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Miguel Batista - o construtor de imagens

Um pedreiro barbudo e de sorriso amigavelmente peculiar possui uma trajetória de vida dificilmente encontrada naqueles que exercem essa profissão. Os calos nas mãos de Miguel Batista dos Santos, 55 anos, não revelam que elas, além de erguer paredes, reformar e construir casas também operam câmeras, escrevem roteiros, versos e livros. O cineasta da construção já possui em seu currículo mais de 15 filmes onde atuou como figurante, ator, câmera e até diretor.

Sua escrita tem influência dos cordéis que ouvia em Limoeiro do Norte no Ceará onde viveu até os 25 anos, até hoje ele mantêm o hábito de confeccionar cordéis de bolso contendo dez páginas que trazem textos com assuntos históricos, filosóficos, sociais e religiosos revelando a erudição ocultada por sua aparência de pedreiro.

Miguel apesar de possuir apenas o ensino médio, é um esforçado autodidata e fala além do português, esperanto, espanhol e francês. Também escreveu vários livros e conseguiu publicar dois deles: ‘Gazuza’ e ‘Sucata Gente’. Compôs a letra da trilha sonora de ‘Cinema Dilacerado’ um dos seus filmes e possui mais de 300 escritos poéticos que tratam geralmente de temas sociais e questionam o poder dos governantes, a hipocrisia dos falsos moralistas e os costumes preconceituosos da elite dominante.

Seu interesse pelo cinema começou a partir de um convite: “Um dia, um rapaz, o José, me convidou para participar do curta-metragem ‘Sobreviver’, que conta a historia dos nordestinos da cidade. Eu topei e, depois disso, comecei a fazer vários cursos na área. Hoje, sou ator e diretor” revela.

Com orgulho e alegria apresenta algumas predileções: “Os filmes que mais gosto são: ‘Pisadas Marcantes’, com o qual ganhei o prêmio, em parceria com o colega Arnaldo Malta, ‘Kruzmanta’, ‘Sobreviver’ e ‘A Mulher e a Flor’.

Na maioria das vezes seus clientes custam acreditar que Miguel faz cinema: “alguns pensam que sou louco. Dizem: esse cara, todo sujo, cheio de lama, pensa que é cineasta, mas como é possível ser cineasta e pedreiro? A maioria acredita, porque levo filmes, em DVD, para assistirem”. Comenta. Uma prima sua que mora na Bahia veio visitá-lo depois que mandou alguns dos filmes que produziu só para conhecer o primo que faz cinema em São Paulo.

O papel mais exótico que já representou foi o de um milionário. Poucos dias depois, participou de um evento com cineclubistas em São Paulo e ficou num hotel chique. Ao voltar para casa, perguntou, brincando, para sua mulher se era aquilo mesmo que ele, “um homem rico”, iria comer.

Miguel trabalha como pedreiro há mais de 30 anos, desde que saiu de sua cidade: “antes, fui carpinteiro no Pará e guarda noturno no Rio. A profissão ajuda a fazer cinema porque, como autônomo, me acerto nos horários. Às vezes, digo que meu hobby é ser pedreiro, mas não é verdade. Sobrevivo disso” completa rindo.

Como diretor, o que mais admira é o João Batista de Andrade, de ‘O Homem que Virou Suco’ e ‘Greve’, oriundo do movimento cineclubista, e ex-secretario estadual de Cultura. Seu filme preferido é ‘Lamarca’, de Sergio Rezende.

Quando pergunto a Miguel se já conseguiu algum retorno financeiro com cinema ele demora m pouco para responder mas fala sorrindo “tiro do bolso para conseguir gravar. É difícil fazer cinema independente no Brasil. Por enquanto, os filmes só aparecem no circuito de cineclubes, mas quem sabe da para ir um pouco além. Continuo ganhando a vida mesmo como pedreiro”.
José Luís de Freitas
Enviado por José Luís de Freitas em 10/09/2007
Reeditado em 12/09/2007
Código do texto: T645896

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Sobre o autor
José Luís de Freitas
Diadema - São Paulo - Brasil, 33 anos
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