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Hilda Hilst      

Hilda Hilst nasceu na cidade de Jaú, interior do Estado de São Paulo, no dia 21 de abril de 1930, filha única do fazendeiro, jornalista, poeta e ensaísta Apolônio de Almeida Prado Hilst e de Bedecilda Vaz Cardoso.
Faleceu no dia 04 de fevereiro de 2004, na cidade de Campinas (SP).

Do desejo
(trechos)

Hilda Hilst


                    I

Porque há desejo em mim, é tudo cintilância.
Antes, o cotidiano era um pensar alturas
Buscando Aquele Outro decantado
Surdo à minha humana ladradura.
Visgo e suor, pois nunca se faziam.
Hoje, de carne e osso, laborioso, lascivo
Tomas-me o corpo. E que descanso me dás
Depois das lidas. Sonhei penhascos
Quando havia o jardim aqui ao lado.
Pensei subidas onde não havia rastros.
Extasiada, fodo contigo
Ao invés de ganir diante do Nada.

                    IV

Se eu disser que vi um pássaro
Sobre o teu sexo, deverias crer?
E se não for verdade, em nada mudará o Universo.
Se eu disser que o desejo é Eternidade
Porque o instante arde interminável
Deverias crer? E se não for verdade
Tantos o disseram que talvez possa ser.
No desejo nos vêm sofomanias, adornos
Impudência, pejo. E agora digo que há um pássaro
Voando sobre o Tejo. Por que não posso
Pontilhar de inocência e poesia
Ossos, sangue, carne, o agora
E tudo isso em nós que se fará disforme?

                     V

Existe a noite, e existe o breu.
Noite é o velado coração de Deus
Esse que por pudor não mais procuro.
Breu é quando tu te afastas ou dizes
Que viajas, e um sol de gelo
Petrifica-me a cara e desobriga-me
De fidelidade e de conjura. O desejo
Este da carne, a mim não me faz medo.
Assim como me veio, também não me avassala.
Sabes por quê? Lutei com Aquele.
E dele também não fui lacaia.


Os versos acima foram publicados no livro "Do desejo", Editora Pontes - Campinas (SP), 1992, e foram extraídos do livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2001, pág. 289, uma seleção de Ítalo Moriconi.

Saiba tudo sobre a autora e sua obra na página "Biografias"

http://www.releituras.com/hildahilst_menu.asp

 

"Hilda não hesitava em dizer ao excitado marido: “Vai foder com a empregada! Me deixe escrever!” E ri quando me diz que homem que gosta de mulher por cima é afrescalhado. Para horror das feministas, Hilda acha que o homem deve dominar a relação, deve – e cita Simone de Beauvoir – ser, de alguma forma, superior à mulher. Afirma que sempre buscou homens que possuíssem um destes atributos da divindade: poder ou beleza. Poder financeiro, poder intelectual, e até força bruta, a faziam sentir-se mais mulher. Beleza porque – como dizia Vinícius, aliás, ex-namorado de Hilda – é fundamental."

http://karaloka.net/content/view/144/42/


Hilda Hilst


Enquanto faço o verso, tu decerto vives.

Trabalhas tua riqueza, e eu trabalho o sangue.

Dirás que sangue é o não teres teu ouro

E o poeta te diz: compra o teu tempo.

 

Contempla o teu viver que corre, escuta

O teu ouro de dentro. É outro o amarelo que te falo.

Enquanto faço o verso, tu que não me lês

Sorris, se do meu verso ardente alguém te fala.

O ser poeta te sabe a ornamento, desconversas:

"Meu precioso tempo não pode ser perdido com os poetas".

Irmão do meu momento: quando eu morrer

Uma coisa infinita também morre. É difícil dizê-lo:

MORRE O AMOR DE UM POETA.

E isso é tanto, que o teu ouro não compra,

E tão raro, que o mínimo pedaço, de tão vasto

Não cabe no meu canto.


http://www.fabiorocha.com.br/hildahilst.htm


"Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.


http://br.geocities.com/edterranova/hilda01.htm

 

 

Para poder morrer 

Guardo insultos e agulhas 
Entre as sedas do luto. 
Para poder morrer 
Desarmo as armadilhas 
Me estendo entre as paredes 
Derruídas 
Para poder morrer 
Visto as cambraias 
E apascento os olhos 
Para novas vidas 
Para poder morrer apetecida 
Me cubro de promessas 
Da memória. 
Porque assim é preciso 
Para que tu vivas.


http://br.geocities.com/edterranova/hilda17.htm


Venho de Tempos Antigos

Deus pode ser a grande noite escura
E de sobremesa
O flambante sorvete de cereja.

Deus: Uma superfície de gelo ancorada no riso.

Venho de tempos antigos. Nomes extensos:

Vaz Cardoso, Almeida Prado

Dubayelle Hilst... eventos.

Venho de tuas raízes, sopros de ti.

E amo-te lassa agora, sangue, vinho

Taças irreais corroídas de tempo.

Amo-te como se houvesse o mais e o descaminho.

Como se pisássemos em avencas

E elas gritassem, vítimas de nós dois:

Intemporais, veementes.

Amo-te mínima como quem quer MAIS

Como quem tudo adivinha:

Lobo, lua, raposa e ancestrais.

Dize de mim: És minha.



Texto extraído do encarte à edição de "Cadernos da Literatura Brasileira", editado pelo Instituto Moreira Salles - São Paulo, número 8 - Outubro de 1999.

http://br.geocities.com/edterranova/hilda10.htm



TÔ SÓ 

Vamo brincá de ficá bestando e fazê um cafuné no outro e sonhá que a gente enricô e fomos todos morar nos Alpes Suíços e tamo lá só enchendo a cara e só zoiando? Vamo brincá que o Brasil deu certo e que todo mundo tá mijando a céu aberto, num festival de povão e dotô? Vamo brincá que a peste passô, que o HIV foi bombardeado com beagacês, e que tá todo mundo de novo namorando? Vamo brincá de morrê, porque a gente não morre mais e tamo sentindo saudade até de adoecê? E há escola e comida pra todos e há dentes na boca das gentes e dentes a mais, até nos pentes? E que os humanos não comem mais os animais, e há leões lambendo os pés dos bebês e leoas babás? E que a alma é de uma terceira matéria, uma quântica quimera, e alguém lá no céu descobriu que a gente não vai mais pro beleléu? E que não há mais carros, só asas e barcos, e que a poesia viceja e grassa como grama (como diz o abade), e é porreta ser poeta no Planeta? Vamo brincá 

de teta 
de azul 
de berimbau 
de doutora em letras? 
E de luar? Que é aquilo de vestir um véu todo irisado e rodar, rodar... 
Vamo brincá de pinel? Que é isso de ficá loco e cortá a garganta dos otro? 
Vamo brincá de ninho? E de poesia de amor? 
nave 
ave 
moinho 
e tudo mais serei 
para que seja leve 
meu passo 
em vosso caminho. 
Vamo brincá de autista? 
Que é isso de se fechá 
no mundão de gente e nunca 
mais ser cronista? Bom-dia, leitor. 
Tô brincando de ilha. 


http://br.geocities.com/edterranova/hilda08.htm


"Mais uma grande escritora, com um belo e versátil
trabalho."

http://br.geocities.com/edterranova/hilda08.htm
Enviado por Angela Lara em 08/10/2006
Reeditado em 03/09/2011
Código do texto: T259706
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Angela Lara
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 55 anos
1830 textos (247896 leituras)
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