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MORTE ESPETACULAR

                                  MORTE ESPETACULAR

                                                                                Sylvio Neto


        “A vida real não pode ser representada por quadrinhos coloridos”

                                               fala de Elijah Price – Filme “Corpo Fechado”

 

         No filme “O Colecionador de Ossos”, um serial killer (como é normal nesses filmes), vai deixando uma série de pistas e evidências que indicam onde matará a próxima vítima.

            Em uma das cenas Lincoln Rhymes, médico legista famoso em N. York, tetraplégico e autor de vários livros, inclusive do manual da Academia de Polícia, personagem vivido pelo talentoso Denzel Washington, que entrevado em uma cama, guia mais de uma dezena de policiais em um processo investigativo que parece com a saga de Ulisses em sua tentativa de chegar à saudosa e idílica Ítaca, diz com base nas provas:

         - “Talvez queira dividir a responsabilidade das mortes com a gente e se não descobrirmos as pistas em tempo o sangue está em nossas mãos e se não descobrirmos as vítimas a tempo somos tão responsáveis pelas mortes quanto ele”.

         Coincidência ou não (existe isso?), no momento em que o programa de televisão Esporte Espetacular de domingo 21 de nov 2004, exibia reportagem sobre uma prova de ciclismo de resistência em pleno sertão piauiense, que anunciavam ter sido mal planejada e executada, tendo por isso levado à morte de uma das atletas, eu assistia ao filme acima citado. Dividi minha atenção com os dois eventos e tive motivo para este texto.

     A reportagem constatou os erros durante a prova, gravou-os em vídeo e ofereceu-nos com uma bela edição.

    No domingo, que é dia de descanso e lazer, a Rede Globo de televisão, ofereceu-nos então, um documentário detalhado da morte de uma atleta. Um Trhiller de tristeza onde a todo o momento eram relatados e mostrados em tempo real os erros cometidos pela organização do evento.

   A desistência de atletas ao longo do longo percurso foi algo bem explorado. As contínuas conversas com a atleta que viria a falecer por insolação, davam o tom contraditório à cerca da opinião da reportagem sobre o evento, pois caminhava ou pedalava ela com força sobre humana, demonstrando mais persistência, teimosia e garra que os seus companheiros de prova, inclusive homens.

   Tamanha teimosia seria infelizmente coroada a posteriori com a morte, provando que muito ao contrário do que parecia, a atleta usava e abusava de uma força mental insana e de uma tática de modulação física errada contra as agruras naturais daquele ambiente inóspito e surreal para um corpo que para estar ali, não houvera sido devidamente adequado, preparado e assistido antes e durante o percurso da prova por quem de direito.

   Excesso, seria um bom rótulo ou título para a reportagem que mostrou em detalhes o exagero dos organizadores no que tange as dificuldades e ao esforço físico exigidos pela longa distância a ser percorrida e pelas desventuras a serem enfrentadas contra a  diversidade natural cáustica, semi-árida e produtora de um esforço onde era necessária a sinergia de um gigante para conseguir vencê-las.

   Excesso, ainda, na edição da reportagem que interpretava o que podíamos constatar e julgar com nossos  próprios sentidos e razão. Aquela verdade, mostrada nas imagens permeadas de paisagens que o brasileiro de um modo geral não tem a oportunidade de conhecer, se não, em documentários, catálogos de agências de viagens ou fotografias em livros didáticos, não foi a verdade romana, veritas, ali estava a verdade interpretada, sugerida e imposta da matéria jornalística.

   O cantor de pagode, Belo, foi indiciado por associação ao tráfico por ter ousado envolver-se com um traficante em um negócio confuso envolvendo empréstimo de dinheiro, tênis que na verdade e no código do submundo significa fuzil AR-15 e ainda distraidamente permitir que suas conversas de negócios fossem gravadas e trazidas a público.

   Condenado, arquiteta uma câmara secreta em sua própria casa e lá se esconde em um pick-nick (cerveja, televisão, dvd, e etc...) com seu cunhado. Descoberto e preso, estende a oportunidade da prisão a seu desavisado companheiro. Estar acompanhado de condenado em processo de fuga, ou ajudá-lo nesta causa é crime: um deles é a co-autoria, talvez outros enquadramentos possam ser aqui tipificados por especialistas.

    Filmar, acompanhar, constatar através do bom senso, através das imagens, através da véritas (a verdade que é - romana), através da alenthéia (a verdade que foi - grega) e também através dos depoimentos dos atletas desistentes, do hercúleo desgaste a que estavam expostos, da falta de água e de socorro e assistência in loco, durante o percurso, produziram uma constatação relativa, qui çá absoluta do que viria a ser -  ou seja da emunah (a verdade que será, que virá – judaica) - aquele excesso, ou quem sabe, a reprodução dos doze trabalhos de Hércules:

- “Talvez queira dividir a responsabilidade das mortes com a gente e se não descobrirmos as pistas em tempo o sangue está em nossas mãos e se não descobrirmos as vítimas a tempo somos tão responsáveis pelas mortes quanto ele”.

    Será que a atleta que viria a morrer, preparava tanto quanto o personagem já citado, o sr. Linconln Rhyms, a sua transição final. E usa a prova de forma macabra para esse fim?

   Será que no afã, no devir, na pulsação do trabalho a equipe de reportagem, não conseguiu chegar à conclusão que algo deveria ser feito? De que talvez fosse necessário mais que as imagens, que estragaram meu domingo e com certeza o de várias famílias brasileiras, para parar a prova?

   Com a força das imagens e as declarações dos atletas (exceção da que morreria), seria possível parar a prova. A câmera, o jornalista e sua equipe, estavam ali, próximos, alertas, trabalhando, contaminando a cena do crime -  que a natureza cometeria através das mãos do organizador - co-participando de um ato, de um fato, talvez um rito, que culminaria na morte de uma pessoa, quase ao vivo em rede nacional. A equipe constatou e mostrou os espasmos de dor, o quase enrijecimento dos músculos, num conjunto triste de imagem e narração que mais lembra os versos do poeta Augusto dos Anjos:

 “A dança dos encéfalos acesos começa/ A carne é fogo/A alma arde/A espaços as cabeças, as mãos, os pés e os braços tombam/ cedendo a ação de ignotos pesos” (...)

                                       DANÇA DA PSIQUE/EU E OUTRAS POESIAS

 
“Agregado infeliz de sangue e cal/Fruto rubro de carne agonizante/ Filho da grande força fecundante/ de minha brônzea trama neuronial/

Que poder embriológico fatal/destruiu, com a sinergia de um gigante/ (,,,)/

Ah! Possas tu dormir, feto esquecido/ panteísticamente dissolvido/ na noumenalidade do não ser!”“.

                                                                    SONETO/POESIAS
 

    Que seja batido o martelo, a equipe e seus responsáveis são co-autores  do processo, por omissão. Realizaram cirurgicamente seu trabalho, a técnica ultrapassou o humano.

    Que realizassem humanamente sua tarefa de descobrir , desbravar e mostrar o real e  que assim inventassem a humana possibilidade de parar aquele homicídio.

    Não o fazendo, participaram da cena na real possibilidade de que ele acontecesse...

Sylvio Neto
Enviado por Sylvio Neto em 04/04/2005
Código do texto: T9700
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Sobre o autor
Sylvio Neto
Belford Roxo - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
73 textos (11981 leituras)
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Sylvio Neto