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Entre-vistas-de-si-mesmo



Aos 40 anos, o alternativo Maurício Cardoso Garcia é o mais desconhecido poeta da história da Literatura Brasileira. Para o universo literário já escreveu dois livros de poesias, Dendroclasta, São Paulo, SP, 1988; e Paradoxo EUniversal, Natal, RN, 1997. Existem, apenas, alguns gatos pingados desses dois livros, quase esgotados, pela tiragem mínima de 500 exemplares. Tem alguns trabalhos, escritos em prosa, para serem publicados posteriormente, tais como, contos, crônicas, ensaios, reflexões e romances. Todos esses estão aguardando apenas o tempo, para darem ar de suas graças, não mais que seis anos, no máximo. Maurício C. Garcia conta nessa "entre-vistas-de-si-mesmo", ou, como queira, uma auto-entrevista, de como se fez poeta sem ter referência nenhuma na família, como se dá o processo da sua criação e explica o sentido que leva o título de seu último livro, Paradoxo Euniversal.

MC Garcia


MC: O que te levou a escrever poesia, já que inexiste na sua família, qualquer referência para tal fim?

GARCIA: Bom, a priori, eu nunca considerei poesia o que escrevo. Chamo de Minhas Idéias Minha - MIM. É assim, que as denomino, porque tudo que eu quero, penso, sinto, - ou, nenhuma dessas coisas -, escrevo. Talvez, o que tenha me levado a escrever mesmo, fora a falta ou o referencial de tudo aquilo que sempre se diz quando se está a entrevistar um artista: "o meu pai sempre escreveu e eu aprendi com ele"; "eu gostava de ler muito, eu lia tudo que via pela frente", ou, "eu lia Cordel para as pessoas que não sabiam ler"; "eu comecei a escrever aos 10 anos", ou, como já prevendo os futuros gênios da literatura universal, daqui a alguns anos, "eu comecei a ler aos oito anos, li a coleção inteira de Harry Potter; e muitas coisas mais de que você sabe muito mais do que eu. Eu nunca pude nem tive tempo de me interessar por essas coisas, quando do zero aos dezoito anos, a leitura de livros, para mim, era o que menos me interessava, estudava por estudar simplesmente; as escolas não estavam nem estão preocupadas a incentivar ninguém para ler; talvez, acreditasse em transformar-me num autodidata como o meu pai foi e Machado de Assis, também. O meu pai, não precisou de escola para ler e escrever e para se tornar chefe de Estação Ferroviária. Eu morava num sítio, tomava banho de maré, via mulher nua tomando banho no rio de meu avô, subia em azeitoneira, mangueira, cajueiro, jogava bola, pegava goiamum. Esta era a minha poesia ao vivo e a cores; como que eu poderia escrever algo que já fazia parte de mim, ou seja, se eu era a própria poesia em pessoa. Não aquele (dos heterônimos), mas eu mesmo. (risos). Mas, o desejo pela sobrevivência me arrancou dessa Poesia Real e me mandei embora para São Paulo. E, foi daí, que comecei a buscar refúgio na escrita, mesmo sabendo que era péssimo ou sou(?) em Português; e, então, para preencher o meu vazio, passei a escrever, mesmo sabendo que a tirana Gramática iria me inibir e me limitar a muitas coisas, como tem limitado a tanta gente, por aí; agora, já não tenho mais medo, perdi a vergonha para me curar do meu vazio e mandar a Gramática, gramáticos, críticos e tudo mais para o espaço, para preencher assim, o meu vazio. Mas a poesia maior que havia deixado em minha terra natal, Natal, foi a minha família, composta de nove irmãos, que na ocasião, eram oito em casa, fora eu; ou seja, nove fora um. A matemática justificava a minha moira. Mas, para ser mais preciso, no que estou falando, escute essa minha idéia, a qual, redigi quando ainda morava num quarto de pensão, em Sampa:

Meu mar meu mundo macrocosmo
Minha menina mulher maravilha
Marca motiva mente
Movimenta mensagem medíocre
Meu medo meu mal melancolia
Mede meu mundo
Minha messe mulher missionária mãe
Manda milhares miríficas
Mundo mudo
Malandro maltratado maltrapilho
Mundo mendaz
Massacre mostra miragem
Mãos mutiladas matam
Mentira mente modifica meta
Mundo máximo
Mestra miss Mulher
Muda mundo mudo mendaz
Meninos marotos milhões
Maurício Maurílio Marcílio
Máximas meninas marcantes
Marina Marlene Marli
Maílde Marizélia Matilde
Microcosmo mundo maternal
Mulheres mães mártires
Marcando meu Mundo “M”.

MC: Como se dá o seu processo de criação?

GARCIA: Escrever para mim é completude, ou seja, o preenchimento daquela lacuna que está a me incomodar de forma inesperada; não consigo criar espaço nem situação para redigir, é tanto que, quando alguém me pede para que lhe escreva um poema eu digo que não consigo. Não sei fazer poesia - entenda-se como idéia -, engajada, que não seja aquele engajamento que surge na hora em que não quero e quando, às vezes quero, sempre sai outra coisa, de que termino gostando ou não, mas deixo do jeito que está e guardo. Acredito que essa idéia também tem a ver comigo. Já escrevi dentro de metrô, numa oficina metalúrgica - imagine você, o barulho que faz, desculpe, não cabe para você, mas para quem estiver a ler esta - já escrevi, sozinho, em meu apartamento, quando solteiro, já escrevi em meio a multidão. Não acredito nessa coisa de se estar num lugar calmo, tranqüilo para que venha a inspiração, esta aparece em qualquer lugar, a qualquer hora, de qualquer forma, até mesmo dentro da própria transpiração poética, ela aparece. Isto é, pelo menos, para mim. Antes pensava que o que me fazia escrever era estar, morar e viver em São Paulo, sozinho, longe dos meus familiares; uma vez retornando, definidamente para o aconchego familiar, tudo continuou como "dantes no quartel de Abrantes". Antes, eu vivia num processo para a completude de mim mesmo, hoje, já não mais sinto o mesmo vazio, acredito que as minhas idéias, possam um dia ser criação realmente, porque o que tenho feito, é ousar, já que não vivo das minhas idéias, mas sim, tenho vivido muito mais para elas.

MC: Conte-me como surgiu a idéia de lançar um livro?

GARCIA: Nunca me passou pela minha cabeça o interesse de publicar livro algum, mesmo sabendo que, quem escreve quer ser lido ou visto um dia, a não ser, que este se torne auto-inquisidor e incinere tudo que escreveu um dia. E, isto não é muito raro acontecer. Eu costumo dizer, que escrever é retratar a alma alegre ou sofrida, ou seja, escrever é o retrato fiel de si mesmo, que ninguém mais que nós mesmos, é capaz de perpetuar o metafísico em concretude metafórica, graças ao poder da linguagem escrita, falada, etc. Tudo surgiu, quando um colega de trabalho - metalúrgico como eu - me entregou um recorte de jornal, no qual, continha informação a respeito de um concurso de poesias, que por muito insistir, terminei enviando uma idéia que refletia sobre os maus tratos dos animais, intitulada Liberdade. Para a minha surpresa, dois meses depois, recebi uma carta dizendo-me, que havia ganhado o terceiro lugar e, para a surpresa maior, dias após, o mesmo órgão me informava que havia falido. Não sei afinal, se realmente aquela colocação fora real, é tanto, que não me entusiasmei; outrossim, passei a participar mais de concursos e de eventos, em que a poesia era a personagem da vez. Adquiri certificados de honra ao mérito, elogios e mais elogios, notas excelentes, mas nada disso mudava a minha forma de ser ou pensar a respeito das minhas idéias. Contudo, fui vendo que elas eram classificadas como poesias. E para confirmação maior, de todo esse contexto, em meados da década de oitenta, assisti a uma entrevista do, então poeta, Carlos Drummond de Andrade, quando deu-me o conceito de poesia numa simplicidade que era tão dele e, leu um poema, que se assemelhava com algo que já havia escrito e que estava lá nos meus alfarrábios. Daí, foi quando preparei um protótipo de livro: O Recado, em 1987. Nesse ínterim, vim à Natal, passar as férias de dezembro, de 1988; e, quando voltei, O Recado, se transformou em Dendroclasta, o nome do meu primeiro livro.

MC: E quanto, ao Paradoxo Euniversal, que parece soar algo como entidade religiosa, como surgiu esse nome?

GARCIA: Eu, geralmente, procuro induzir as pessoas - desatentas - ao erro, quando estão a ler certa palavra que crio. Poucas pessoas conseguem pronunciar a palavra "dendroclasta", e muitas até, a desconhecem, pensando que se trate de um neologismo, que por sinal, gosto muito de inventar novas palavras. Mas, dendroclasta, não vem ao caso; é um vocábulo encontrado em qualquer "pai dos burros". Quando o intitulei de Dendroclasta, quis induzir as pessoas a imaginar a palavra democrata; e, ao mesmo tempo, na época, em 1988, já se cogitava um encontro mundial, no Rio de Janeiro, sobre a ecologia. Por isso, dendro é árvore; oclasta , destruidor. Quanto ao Paradoxo Euniversal, vesti-me da mesma intenção, ou seja, de posse da palavra, que é dada, que esta aí, para todo mundo, simples, comum, trivializada pelo uso do senso comum que chega, às vezes, a ser despercebida. Digo, quão despercebida, que numa sutil mudança que se dê ou se faça, as pessoas continuam vendo a mesma trivialidade, por se trivializarem, igualmente, àquilo ou naquilo que trivializaram-no. Isto é o que chamo de mudança do geral desgastado, para o particular criativo. Ou seja, de "Universal" para "Euniversal", uma sutil mudança de poder transformador. Vale apenas salientar, que Euniversal, a palavra, só surgiu após quase tudo pronto, mormente, no acabamento final da capa. Assim como o primeiro foi mudado, este também foi mudando, em cima da hora. O nome do livro iria ser, simplesmente, Paradoxo. Nos últimos momentos foi que surgiu o Euniversal. Esta é a vantagem, para quem consegue escrever e editar o seu próprio livro. Costumo dizer, que o que faço, se assemelha ao artista plástico que constrói a sua própria tela, em seu ateliê, e depois, cria a sua arte, pintando. Quanta à semelhança, com entidade religiosa, é apenas uma chamada de atenção, com relação à alienação, para àqueles que confundem o próprio nome do livro.

MC: Há mais de cinco anos que foi lançado o Paradoxo Euniversal; distou-se em torno de quase dez a publicação deste para o Dendroclasta. Por que tanto tempo, para se escrever um livro? Ou já existe algum, no prelo?

GARCIA: Como já falei antes, eu não vivo do que escrevo, escrevo por que vivo. Não dependo das minhas idéias para sobreviver, sinto que iria morrer de fome se dependesse, para me sustentar delas. Não me considero nenhum escritor, que seja capaz de vender livros, como um Paulo Coelho ou uma J. K. Rowling, que são recordes de venda, no mundo inteiro. Me contentaria em vender, apenas, os livros que fossem capazes de cobrir a despesa que tenho, quando os publico autonomamente; apenas isso, já me serviria de grande incentivo e valia, mas, que nem sempre acontece. E, nem por isso, parei de escrever. Continuo a escrever a todo entusiasmo. Tenho projetos, muitas idéias para a posteridade, que me parece, que este vindouro, não me está tão longe assim; apenas, talvez, alguns anos mínimos, em torno de 6 anos no máximo. Mas, acredito, que antes de dez anos, do último que lancei, possa sair algum outro, por aí. Não sou de fazer planos, mormente para isso. Gosto de oportunidades, e sei que sempre surgem, acredito demasiadamente nelas. A minha maior ousadia é lançar um livro em prosa, ou seja, um livro de contos, crônicas, ou, um romance. Este, por exemplo, gostaria de publicá-lo, em torno dos meus sessenta anos, ou quem sabe, em breve. Tudo isso, porque a maioria dessas idéias já está concluída em disquetes e CD ou, em pré-livros, como assim posso chamá-los. Só para adiantar, eis alguns nomes, de alguns deles, que já dão sinal de vida e que já estão a caminho do "prelo": Povarejo (contos e lendas); Cincos Contos Reais (crônica); O Sítio Santa Maravilha (conto); As Reflexões de Ossiab - O Menino de Maré (micro-romance); Amaramor (poesia); Poesia Flertante (poesia); Livro Livre Dy Versos (poesia visual); e, a minha maior ousadia, como disse, o romance autobiográfico, As Reminiscências Oníricas de Ozodirak Narum - O Especialíssimo. Não estou preocupado com o tempo, acho que irei viver muito tempo, talvez, o suficiente de poder ver todos esses trabalhos publicados, independentemente de querer entrar no livro dos recordes. Acredito, que tenho batido os meus próprios recordes ao me surpreender comigo mesmo, com as "minhas idéias minha" acanhadas mas, possivelmente, repletas de ousadias.

MC: Voltando um pouco atrás, o que diz, na sua essência, a intitulação Paradoxo Euniversal, por que este nome?

GARCIA: Eu já esperava por essa sua indagação. Todavia, ninguém melhor do que você, para me conhecer mais que, da minha mão, a palma; conheces mais ainda, a fundo, a minha alma. Por isso, tentarei responder, como se estivesse a me olhar ao espelho, cercado por olheiros, mas ciente de que as paredes, além de ouvido, têm muito mais consciência. Este livro, talvez, seja o único e o último que escrevi, em que busca retratar aquilo que existe de mais íntimo nas minhas idéias. Seria a coisa do ser homem com todos os seus defeitos e virtudes; seus amores e ódios; seu egoísmo e altruísmo; o homem dicotômico e - na sua expressão mais barroca e mais antitética -, o homem que pode se manifestar ou se apresentar, sem se revelar abruptamente, ante à sociedade. Mas que, sutilmente, pode adentrar, em qualquer espaço ou lugar, sem alterar a sua essência do Eu Universal; este "EU" que é intrínseco e que é inerente, a todo ente em extremo paradoxo de si mesmo. Quando falo dos Eus Sociais, com os quais, nós precisamos nos identificar e nos revestir sempre de uma personagem, para representar o momento; digo, todos os momentos, em que somos obrigados pela sociedade, a partilhar de situações adversas; assim como, no trabalho, em casa, na igreja, na escola, no bairro, no clube, no supermercado, na praia; lugares estes, onde jamais, podemos confundir o simples ato de ir à praia de paletó e gravata com o de, de repente, ir à igreja de biquíni; ou, senão, trazer uma pilha de problemas do trabalho e descarregar sobre os filhos ou esposa, ou, levar os problemas de casa, para o trabalho. Todos esses comportamentos exigem uma atitude inteligente, em que se saiba administrar os paradoxos, acima de tudo, Euniversais, que são a inveja, o ódio, a ganância, a falsidade, isto é, dentro da linha de nocividade; e, em paralelo, numa linha salutar, o desapego, o amor, a verdade. Não parece muito fácil conseguir não confundir os papéis sociais quando, em verdade, poucas pessoas conseguem essa façanha. Agora, uma vez conquistado esse espaço, está-se livre do estresse, dos aperreios, das insatisfações do dia-a-dia e, acima de tudo, das confusões constantes, de que se faz, por se confundir um determinado espaço com outro, que não tem muita coisa a ver. Por exemplo, um protestante radical querer discutir, em sala de aula, de que Nietszche está errado, quando diz que "Deus está morto". Eis que estamos diante, duma situação totalmente esdrúxula, mas autêntica, para aquele que não sabe o poder de discernir os seus papéis sociais. O Paradoxo Euniversal, em síntese, procura refletir essa realidade, quão complexa, mas inteligente para se viver e se colocá-la em prática, todos os dias da vida e por toda a vida existente. O único problema desse livro é que, ele foi escrito em versos, e não em prosa, ou seja, não tem as receitas dadas e acabadas, como estão nos, bem-sucedidos, livros de auto-ajuda.

MC: Para fechar a "nossa-minha-e-tua entre-vistas-de-si-mesmo", diz-me o que é ser artista de si mesmo?

GARCIA: Acho isso, um negócio muito arriscado e perigoso; pois, que pode até gerar conseqüências graves, tais como - na atual circunstância - ter que refazer o trabalho, não adquirir a nota suficiente ou, senão ser aceito por pena de não passar ou passar por bobo, louco ou idiota. Contudo, como artista de mim mesmo, assumo o risco desta minha atitude de fazer, do trabalho solicitado em sala, a "minha-tua-e-nossa" entre-vistas-de-si-mesmo, como trabalho final do Professor José Ramos Coelho, Esteta Existencial, cuja disciplina, que ele leciona, é Estética Filosófica. Não sei com que olhos, coração, mente ele verá, sentirá, entenderá essa minha-tua-e-nossa atitude, até certo ponto ousada, em criar uma auto-entrevista. Bom, sinceramente, eu desconheço pelo menos, ao nível de academia, algum docente que tenha acatado tal desatino, de pobre e miserável discente. Certa vez, disse, que ousar é criar e criar é transcender os paradigmas dos convencionais ultrapassados. Para mim, ser artista de si mesmo, não é ficar a se olhar ao espelho, é transpor esse espelho, para ver o que existe no outro lado de si mesmo; estou em busca de me conhecer e não me farei como o fez Narciso. Oxalá, que o aforismo socrático venha a mim fazer conhecer-me a mim, como artista de mim mesmo. O enigma foi lançado, e como Édipo, que teve seu castigo merecido, predestinado em sua moira; o meu, jovem MC, faz-se em enigma ainda a ser decifrado. Oxalá, o mestre o decifre!

Natal, 14 de Março de 2002, dia nacional da Poesia.

CURSO DE FILOSOFIA EM LICENCIATURA PLENA PELA UFRN – ESTÉTICA FILOSÓFICA
 
MAURICIO CARDOSO GARCIA
 
EMECÊ GARCIA
Enviado por EMECÊ GARCIA em 01/05/2006
Código do texto: T148612
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EMECÊ GARCIA
Natal - Rio Grande do Norte - Brasil, 55 anos
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EMECÊ GARCIA