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Minha mãe está velha

Não sei se fico feliz ou triste com a velhice da minha mãe. Ao mesmo tempo  que suas rugas têm sinônimo de luta, trabalho e amor, elas também me dão medo. Tudo bem que este medo pode significar experiência, mas garanto que não é algo prazeroso.
Estou com medo da velhice da minha mãe, mas também orgulhoso. A velhice tem este poder de nos fazer triste e feliz ao mesmo tempo. Ai está à magnitude da vida. Minha mãe, como várias Senhoras por este “mundão veio de guerra”, estão chegando à magnitude da vida naturalmente, e isto não pode ter apenas aspectos negativos.
O mistério da vida deixa de ser mistério total apenas por causa da velhice. A velhice é o “fio desencapado da vida”. A velhice é a “agulha perdida no paiol”.
Apenas podemos entender um pouco a vida se pararmos para admirar (ou não) a velhice. A velhice pode nos ensinar muito. Não estou dizendo que há necessidade de sair por ai visitando tudo quanto é asilo. Devemos parar para pensar e admirar a velhice.
As rugas nos dizem muito.
O corpo encurvado tem sua beleza, parece até um gesto de referencia para vida.
Os velhinhos e as velhinhas gostam de ser velhinhos e velhinhas. Eles se sentem recompensados. Eles estão sendo abraçados pela vida a cada momento.
Eles nos mostram com seus humildes cafezinhos feitos na hora ou com suas cochas belíssimas de crochês que a vida pode sim ser uma “verdadeira vida”.
A velhice da minha mãe está sendo uma USP para mim com pós em Harvard.
Estou admirado e assustado com o envelhecimento da minha mãe, mas estou aprendendo muito...Posso ate agradecer. Estou crescendo muito e sentindo visualmente o peso e o preço da velhice, agora com sinônimo de perda.
O andar cada vez mais arrastado da minha mãe me da sensação de perda.
A surdez, o aumento quantitativo das broncas, as neuras e TOCs, a demasiada teimosia, a exagerada nostalgia e a perda do animo me da sensação de perda. E isto dói.
O que eu achava, hoje eu tenho certeza: a velhice daqueles que amamos pode aumentar muito nossa sensibilidade a ponto de fazermos sofrer, mesmo que isto tenha sabor de crescimento.
Posso ate dizer que é confuso entender à velhice.
Sinto tristeza e alegria ao escrever estas palavras. A velhice da minha mãe esta me confundindo... Ora com sensação de perda, ora com gosto de admiração.
Então como estou confuso e também pelo simples fato que minha mãe já mandou  - eu buscar um copo d’água, descascar duas laranjas, apagar quatros lâmpadas e fechar duas janelas – tudo isto em 5 minutos, vou encerrar dizendo que fico com o crescimento...Gloria a velhice da Dona Lucinda.



Glauco Viana
Enviado por Glauco Viana em 17/07/2011
Código do texto: T3101380

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Sobre o autor
Glauco Viana
Conceição dos Ouros - Minas Gerais - Brasil, 37 anos
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