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UM HOMEM VESTIDO DE BRANCO

Quando era adolescente,
Certo dia fui medicado,
Manifestei temor medonho,
Recordo-me que papai me disse:
“Você vai consultar,
Cuide bem dessas feridas,
Para que elas possam sarar”.

Quando cheguei ao consultório,
Nem sabia como entrar,
Devido a minha timidez
E o meu modo de expressar.

Num velho casarão,
Ao lado, jardim bem cuidado,
Dava entrada uma grande varanda,
Contendo enorme banco de madeira,
Nele varias pessoas sentadas esperavam,
Era uma fila sem fim,
Passos, lentos e desgovernados,
Muito encabulado e desconfiado,
Cabisbaixo e um pouco desajeitado,
Junto a elas, fui sentar-me.

Finalmente chegou a minha vez,
Uma distração embaraçosa,
E com muita aflição,
Poe estar no meio de tanta gente
Perdi a direção.

Alguém em estilo elegante,
Chegou...
Escorregando de mansinho,
Tomou a minha frente;
Talvez estivesse doente.

Não sei como, mas perdi a minha vez,
A fila que iniciara depois que cheguei,
Deslizava de vagarinho,
Uns saindo e outros indo,
De vez em quando olhava a rua,
Ainda exausto e vexado,
Parecia que eu estava no mundo da lua.

Durante certo tempo e grande espaço,
Voltei a mim...
Só restava eu,
Daquela espera constante,
Mesmo assim,
Não conseguia acalmar,
Nem por um instante,
E tão pouco me apresentar.

Nesse exato momento, coloquei-me a pensar,
Tenho que me sentir um ser existente,
Sou humano e sou gente,
Posso locomover sorrir, amar e falar,
Por que não entrar por aquela porta,
E ao médico me apresentar.

Fazia tanto a mente trabalhar,
Que nem percebi, quando a porta se abriu,
E como um encanto...
Rente á ela,
Um homem vestido de branco surgiu.
Comecei a fazer um gesto,
A me levantar...
Foi ele que dirigiu a mim primeiro,
E começou a falar:
“Cibide, é você que ai está?
Seus pais e a sua avó,
São meus amigos verdadeiros,
Eu amo aquela terra,
Berço natal onde nasci,
Afirmo convicto e seguro,
Que para eles eu sou,
Médico familiar e, bem maduro,
Mas por favor vamos entrar”.

O Dr. Logo percebeu,
A minha embaraçosa situação,
Notando o meu agir,
A timidez e o cansaço.

Creio que ele
Queria colocar-me bem á vontade,
Só hoje eu penso e repenso,
Que a estória que o Dr.,
Todo cheio de graça passou a me contar,
Teve somente uma intenção,
Para o meu gelo se quebrar.

Pois, é, Cibide,
Foi assim que o Doutor
Desimpedido me chamou,
Usando o nome de meu pai,
E com esse gesto singular,
O meu temor começou a descongelar,
Pelos acenos que ele fazia,
E o seu modo de falar.

Procurando-me disfarçar,
Sentei-me, e pus me perguntar-lhe:
“Doutor, eu estou atrasado?
Ainda vai dar para consultar-me?
Mas o Médico não dava espaço,
E não parava de discursar.

Sabe, Cibide...
Há dias uma senhora lá da roça,
Mora perto de sua tia,
Veio se consultar,
Perguntei a ela o que sentia,
No início, não respondeu e começou a chorar.

Só mais tarde fiquei sabendo,
Que a sua filha lhe recomendou:
“Minha mãe, por favor,
Não nos venha envergonhar,
Quando seu médico lhe perguntar,
Onde dói?, a senhora responde sem hesitar,
São as nádegas, seu Doutor,
Fale com voz profunda,
Mas por favor, mãe,
Já mais diz doer a bunda,
Pois, essa senhora havia esquecido,
O que a filha lhe recomendou,
E, após ela chorar,
Foi ela própria que me contou.

“Eu acabei esquecendo,
Esqueci mesmo, Senhor Doutor,
O apelido que minha filha
Em minha bunda colocou”

Dei uma enorme risada,
Encontrava-me bem à vontade,
Sentindo bastante graça,
Daquelas que, quando chegam,
Quase não passam.

“Meu caro jovem,
Você é grande e forte,
Existe em você um brilho
De uma longa vida e muita sorte”.

- Pode esperar, que vai ter muita idade,
Meu bisavô já teve isso, e o meu compadre também,
E eles viveram felizes, um até 80 o outro quase 100.

Eis aqui, que vou lhe receitar,.
Quatro penicilinas,
Em dias alternados, peça alguém para lhe aplicar,
Fale com o dono do cartório,  ele e seu tio,
Peça para lhe tratar, que daqui algumas semanas,
Com certeza vai se curar.

Mesmo assim, um exame de sangue,
Vou lhe solicitar,
Como rotina...
Se as minhas suspeitas se confirmarem,
Dentro de quinze dias,
Vou lhe revelar,
E dentro desse espaço,
Você aqui deve voltar.

Dentro do tempo marcado,
Todo o meu corpo saudável,
Estava totalmente curado,
A única coisa que até hoje restam
São as marcas de velhas cicatrizes.

As mãos daquele médico
Devolveram-me a cura;
Ele mesmo falou comigo:
“Na vida não há nada que não mude”.

Meio século se passou,
Lembrando disso, agora estou,
Não poderia deixar...
Agradecer, fazer-lhe uma mensagem,
Pois bem sei, que já fizeste tal viagem,
Mesmo sintonizado com a sua aurora,
Das mãos de médicos que me curaram,
Eu faço e sei que é preciso,
Mesmo ele não ouvindo aqui na terra
Mas, pode faze-lo lá no paraíso.

Ergo meu brilhante olhar,
Que vai se perdendo no horizonte espaço,
Não necessito fazer força para recordar...
Tudo é branco...
Branca e a veste que o cobria,
Da cor da neve,
Do leite e do, cal,
Tudo é alvo.
São frutos de sua infinita compreensão,
Com certeza foi premiado
Com os raios do luar,
Formando o manto,
Que fez a cor do céu
Segundo, só podemos encontrar,
No infinito desse véu.

















Alci Santos Vivas Amado
Enviado por Alci Santos Vivas Amado em 27/07/2006
Código do texto: T203319

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Sobre o autor
Alci Santos Vivas Amado
Mimoso do Sul - Espírito Santo - Brasil, 71 anos
238 textos (31036 leituras)
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Alci Santos Vivas Amado