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AS RETICÊNCIAS

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Estudo das Pontuações

Vamos tratar, aqui, das reticências, isto é, dos três pontinhos [...] no início, no meio, ou ao final de algum texto literário. Digo literário, porque nos textos didáticos, científicos, ou seja, nos ditos "textos sérios", as reticências não têm espaço. Muitos dos autores desses textos chegam a considerá-las uma total inutilidade em seus processos de composição, embora façam uso delas em suas citações.

Nos textos literários, não raro, elas passam despercebidas, quando não ignoradas pelos escritores.

“No entanto, as reticências são fundamentais, sobretudo naqueles casos – sempre lato sensu – de duplo sentido, nos muitos subentendidos das conversas vagas, nas promessas indefinidas, nas situações pouco claras, nas esperanças falsamente criadas, nas aberturas ao contraditório, nos convites a “algo mais”, enfim, em todas as circunstâncias nas quais a precisão e o cuidado com o verdadeiro não figuram entre as prioridades do autor do discurso ou de seu eventual interlocutor.” (ALMEIDA, Paulo Roberto; Mini-tratado das reticências; 2004; p 1)

O termo reticência vem do latim reticentìa [ae], com a acepção de silêncio obstinado; omissão do que se deveria dizer. É preciso lembrar que há uma distinção no emprego desse vocábulo:

1. Reticência - Substantivo Feminino – é a supressão ou omissão voluntária de uma coisa que poderia ou deveria ter sido “dita”. Ex.: Um comentário pleno de reticência. É também, a atitude de quem hesita em dizer expressamente o seu pensamento, em dar um parecer, etc.: um indivíduo cheio de reticência, dissimulado. (verbete retirado do Houaiss)

2. Reticências - Substantivo Feminino Plural - na produção textual, três pontos, dispostos paralelamente à linha e ao lado de alguma palavra e usado para marcar uma pausa no enunciado; podendo indicar omissão de alguma coisa que não se quer revelar; emoção demasiada, insinuação etc. (verbete retirado do Houaiss)

Portanto, à sequência de três pontos no início, no meio ou no fim de uma frase chama-se "reticências". No Texto Literário usamos as reticências com dois propósitos:

a) Com propósito suspensivo, ou seja, quando queremos assinalar uma interrupção de uma frase, nos seguintes casos:

1º. Na omissão de trechos de uma citação. Neste caso, devemos empregá-la sempre entre parênteses ou colchetes. Geralmente elas são utilizadas no interior de um trecho, de uma oração, entre uma frase e outra, ou entre um parágrafo (somente nesse caso deixamos as reticências numa linha sozinha). Se optar pelo colchete, ou então pelo parêntese, siga-o até o fim do trabalho:

·       Se é para o bem de todos [...] diga ao povo que fico. (D. Pedro)

2º. Quando queremos deixar o pensamento em suspenso para que o leitor o complete: Para bom entendedor... — Você me enganou, seu...

3º. Quando o interlocutor deixa que um segundo conclua seu pensamento, intencionalmente incompleto:

·       Apesar disso, a Marocas...? — É verdade, dominou-o. (M. de Assis)

4º. Quando, nos diálogos, queremos reproduzir o corte da frase de um personagem pela interferência da fala de outro:

— Mas a Escritura... – ia dizendo o mestre de campo João Barbosa.

— Deixemos em paz a escritura! – interrompeu o carmelita.

► Se a fala do personagem continua normalmente depois da interferência, costuma-se preceder o seguimento de reticências. Veja:

— O que me parece, aventurou o coronel, é que eles vieram ao cheiro dos cobres...

— Decerto.

... e que a tal D. Helena (Deus lhe perdoe!) não estava tão inocente como dizia. (Machado de Assis)

5º. Quando queremos indicar que, naquela posição, há uma pausa na fala da personagem, causada por hesitação, dúvida, timidez, suspense ou outra razão. Após a pausa, podemos retomar a fala da personagem:

·       E o prêmio vai para... a equipe azul.

·       Saiba que fiz... fiz um drama.

·       Uma vez no poder, podem facilmente alijar os políticos profissionais... e os coronéis de... de... quero dizer, os coronéis honorários. (Érico Veríssimo)

b) Com o propósito expressivo, de caráter subjetivo, indicando espanto, surpresa, admiração, entusiasmo, desprezo, ironia, cólera, sarcasmo, nos seguintes casos:

1º. Quando queremos assinalar na elocução, certas inflexões de natureza emocional, tais como: alegria, tristeza, espanto, cólera, sarcasmo, desprezo, ironia, entusiasmo, admiração, impaciência, ou seja, as mais variadas nuanças emotivas; sempre no fim de um período de sentido pleno. As reticências, neste caso, por vezes, emprestam às frases uma sugestão de continuidade, ou de estagnação:

·       Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu... (Machado de Assis)

·       Ódio por ele? Não... não vale a pena... (Florbela Espanca)

·       Mas que vejo eu ali... Que quadro de amarguras!

·       Lá fora... Bem, lá fora as pessoas circulam livres... (Castro Alves)

2º. Devemos usar inicial maiúscula depois das reticências? Quem usa o Office da Microsoft, já deve ter percebido que o corretor ortográfico sublinha de verde ou de vermelho qualquer palavra com a inicial minúscula, colocada após as reticências. Nesse caso, o corretor ortográfico "enxerga" as reticências como uma pontuação finalizando a frase; mesmo que as reticências indiquem apenas uma pequena pausa na frase. O uso da inicial maiúscula após as reticências só acontece se a idéia expressa antes deste sinal de pontuação estiver gramaticalmente concluída. Se tiver dúvida, use este artifício: se for possível substituir as reticências por um ponto final, devemos iniciar com maiúscula a palavra seguinte: Mas que vejo eu ali... Que (ou que) quadro de amarguras! => Substituindo: Mas que vejo eu ali. => A substituição foi possível.

c) Casos especiais:

1º. Podemos usar as reticências, antes de uma palavra ou de uma expressão que queremos realçar:

·       E as pedras... essas... pisa-as toda a gente! (Florbela Espanca)

·       E teve um fim que nunca se soube... Pobrezinho... Andaria nos doze anos.

2º. As reticências combinam-se muito expressivamente com o ponto de exclamação e de interrogação; sugerindo um prolongamento das entonações interrogativas e exclamativas: Isso são sonhos, Mariana!...

·       Contando que?... Interrompi eu, imitando-lhe a voz. (M. Assis)

·       É canto funeral!... Que tétricas figuras!... (C. Alves) ®Sérgio.

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Obras Consultadas:CARNEIRO, Agostinho Dias. Redação em Construção. São Paulo: Editora Moderna, 2001. / ALMEIDA, Paulo Roberto; Mini-Tratado das Reticências; 2004.

Agradeço a leitura e, antecipadamente, qualquer comentário.

Se você encontrar omissões e/ou erros (inclusive de português), relate-me.

Ricardo Sérgio
Enviado por Ricardo Sérgio em 05/10/2007
Reeditado em 17/09/2010
Código do texto: T681198

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Sobre o autor
Ricardo Sérgio
Campo Grande - Mato Grosso do Sul - Brasil, 67 anos
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