FUXICOS LITERÁRIOS

Talvez não fosse ambiente para uma mulher. Mas a porta estava aberta e fazia tempo que eu queria matar a curiosidade e conhecer o lugar.
Entrei desconfiada e todos, de repente pareceram parar. Ficaram me observando.
Nossa, fiquei vermelha de vergonha. Bem, mas já estava lá mesmo, resolvi sentar.
O que pedir? Uma água. Isso, uma água foi uma boa idéia.  Chamei o garçom, que me serviu curioso, desconfiado demais.

Vi que servia uns casquinhos de caranguejo (que eu adoro) e resolvi pedir também.
Vez por outra um olhar escorregava até minha mesa, mesmo estando mais afastada, num canto, próximo à janela.

Na mesa ao lado, parecendo já acostumados com minha presença, a risadagem continuava. Sei que era tarde, hora de uma mulher estar em casa. Seria outro problema sair dali sozinha, por aquelas ruas silenciosas do Recife.

De repente, põe-se ao meu lado um deles. Pedindo licença perguntou-me se esperava alguém. Apresentou-se como Antônio Maria. Disse-lhe que não, que estava sozinha. Ele então chamou-me para sentar-me com eles. Apresentaria-me aos amigos. Bem, era a oportunidade de conhecer os famosos boêmios daquele lugar. Quem sabe eu poderia participar da conversa e entender o que lhes fazia estar sempre por ali, bebericando ao final do dia, reunidos e o que tanto poderiam estar falando.

Fui. Apresentou-me então aos amigos: Mauro Mota, Ascenso, Emílio de menezes, Joaquim cardozo,  Valdemar de Oliveira, Olegário Mariano e Olavo Bilac (recém chegado do Rio de janeiro). Foram muito simpáticos. Estavam descontraídos e conversavam sobre o que mais apreciavam: poesias, versos, causos. Lembro-me que passei uma noite rindo muito e impressionada com a inteligência daqueles camaradas. O garçom conhecia todos pelo nome. Achei curioso e comentei que agora entendia o motivo dessa reunião diária. Sobre isso, Austro Costa lembrou os versos de Carlos Pena:

"São trinta copos de chope
São trinta homens sentados
Trezentos desejos presos
Trinta mil sonhos frustrados"

Não precisou de mais nada para que eu entendesse como eram felizes esses boêmios fazendo graça e encantando a cidade de Santo Antônio dos Arrecifes.

Ah! Não me deixaram voltar só para casa. Todos os cavalheiros me acompanharam.


Essa é uma homenagem-agradecimento ao Rostand Paraíso pelo livro que enviou-me de presente em meu aniversário. Um livro encantador, divertido, que nos põe lado a lado com esses poetas inesquecíveis,  Tiradas maravilhosas, intrigas, "causos" inesquecíveis, historietas (como ele mesmo diz). Delicioso livro que li em um dia e estou relendo com muito carinho.

Copiei esta pra vocês:

Vesos de Paula Nei sobre o Marechal Floriano Peixoto  e o Almirante Custódio de Melo:

"Floriano, nome horrendo!
Começa cheirando, termina fedendo!
Começa por uma flor,
o nome do marechal,
mas o nome do Almirante
começa muito mal...."

Bem, vale à pena ler esses "fuxicos".