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Entrevista

HOMO OU ÉTERO * * NUANCES


G. Me fale de voce...

- Meu nome é Cas, tenho 22 anos, sou clara, 1.70 de altura, busto e 
bumbum fartos, olhos claros, como tenho tendência para a 
obesidade, após o nascimento de meu bebê, fiquei um pouco fora de 
forma, quer dizer meio redonda. ( rs ) 

Atualmente tento comer o menos possível, mas é muito difícil, então 
faço caminhada toda tarde. 



G. Essa descrição é como voce é, mas me diga 
como voce se vê.
 



- Me vejo como uma pessoa normal, feliz... quer dizer, tenho 
momentos felizes, como todo mundo. 

Tenho às vezes crises de solidão, sinto uma certa angústia por não 
poder realizar meus sonhos, momentos por vezes que me sinto 
perdida nesse mundo louco, a falta de meus familiares... 

Imagino o futuro de minha filhinha, o que será que a vida reserva para 
ela, coisas assim. 

Normalmente sou alegre, expansiva. 

Gosto de dançar, de viajar, coisas que todas as garotas gostam. 





G. De onde és e o que fazes ? 



-Sou de uma cidade média, no sudeste do Estado. de S. Paulo, 
( para e pensa um pouco ) e por motivos que não vem ao caso, acabei em uma casa de tolerância. 

Isso mesmo, vendia o corpo para poder sobreviver. Só quem passa 
por uma situação assim pode entender o pesadelo de Ter de beber, 
agradar os clientes, pessoas que voce nunca viu, aturar suas neuras, 
servir de conselheira e o pior ir para a cama com cada tipo que se 
estivesse na rua a gente desviaria. 

Bem, sempre fui mulher e tive relacionamento só com homens, tanto 
é que tenho uma filhinha. 



G O que mudou em sua vida? 



- Bem, na casa onde eu morava, chegou uma menina mais jovem, até 
que bonitinha, menor que eu e... acabamos nos apaixonando... 

Foi paixão à primeira vista. Não sei que deu em mim... ela já era 
escolada na arte de lesbianismo. 

As constantes troca de olhar, os esbarros ocasionais ( ou nem tanto ), 
um toque suave de mão e... 

Mais dia menos dia, acabamos indo para a cama. 

Tudo ia às mil maravilhas, mas a dona da casa começou a pegar no 
meu pé, pois, não estava rendendo muito , ficava mais com a menina 
e desinteressava em fazer agrados aos fregueses, o que era 
péssimo nessa situação. 

Conversamos sobre o assunto, discutimos com a "tia".. 



G. Que houve depois? 



- Acabamos indo morar na cidade da menina. 

Tudo corria até que bem, quando ela passou a se enciumar demais. 

Eu não podia ir em lugar nenhum sem ela, não podia conversar com 
ninguém e lá vinha bronca. 

A situação financeira era muito ruim, eu tinha que fazer bicos para me sustentar e o pior tinha ainda a nenem. 



G. E daí? 


- As brigas foram se intensificando e não deu outra, nos separamos. 



G. E ela aceitou numa boa? 


Foi por poucos dias e ela me procurou novamente, falou que havia 

errado e que dali pra frente tudo seria diferente... 

Muito tola, e esperançosa, voltei ... 

Voltamos e continuamos a morar juntas e conviver com a espectativa 
de dias melhores. Passados uns meses, tudo volta ao normal... as 
cobranças, o cíúme, as brigas... 

Resolvi abandoná-la de vez. 



G. E o que voce fez? 



- Aluguei um salão e com ajuda de amigos, montei um barzinho. 

Ela sempre mandava recados ou ficava a me vigiar do outro lado da 
rua. 



G. Ruim isso e que atitude tomou? 



- Nesse período passei a conhecer outras pessoas, me divertir, ir 
para outras cidades em busca de um pouco de emoção, o que tenho 
encontrado demais. 

Hoje após me separar dela, o respeito das pessoas está voltando, já 
tenho outros amigos e pessoas da comunidade se aproximam de 
mim. 

Antes, o preconceito e a exclusão social eram enormes. 

Vejo agora que ser homossexual é uma luta constante, as pessoas, 
até as mulheres, aceitam muito mais uma prostituta do que uma 
lésbica. 



G. Voce poderia me dizer então que na 
sexualidade existem matizes? 



- Eu creio que sim. 

Por exemplo , sou mulher, sou uma fêmea, fico com homens, mas fico também com outras mulheres. 

Sou ativa e passiva. Sou uma de diversos matizes e nuances ( rs) 
sou uma pessoa completa. Os homens são éteros, homossesxuais 
ou bisexxuais. 

Eu posso ser o que eu quiser ser em cada momento, o que me 

diferencia dos homens é aquele apêndice.... mas existem tantos 

acessórios que não faz falta nenhuma ( gargalha à valer.. um lindo 
riso aberto e franco , numa boca bonita, com dentes perfeitos e 
lábios carnudos) 



G. Cas, me diga... o que voce pensa da união 
civil entre pessoas do mesmo sexo? 



- Olhe.. fui criada dentro de uma religião que não aceita tal coisa, 
aliás, nenhuma aceita, não é mesmo? Mas penso que o realmente 
vale é o amor entre as pessoas. 

Se elas se dão bem, por que não assumirem legalmente tal união? 

Nossos legisladores deveriam pensar melhor e permitir a 
oficialização da união civil entre pessoas do mesmo sexo, seria 
tornar de direito o que já é de fato. 



G. No seu modo de ver pessoas que convivem 
juntas, um " casal " de homossexuais teria condições de adotar uma criança? 



- Acho que sim. Os homossexuais têm maiores condições de 
adotarem criancas e as criarem melhor que os chamados éteros. 



G. Por que? 



- Porque eles têm mais sensibilidade. Se eles decidirem assumir 
uma criança, é porque eles têm condições materiais de mantê-la e 
muito mais amor que os pais biológicos. 

No meu ver não deixriam seus "filhos" mendigando de porta em porta ou vendendo bugigangas nos faróis. 





G. Voce poderia deixar uma mensagem às outras 
mulheres? 



- Bem, professor, eu digo que as pessoas devem correr atrás de 
seus sonhos, por mais absurdos que sejam, uma aventura ou 
desventura é apenas um momento de realização, a gente nunca sabe se vai dar certo, pelo menos a gente não fica com a eterna dúvida - se eu tivesse tentadö? Teria dado certo? Eu corro atrás de meus sonhos, de meus ideais... deu no quedeu... sei que se não tivesse tentado hoje seria uma pessoa frustrada, mas mesmo que tenha dado errado, eu segui meu caminho. 

Todos temos de passar por tais experiênias para poder tentar avaliar a si mesmo. 


G. Obrigado por sua conduta expontânea e tenho certeza que ainda irá se dar bem na vida, há de se encontar e realizar teus sonhos. 


- Obrigada ao senhor por me ouvir e em nenhum momento 
questionou minha posição, minhas experiências ou tentou me iludir 
como tantos outros homens fizeram, fazem.e tenho certeza que 
continuarão fazendo. 



Agradeci mais uma vez a oportunidade de falar 
francamente com uma pessoa que entre anseios e 
buscas, tenta encontrar seu prumo, sem vergonha 
de cometer erros. 

Como seria bom que todas as pessoas tivessem a 
coragem de despir suas máscaras e deixar fluir 
seus sentimentos, não se sentindo ultrajadas 
pelo acontecido. 


Essa entrevista está no livro "UMA TSUNAMI SOCIAL" do mesmo autor.


GDaun
Enviado por GDaun em 03/11/2006
Código do texto: T280799

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Sobre o autor
GDaun
Lupércio - São Paulo - Brasil, 72 anos
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