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O Ano bissexto e o dia da mentira

 O ANO BISSEXTO E O DIA DA MENTIRA

                   José Augusto Carvalho

      O calendário romano tinha três datas com nome próprio: Kalendae ou Calendas (o primeiro dia de cada mês), Nonae ou Nonas (o dia 5 de todos os meses, exceto março, maio, julho e outubro, em que Nonae designava o dia 7) e Idus ou Idos (o dia 15 para aqueles quatro meses e o dia 13 para os outros meses). Os outros dias de cada mês eram citados a partir daqueles três nomes. Exemplifiquemos: o dia 3 de abril era chamado “o terceiro dia antes das nonas de abril” (“ante diem tertium nonas Apriles”); o dia 9 é o “quinto antes dos idos de abril” (os idos de abril caem no dia 13); o dia 26 de abril era o “sexto dia das calendas de maio”.
      Em outras palavras, em lugar de numerar os dias em seqüência crescente, como fazemos, os romanos preferiam numerar os dias usando as palavras Calendas, Nonas e Idos como pontos de referência. Para se ter uma idéia, a expressão “desde 3 de junho até 31 de agosto” se dizia em latim como “terceiro dia antes das nonas de junho até o primeiro das calendas de setembro” (“ante diem III Nonas Junias usque ad pridie Kalendas Septembres”).
      O dia 24 de fevereiro era chamado “o sexto das calendas de março”. No nosso calendário, o gregoriano, no ano bissexto, temos um dia a mais, acrescentado ao último dia do mês de fevereiro. Mas, no calendário juliano, o dia a mais era acrescentado ao dia 24. Ou melhor: havia dois dias de número 24. Portanto, havia duas vezes o sextus dies (bis sextus) antes das calendas de março. Desses dois sextos é que se originou a expressão “ano bissexto”.
             Com relação ao dia da mentira: Abril vem de aprilis, nome de um dos espíritos que seguiam o carro de Marte, deus da guerra, que deu nome ao mês de março. Assim, aprilis não se relaciona com abrir (latim: aperire), mas com o grego Apros ou Afros, designativo de Afrodite, nome grego da deusa Vênus a quem abril era dedicado, ou com o sânscrito áparah, que significa “posterior” (aparentado com o gótico afar ou aftra, que significa “depois”), pois abril era o segundo mês do ano, no calendário civil de Rômulo (daí os nomes setembro, outubro, novembro e dezembro para os meses sete, oito, nove e dez, respectivamente). A relação de aprilis com aperire (abrir) surgiu posteriormente, na vigência do calendário de Numa Pompílio, que instituiu os meses de janeiro e fevereiro, por ser abril o mês da primavera, em que “todas as coisas se abrem”.
      Nas modificações efetuadas por Numa Pompílio no calendário de Rômulo, o ano civil tinha um erro de dez dias em relação ao ano solar, por isso ele tentou corrigir o erro acrescentando um mês de dez dias entre 23 e 24 de fevereiro. Mas essa solução trouxe tantos problemas que, em 44 a.C., Júlio César resolveu modificar novamente o calendário, dando ao ano a duração de 12 meses ou 365 dias, de acordo com o calendário egípcio. Foi um astrônomo de Alexandria, chamado Sosígenes, que descobriu que o ano civil tinha seis horas menos que o ano solar. Assim, Roma instituiu que a cada quatro anos seria acrescentado um dia em fevereiro. Como vimos, linhas atrás, o dia 24 de fevereiro era chamado “sexto das calendas”. Com o dia adicional (acrescentado após o dia 24, com a mesma numeração), houve dois sextos (=bissexto) das calendas.
      A reforma que Carlos IX empreendeu na França em 1564 apenas obrigava os franceses a seguir o calendário juliano (com o ano começando a primeiro de janeiro). Até então, e desde Carlos Magno, era o calendário de Rômulo (com o ano começando a primeiro de março) que vigorava na França.
O papa Gregório XIII, em 1582,  reformou o calendário, ao verificar que o calendário juliano havia incorrido num erro anual de 11 minutos e 8 segundos. Desde o ano 44 a.C. até 1582, por causa desse erro, havia uma diferença de dez dias. Para compensar esses 10 dias e regularizar a contagem do tempo, o papa determinou que ao dia 5 de outubro de 1582 deveria seguir-se o dia 15 de outubro, e não o dia 6. A reforma gregoriana causou confusão com as datas e as comemorações tradicionais. O dia 21 de março corresponderia ao fim do signo de peixes. A confusão de 10 dias fez crer que o dia primeiro de abril era ainda de peixes, isto é, o signo pularia dez dias para terminar no dia primeiro de abril. Em francês, a expressão poissons d’avril, isto é, peixes de abril, passou a designar as mentiras de primeiro de abril, porque até o nome abril, por engano, teria passado a ser considerado como o primeiro dia do ano, a abrir o ano. Da França, o dia dos enganos se estendeu ao resto do Ocidente.






José Carvalho
Enviado por José Carvalho em 29/12/2005
Código do texto: T91633
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Sobre o autor
José Carvalho
Vitória - Espírito Santo - Brasil, 76 anos
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