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VIAGEM ATRAVÉS DO PENSAMENTO



   Debrucei-me sobre o braço que estava apoiado na poltrona e deixei que o pensamento partisse rumo a qualquer lugar, que não estivesse circunscrito ao ambiente e ao mesmismos de todos os dias.
  Diante das alternativas e palavras que ouvira durante todo o dia, daquilo que vira ou sentira e mesmo pensara, passei a analisar qualquer situação que não fosse apenas o comum e normal.
  Viajando através do meu pensamento, coloquei-me perante mim mesmo e os questionamentos vieram à cabeça de forma apressada e com certo tom de cobrança.
  Passei a ser cobrado por tudo o que acontecia no mundo. Eu achava que  poderia participar do processo evolucional, mas nada havia feito para  a melhoria do ser humano e conseqüentemente da nossa sociedade, que se achava perdida, beirando um abismo criado durante centenas de anos de mentiras e  enganações.
  Como advogado do diabo, meu próprio pensamento se esquiva das acusações e carrascos que aparecem diante de mim e me defende alegando inocência diante das constantes burrices e da própria insensatez humana.
  Meu pensamento, livre, pairava sobre as duas correntes entre o advogado e o acusador, procurando, no entanto, justificar-se diante do injustificável.
  Parecia que dentro de minha cabeça minha consciência perdia a vontade e outra forma de pensamento se manifestava dentro do meu cérebro e falava de coisas que eu geralmente não falava ou mesmo comentava.
  Entre as perguntas que podia e ouvia deste outro “eu” que dentro de mim se rebelava contra a própria razão que coordenava a defesa e acusação, no seu papel de juiz, surgia constantemente aquele “eu” solto e independente que gritava, insurgindo-se contra toda e qualquer norma de conduta tão cristalizada dentro deste nosso mundo já tão caótico.
  Ouvia tudo ao meu redor e a análise que surgia era de constante necessidade de maior participação nas ações de melhoria e não apenas nas críticas que pudessem surgir em decorrência de tantas coisas que via no mundo com tão alto grau de inutilidade.
  Abri os meus olhos tentando afastar de meu pensamento tais diálogos surdos, porém que incomodavam, diante do meu entendimento de ser inocente num mundo onde só existem vilões e vítimas.
  O que realmente seria necessário para a transformação deste mundo era algo que ainda deveria surgir para valorizar o trabalho de muitos que realmente se engajam dentro do contexto social e fazem aquilo que planejam, enquanto outros apenas esbravejam e se lamentam.
  Fecho novamente os olhos fingindo dormir para não ter que escutar os constantes pedidos dos filhos, que  cobram aquilo que ainda não merecem. Finjo dormir, porém com a fuga aos pedidos surge a dualidade que se digladia dentro de um ego ainda incompleto em busca de um caminho para seguir e não ficar preso ao nada, que toma a forma de real.
  Ausento-me dos sons que me circundam e o enorme vazio se instala num espaço às vezes caótico de falta de ordenação de rumos que devem ser seguidos com um objetivo que seja real e consistente.
  Analiso cada palavra ouvida, cada sensação, sentindo cada sorriso que vi e passo a entender e sentir de acordo com tudo que vejo, sinto e penso.
  Quando me refiro ao pensamento, passa velozmente dentro de minha cabeça a figura de Descartes, que num ato de lucidez passa a ser visto em virtude do seu pensamento.
  Passam por minha mente, velozmente como se a jato, as figura de Shekspeare , Lavoisier e  dentre outros, a irreverente atitude de Einstein mostrando para todos sua enorme língua, como se  mandasse todos às favas.
  Quando participamos do contexto da nossa sociedade trazendo algo de real e concreto, nem sempre nos ouvem, porém após nossa morte passam a nos reverenciar como verdadeiros deuses e quase  tudo é aceito.
  Enquanto meu pensamento procura se ausentar do cotidiano cheio de dores e sofrimentos, que se vê em todos os momentos através de notícias que nos são passadas através das redes de comunicação, sofro por entender que a maioria gosta e precisa disto para poder viver.
   Complexidade da raça humana, que tentando sobreviver se agride e mata em nome de direitos que são criados para manter uma meia dúzia no poder e com todos os poderes.
  Os pobres diabos que perderam o direito de pensar, nem ao menos tentam ouvir a verdadeira razão que lhes cutuca uma alma sofrida e ao mesmo tempo comportada dentro do sistema que elas mesmas aceitam como únicas verdades.
  O saber, o conhecimento é produto raro e pouco apreciado, pois importa em trabalho e pesquisa e isto somente uns poucos ainda perquirem.
  Meu pensamento não se sujeita às normas que foram criadas e que tentam aprisionar os rebeldes que buscam e pesquisam sobre si e mesmo a razão de sua própria existência. Sigo buscando um apoio onde possa pisar sem ter que escorregar ou cair dentro de um fosso tão profundo que aprisiona todos os incautos.
  Vez ou outra um filho me interpela e, fingindo estar alheio ou surdo, continuo a seguir e ver os caminhos que foram traçados em todas as direções, tentando com isto chegar ao lugar que sempre quero e desejo.
  As mensagens que nos são ditadas nem sempre retratam aquilo que querem nos impingir como verdades ou mesmo necessidades.
  E este pensamento livre continua seguindo, fugindo dos modismos e das ignorâncias do mundo.


 16/07/03
Vanderleis Maia
Enviado por Vanderleis Maia em 30/11/2005
Reeditado em 07/03/2009
Código do texto: T79090
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Sobre o autor
Vanderleis Maia
Imperatriz - Maranhão - Brasil
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Vanderleis Maia