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Ár(vo)re

Vim pra cá e não estava nos planos.  Não os que
tracei;  porque herdei de ti a pressa e a inquietação.
 Vim contrariada de mim, porque você também me ensinou
que nunca se volta.  Mas precisei voltar, porque era
necessário o resgate.  Em alguns momentos pensava:
Que bom não estar só, apesar das ranhetices.  Que bom
não estar só, porque já estava cansada.  Porque mesmo
dormindo, você era uma presença nas minhas madrugadas
insones.  Que bom não estar só, apesar da imensa
necessidade de ser.
Gostava dos seus cuidados, da canja de galinha
caipira, que te pedi, alguns dias antes, na minha
soberba de neta preferida e mimada.  Como se faz essa
canja?  Você tentou me ensinar um dia, destacando o
quanto era simples.  Mas você mentia muito.  E como...
Algumas pessoas me perguntam:  "Mas como?!"
perplexas, guardando talvez esse mesmo sentimento que
eu tinha na minha meninice da sua eterna fortaleza.
Mas você foi, correndo antes que os incômodos da
velhice chegassem.  Não poderia ser de outra forma,
porque você não conseguia esperar.  Algum dia li ou alguém me falou:
nosso fim é uma metáfora de nossas vidas.

Ps. Minha avó morreu em um acidente de transito  poucos dias antes do natal de 2004, enquanto fazia compras.  Ela tinha 84 anos e uma vivacidade que surpreendia a todos.  Saudades...


Luciane Goldstein
Enviado por Luciane Goldstein em 12/06/2006
Reeditado em 03/07/2008
Código do texto: T174439

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Sobre a autora
Luciane Goldstein
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 43 anos
198 textos (9622 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 18:51)
Luciane Goldstein