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Os resistentes treinadores do olhar crítico

Cineclubes surgiram no inicio dos anos 20’s. E foram responsáveis pela formação cinematográfica de vários dos grandes cineastas, dentre os quais pode-se destacar Glauber Rocha, Cacá Diegues, Jean-Luc Godard e Wim Wenders.

O que são Cineclubes?
Entidades que estimulam os seus membros a ver, discutir e refletir sobre sétima arte.

Os cineclubistas do grande ABC possuem origens e histórias diversas, porém essas pessoas desejam algo em comum. Mostram-se determinados para alcançar seus objetivos e ideais. Rafael Trevigno, 23 anos é um bom exemplar desse grupo de idealistas que ainda cultuam a antiga moviola e os filmes de 16 e 35 mm. Trevigno iniciou sua trajetória no cinema como estagiário de produção e também servia como coringa para cenas e auxiliar de efeitos especiais, (uma espécie de quebra galho dos profissionais de cenografia) o ano era 2002.

Sempre confiante e pró-ativo no núcleo de vídeo que o revelou como documentarista o “Com Olhar”, ele se dispôs a relatar sua militância e como defende suas influências marxistas nas produções ficcionais e ideologicamente demarcadas na cidade de Diadema. Desde então já produziu em conjunto com o grupo mais de 10 documentários de ficção. Com visibilidade e destaque para o “Fechar de Olhos”. Vídeo Clipes e institucionais. Receberam inúmeros prêmios entre eles: 3 da Mostra de Artes “Plínio Marcos” de Diadema, grupo Votorantin, Dom Quixote (Mauá), Mapa Cultural (São Paulo), Festival do Minuto (Rio de Janeiro), Festival de Parati, São Sebastião e  Brasília.

Constantemente assediados pelos principais veículos da imprensa paulistana, ele afirma em todas as entrevistas que concede que o foco da produção do Com Olhar é o social. Uma busca incessante por “questionamentos que possam fazer as pessoas repensarem suas demagogias pessoais e a falsa censura moralista imposta pela classe pequeno burguesa”.
No documentário “Fechar de olhos” seu filme preferido. A história trata exatamente do preconceito social da classe media alta com os mais pobres. Quando uma figura caricata de uma perua, se recusa a sentar ao lado de um pobre coitado dentro de um coletivo público em Diadema, toda a trama do roteiro e as demais cenas do filme acontecem no ônibus.

O garoto ainda tem na manga outras produções, relata com mais entusiasmo o próximo documentário o qual está roterizando com um amigo antigo sobre Lamarca e Zequinha Barreto mortos no sertão baiano, quando lutavam contra a ditadura militar. E até o próximo ano acredita estar disponível no cineclube e nas mostras que pretendem concorrer com o novo lançamento.

A preocupação do grupo pelas comunidades carentes é recorrente quando verifico que existe um cineclube mascate. O grupo leva o projetor para apresentar longas com caráter social e idéias que pretender lançar um novo olhar sobre os conceitos impostos pela dita sociedade moderna. Esta que geralmente julga precipitadamente as pessoas pela aparência, classe social ou gostos culturais próprios, como por exemplo aqueles que não seguem as tendências do mercado da mídia.

Trevigno reclama da pouca divulgação das produções independentes no País. E da dificuldade de conquistar um publico fiel para suas exibições, “fazer um trabalhador sair de casa para ver um filme brasileiro é uma coisa muito complicada. Muitas vezes nem filme de Hollywood, super divulgado inclusive na TV aberta eles desejam assistir”.

Quando pergunto a Rafael se não existe um sistema educacional que valorize a produção artística brasileira no currículo escolar. Ele contesta ainda mais veemente e lamenta que somente as pessoas com escolaridade e acesso a informação, realmente se importam e tem interesse em divulgar as ações dos cineclubistas. “Na grande maioria é o público universitário, jornalistas e críticos de artes em geral”. Não considera interessante debater com eles, porque julga já saber qual será o retorno previsto neles. “Dentro das escolas tem sido praticamente nula as tentativas de exibir filmes e o mesmo ocorrem com outras entidades com fins educacionais”.

A diferença de valor na aquisição de vídeos por parte das grandes locadoras também é gritante o que o deixa abismado e com a voz mais grave quando percebe que pagamos cinco vezes mais do que um americano, quando preferimos comprar um filme nacional do que um dos States.
No ABC as entidades que apóiam as iniciativas de produção audiovisual são o MEC, a Secretaria de Estado de SP  e a Petrobrás, através de rigorosa escolha.

Outras iniciativas como a Escola Livre de Santo André e as Mostras Municipais auxiliam a divulgação por meio dos entusiastas e festivais de cinema independente com períodos breves que duram em média 2 semanas no máximo.

Rafael finaliza nossa conversa com uma queixa muito preocupante, ataca indignado o nível educacional do País. “Os jovens que saem do ensino médio, mal sabem ler. Desconhecem o significado do cineclubismo e das produções. Como podemos mudar esse quadro se ele não é sequer estimulado a conhecer o que existe de diversidade cultural no seu País não é mesmo?”.
Cabe agora tentarmos mudar um pouco a situação triste, pela qual ainda enfrentam esses resistentes treinadores do olhar crítico.
José Luís de Freitas
Enviado por José Luís de Freitas em 20/11/2006
Código do texto: T296601

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Sobre o autor
José Luís de Freitas
Diadema - São Paulo - Brasil, 32 anos
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