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Delicadeza

A espuma branca da cerveja transbordada no copo e uma bolha estufada no gargalo que ele estourava e levava o indicador à testa:
- Saúde!

Porque só ele bebia e tampava com uma rolha, guardando o restante para à noite, ou o dia seguinte.
Era filho de judeus.  Mas não por isso.

Nas tardes de sábado e domingo dormia de bruços, formando um quatro com as pernas finas e brancas, abraçando o travesseiro, aconchegado,
descansando merecidamente por ter cumprido com zelo de segunda à sexta, seu papel de homem de bem.   Às vezes eu o acompanhava, só para estar próxima e protegida, imitando o quatro com as pernas de menina.

Nunca atrasou uma conta e suas viagens eram programadas com alguns muitos meses de antecedência.  Tudo era definido, sublinhado, arquivado e estipulado, para que não houvesse erro.

Dormia de meias porque tinha os pés frios.

Passeava comigo de mãos dadas.  E eu me sentia importante.

Tínhamos um lugar que secretamente chamávamos de nossa cabaninha.

E eu tinha um lugar.

Pedia-me água e bebia café frio, elogiando a temperatura perfeita, com uma sinceridade que só os avós têm.  E eu o amava.





(Dedicado ao homem que me ensinou muito do que sei com a delicadeza de quem ama, meu avô Mário Goldstein)


Luciane Goldstein
Enviado por Luciane Goldstein em 12/06/2006
Reeditado em 10/08/2008
Código do texto: T174437

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Sobre a autora
Luciane Goldstein
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 43 anos
198 textos (9622 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 10:46)
Luciane Goldstein