é o caso da galera que faz a  Literatura Marginal. Existem também aqueles de não se bastaram a olhar de fora (mundo Macro Urbano) para dentro (mundo micro Suburbano/Comunidades) e literalmente invadiram o subúrbio, as comunidades e ali onipresentes, simplesmente escreveram sobre o calor de sua pele já miscigenada com a da comunidade como é o caso de Rubem Fonseca (entre outros). Senti-me honrado e feliz como já disse pois escrevi e publiquei no site: www.recantodasletras.com.br/autores/sylvioneto o ensaio “ Desengano Suburbano”. E se não possuo a genialidade talentosa de Nélson Rodrigues, pelo menos o faro para tornar-me simples, eu tive, ao captar a essência da complexidade do fácil, que também estão nos microcontos “O Mito” e “ Seu Mundo Pode ser Criado”, “ O Senador dos Bares “ também no Recanto das Letras.
Ando agora assim, a preocupar-me com a simplicidade de meu texto e com a sincronicidade entre a minha poesia e meu ambiente. Viva Nelson Rodrigues, Viva Paulo Lins, Ferréz, os escritores quase anônimos da Literatura Marginal e a Rubem Fonseca.

(*1) Em 26/11/05, a TV CAMARA apresentou um programa que falava de literatura com Martinho da Vila. As maravilhosas declarações de Martinho da Vila foram a força e o reforço a publicação deste. Principalmente quando tratam das referências dadas nos rodapés ou mesmo no corpo do texto de biografias e/ou monografias sobre ícones da musica popular brasileira, principalmente quando em referência ao samba – tais referências muitas vezes de autores com textos rebuscados e com uma linguagem difícil, afastam os leitores com menor grau de envolvimento intelectual.
(*2) Em 27/11/05, estive participando como convidado do Festival Nacional de Poesias Poesia Voa, no Circo Voador/RJ, tudo o que vi, ouvi e fui . confirmam a minha necessidade pessoal de publicar este texto.
(*3) Nesse mesmo evento, Bruno Cattoni apresentou a Poesia Funk (dos morros/comunidades/favelas cariocas – de Cartola e contemporâneos a Mc Sabrina e Mc Julinho e Junior – palavras sem maquiagem, sem refresco e frescor. Vivas a Bruno e Tavinho, pela coragem e pela provocação colocada em postas as mesas do Circo Voador e da Literatura Nacional.


Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 29/11/2005
Código do texto: T78471
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
73 textos (11982 leituras)
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Sylvio Neto