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O ASSUNTO ERA AMBIGUIDADE

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O assunto era a ambigüidade na elaboração de textos, períodos e frases.

— Professor! – interpelou-me o aluno – Quer dizer, então, que se eu disser algo e todas as pessoas que me ouvem (interlocutores) entenderem de maneira diferente, estaria sendo ambíguo?

— Você não! – respondi – mas sua fala, seu discurso, seu arranjo sintático, sim; porque ele estaria apresentando mais de um sentido.

Trabalhar somente com a argumentação teórica nem sempre traz os resultados esperados. Felizmente, naquela época, mantinha, sempre, em minha pasta, meus cadernos de textos interessantes. De modo, que parti para os exemplos práticos.

Comecei repassando para o quadro-negro, um trecho do artigo “A Notícia Levada Acério”, de Moacir Japiassu (Jornal da Imprensa):

“A talentosa (sic) atriz [Sandra Bréa] confirmou esta semana ser portadora do vírus HIV, tomando remédios que retardam o efeito da doença; ela diz que contraiu o vírus através de uma transfusão, em uma entrevista coletiva [destaques meus].”

Depois expliquei:

— Se vocês prestarem atenção, no trecho destacado, perceberão que, dada à organização das palavras, ou seja, o arranjo sintático, a notícia está literalmente afirmando que a atriz contraiu o vírus em uma transfusão realizada durante uma entrevista coletiva, o que logicamente constitui um absurdo. É uma ambigüidade, porém por ser absurda a interpretação, vocês são capazes de eliminá-la rapidamente em favor da interpretação pretendida pelo autor da notícia. Essa interpretação ambígua poderia ser perfeitamente evitada se o redator tivesse optado pela seguinte organização sintática:

 “(...) ela diz, em uma entrevista coletiva, que contraiu o vírus através de uma transfusão.”

É um tipo de ambigüidade considerada problemática porque é produzida involuntariamente, causando certa dificuldade de interpretação.

Para sair um pouco do rigor da aula e torná-la mais amena, descontraída busquei uma coleção de textos ambíguos, realmente escritos e encontrados em comunicados de igrejas, paróquias e templos (coletânea feita pelo pesquisador Nigro). Copiei-os no quadro:

“Não deixe a preocupação acabar com você. Deixe que a igreja ajude.”

“[...] lembre-se de todos que estão tristes e cansados de nossa igreja e comunidade.”

“Nossa irmã, Amália, não conseguindo receber qualquer ajuda do governo, teve de ir juntar papéis velhos para dar de comer a seus filhos.”

“Para todos aqueles que têm filhos e não sabem nós temos uma creche no segundo andar.”

“[...] sendo este o domingo de páscoa, pediremos à senhora Jandira que ponha um ovo no altar [...]”

“Quinta-feira às cinco horas haverá reunião do Clube das Jovens Mamães. Todas aquelas que quiserem se tornar uma Jovem Mamãe devem contatar o padre Cavalcante em seu escritório.”

Expliquei:

— No primeiro exemplo é ambíguo pela elipse (supressão de um termo) do complemento do verbo ajudar, que poderia ser: ...deixe que a igreja lhe ajude a resolver seus problemas. Dessa forma evitaríamos a interpretação que, no caso, é muito cômica.

Expliquei mais dois comunicados e continuei:

— Não posso me deter, aqui, na análise de cada uma dos trechos acima, a aula está por terminar, mas confio na competência de vocês como falantes nativos do Português para perceber as possíveis interpretações de cada trecho.  Essas não são ambigüidades absurdas, são as que fazem rir. Os autores de textos humorísticos costumam a investir nestas ambigüidades e nas de efeito de sentido, ou seja, produzidas voluntariamente pelos autores dos textos para a obtenção de determinados efeitos, no caso, o humor, o riso.  Para encerrarmos nossa aula, cabe lembrar, que ambigüidades como as que vimos podem e devem ser evitadas. A melhor maneira de controlarmos esses deslizes é criando o hábito de rever nossos próprios textos, procurando sempre assumir a perspectiva do leitor, de forma a evitar difi... – toca a sineta – dificuldades desnecessárias de interpretação. Até amanhã!

E tomem cuidado com a Internet! Li a seguinte notícia hoje: Casal procura filho seqüestrado via Internet.

Inté! ®Sérgio.

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Se você encontrar erros (inclusive de português), faça a gentileza de avisar-me.

Agradeço a leitura do texto e, antecipadamente, quaisquer comentários.

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 18/09/2006
Reeditado em 29/05/2013
Código do texto: T243188
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 69 anos
1281 textos (21199742 leituras)
7 e-livros (8550 leituras)
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