Tributo a Ana Maria
Há eventos em nossas vidas pelos quais passamos como que se não fossem reais . Aconteceu-me isto, há pouco tempo.
Ainda adolescente, em uma sala de aula, do chamado ginasial,conheci uma uma garota,muito calada e muito derretida em meiguice e sorrisos. Raramente ouvia-se sua voz, somente naqueles temidos momentos de leitura oral circular. Alguns leitores devem saber do que falo.Fora isso, todas as vezes que se olhava para ela, ali estava seu olhar atento e doce e seu sorriso suave.
Quis o destino que permanecêssemos colegas de turmas por mais tempo e que fosse minha vizinha de rua, assim, caprichosamente, teceu-nos uma bonita e profunda amizade.Saímos do ginásio e nos encontramos no Magistério. Ali então, nos aproximamos ainda mais. Era a ida, a permanência em sala, o retorno eo bate papo mais tarde, especialmente nas noites de verão, quando aproveitávamos a fresca. Os assuntos eram diversos. A futura profissão de professora, os acontecimentos das aulas, as colegas mais divertidas e queridas,os opostos também… As músicas que faziam sucesso, as que faziam sonhar. A s preferidas do festival nacional de MPB e seus intérpretes e os amores platônicos. Ah! Esse assunto então era campeão de falação e de audiência! Estávamos na idade de se apaixonar toda semana, se não mais de uma vez por semana. Nossos corações não eram volúveis. Eram adolescentes e românticos! E nós algumas vezes provávamos do desencanto de Byron ou de Älvares de Azevedo. Mas tínhamos como essência a expectativa de dona Carolina em A Moreninha. Esperávamos nossos príncipes. E eles chegaram. O meu, em uma brasília vermelha,comprada de segunda ou nen sei quantas mãos, o dela, no ônibus da Águia Branca. Mas chegaram.
Nossa conversas agora tinham um tema a mais: casamento, enxoval, dieta para ficar bem no vestido de noiva,a arrumação de nossas casas, as cores dos móveis…Ih! Mas tinha também o trabalho que precisávamos arranjar para darmos conta de tantos sonhos. Arriscamo-nos a algumas atividades pedagógicas até que concluíssemos o curso.
O primeiro trabalho foi de substituta de professora. Eu comecei primeiro. Já fazia faculdade e precisava custeá-la. Ela começou uns meses depois, na mesma escola em que eu estava, porém ficou pouco tempo, pois precisou cuidar dos irmãos menores, enquanto a mãe trabalhava em outra escola. Fiquei sem minha amiga, fazia a caminhada de ida e volta sozinha. Fiquei triste. Na volta para casa, passava na dela e sempre batia um papinho para matar a saudade.
O tempo foi passando. Nossos namoros ficando sério e nos separaram pelo casamento. Eu casei e permaneci na cidade por alguns anos. Ela casou e saiu da cidade por alguns anos. Quando retornou, eu havia mudado para outro município. Desencontro e saudade por muitos anos. Conseguia contato, perdia contato. Encontráva-nos em concursos para professores e nos desencontrávamos novamente.
Trinta e um anos depois do primeiro encontro em uma sala de aula do ginasial, nos encontramos, por vontade do destino, nos corredores de uma escola. Da minha escola. Onde sou professora desde que saí do nosso município. Ela estava morando de novo perto de mim. Que maravilhosa surpresa! Que bom foi abraçar aquela amiga tão querida! Em nada mudara. O mesmo olhar curioso e vívido, o mesmo sorriso suave e a mesma meiguice… Era tão bom que custei acreditar. Puxa! Estávamos as duas podendo compartilhar toda aquela história e as histórias de agora. Ambas avós, mesmo município, pena que não trabalharíamos na mesma ecola… Mas o senhor destino mais uma vez quis que ficássemos mais próximas. No início deste ano, enquanto observava a relação de professores para contrato, um nome acelerou meu coração: Ana Maria. Será a Aninha? É o mesmo sobrenome!...
Liguei, do outro lado uma voz doce atendeu-me, porém logo me disse que não era a Ana. Era sua filha. A Ana veio logo e sinceramente, não havia diferença na doçura das vozes. Ela havia gerado outras duas Anas. Ao menos na voz.
Era 27 de março. Voltamos a trabalhar juntas. Fiz questão de dizer a todos da escola a minha alegria. Minha amiga voltou. Minha adolescência está aqui, gravada nesta mulher, no que ela representa para mim.Ela é o elo emtre presente e passado de uma vida que traz consigo quase todos os bônus e os ônus de quem se aproxima de meio século. A sua presença acendeu-me as deliciosas lembranças da adolescência. Fiquei muito feliz! Estávamos novamente na mesma escola. Mas de novo ficou pouco tempo. Era 11 de abril, Ana partia. Desta vez não foi porque os irmãos menores precisaram dela. Desta vez foi porque o maior de todos nós a requisitou. Aqui estava minha amiga, encantando a todos com seu silêncio que tudo dizia, com sua meiguice que a todos acariciava, com seu olhar compreensivo e atento e de novo se foi. Ficou tão pouco tempo! E eu fiquei sem minha amiga. Vou continuar a caminhada sem ela. Mas sempre vou dar uma passada pelas letras para bater um papinho com ela e matar a saudade.
Pensei em procurar o significado do seu nome, Ana Maria, para saber se combina mesmo com você, mas desisti. Sempre soube o que significa para mim: O lado mais doce e terno da vida e a amizade mais delicada que se pode ter.
Não sei quanto tempo o destino vai esperar, mas sei que ele vai dar seu jeitinho de nos aproximar.
LUCINEIA GRUGIKI
Enviado por LUCINEIA GRUGIKI em 03/08/2012
Código do texto: T3812496
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