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Não há palavras para um homem de poucas palavras (homenagem ao tio Laurindo)

A morte é um momento muito solene. É a cerimônia mais séria e respeitosa que existe. É um momento de uma reflexão profunda e incomum. Uma ocasião em que vemos como única alternativa buscar forças de dentro de nosso ser para ultrapassar a dor da saudade.

Há sete dias, perdíamos uma pessoa muito querida. Como em muitas situações, só sabemos exatamente o quanto gostamos de uma pessoa quando a perdemos. Porém, agora ainda mais é preciso compreender e sentir o que o budismo ensina: a relação entre as pessoas transcende a vida e a morte.

Alguns o chamavam de Laurindo, outros de Teruhide. Mas ele atendia também por tio 'anchan' ou apenas tio Ló. Um descendente de japoneses que não era sistemático ou apegado a formalidades. Era simples, de natureza pacífica, tímido e de poucas palavras.

Não era uma pessoa que gostava de aparecer, ao contrário, preferia discrição. Era um homem do campo, que compreendia bem o comportamento e o rigor da vida e da natureza. Sabia perfeitamente que só se colhe o que se planta, e só floresce o que se cultiva com muito suor e trabalho. Ou seja, tinha uma sabedoria inata e não explícita, conhecia na prática muito bem a Lei de Causa e Efeito.

Ele trabalhou até o último dia da sua vida, literalmente. Até naquele sábado da despedida, ele havia cuidado da lavoura e da família. Fez as suas últimas recomendações e adormeceu para seguir a sua jornada na próxima existência.

Partiu cedo, um jovem de 62 anos de idade. Menos de seis meses antes, em agosto do ano passado, ele estava aqui também nesta mesma sala, orando junto conosco na cerimônia de sétimo dia de falecimento de seu pai, Sr. Kiyoto.

A vida é assim. Um dia nos despedimos, no outro pode ser nós que partimos. Ao nascermos, nós é que choramos; quando nos vamos, somos entremeados pelas lágrimas das pessoas queridas. A morte parece paradoxal: é a nossa única certeza, que nunca queremos; passamos a vida nos preparando para ela e nunca estamos prontos quando ela chega.

Com uma partida tão repentina, o tio Laurindo nos ensina a prestar atenção no valor e no significado da vida. Quando encaramos a realidade da vida e da morte, percebemos como muitas das nossas preocupações momentâneas são insignificantes. Somente quando compreendemos as questões da vida e da morte é que despertamos para o verdadeiro significado de nossa existência.

O nosso mestre Daisaku Ikeda constantemente nos orienta a criarmos uma vida significativa, manifestando a sabedoria necessária para discernir o que é de fato importante. Ele diz: “Todos nós morreremos um dia. O mais importante é a maneira como vivemos. É importante vivermos o máximo que pudermos, mas a longa duração não significa uma boa vida. O crucial é o que fizemos com a nossa vida. É isso o que determina se nossa vida é boa ou não.” (jornal Brasil Seikyo, edição Nº 1590, 03/02/2001, p.A3.).

O buda fundador Nitiren Daishonin comparou os quatro sofrimentos de “nascimento, velhice, doença e morte” respectivamente ao “ouro, prata, bronze e ferro”. E o mestre Ikeda explica: “Esses quatro sofrimentos revelam o aspecto real do curso da vida e cada um possui um profundo significado e valor. Daishonin afirma que o ato de nascer e viver equivale ao ouro. Entretanto, as pessoas são derrotadas facilmente pelas dificuldades, perdem a alegria de viver e se arrastam como se estivessem carregando um fardo tão pesado quanto o chumbo. Contudo, o budismo possibilita a todos vencerem os sofrimentos e ensina o caminho para alcançar a felicidade.” (jornal Brasil Seikyo, edição Nº 1677, 30/11/2002, p.A7.)

Superar os quatro sofrimentos de nascimento, envelhecimento, doença e morte não é uma questão meramente teórica. De forma prática e realista, devemos aprender a conduzir uma vida longa, saudável, realizada e morrer sem sofrimento. O budismo ensina perfeitamente o caminho e a sabedoria para se conseguir isso.

A prática do budismo proporciona a força necessária para superar quaisquer sofrimentos da vida e da morte. O próprio budismo surgiu da preocupação de se superar o inevitável sofrimento da morte. Tanto a nossa, como a das nossas pessoas queridas. Recitar o 'Nam-myoho-rengue-kyo' nos conforta, nos alenta, renova nossa força de viver e nos tranquiliza elucidando que a pessoa falecida atingiu a iluminação, ou seja, a felicidade.

Certa vez, uma pessoa cujo pai havia falecido perguntou ao mestre Ikeda como saber se seu pai está realmente bem. Ele citou uma frase dos escritos: “Os grandes benefícios advindos da fé no Sutra de Lótus não se restringirão somente à iluminação de si mesmo; eles se estenderão para seus pais e mães.” E esclareceu: “Esta frase nos ensina que o senhor, que é filho, como também seu falecido pai atingirão infalivelmente a iluminação e tornar-se-ão felizes. Por isso, haja o que houver, deve empenhar-se vigorosamente na prática da fé. Quando o senhor fizer uma prática que lhe permita dizer com toda a convicção que está muito feliz, seu pai também, com toda a certeza, estará desfrutando a mais plena felicidade.” (Coletânea de Orientações, v.4, p.33.)

O tio Laurindo era o filho mais velho dentre sete irmãos. Da terceira geração dos Fuchigami no Brasil, foi o primeiro a nos deixar. Parece ter herdado a tendência de sua família materna de partir em idade sexagenária. Todos os seus tios e inclusive sua mãe faleceram nesta faixa etária. Isso contrasta com a sua família paterna, cujos tios e também seu pai nos deixaram após terem vivido além dos 80 anos.

A verdade é que em qualquer idade, o falecimento de uma pessoa querida nos parece sempre precoce demais. Porque somos egoístas por natureza, queremos para nós eternamente as pessoas que amamos. Porém, as pessoas que amamos continuam sim vivendo em nossos corações. Enquanto as amarmos e nos lembrarmos delas, continuaremos sempre juntos.

Uma pessoa que perdeu a mãe há pouco mais de um mês, ao saber do falecimento do tio Laurindo, postou no meu Facebook: “Que você cultive as boas lembranças, que é a forma de amenizar a dor da saudade.” E temos sim muitas boas lembranças do tio Laurindo. E continuaremos nos lembrando dele todos os dias durante as nossas orações.

Naquela mesma noite de sábado, acontecia também um episódio muito triste na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, exaustivamente noticiado pela mídia do mundo inteiro. Foi uma tragédia com mais de 230 vítimas fatais e dezenas de feridos, todos muito jovens, com idades entre 16 e 25 anos. Foi um desastre irreparável e inesquecivelmente traumático, não apenas para os envolvidos diretamente para também para toda a sociedade.

De forma extremamente oposta, o tio Laurindo faleceu tranquilamente, de causa natural e manteve um aspecto sereno até a despedida final. Ou seja, manifestou no momento da morte exatamente o estado em que prevalecia em sua vida: tranquilidade, serenidade, paz de espírito.

Em sua vida, ele enfrentou inúmeros desafios inenarráveis. Desde a dificuldade financeira extrema até os diversos tipos de preocupações e dilemas. E sempre encarava tudo com seu espírito forte e inabalável. Muitas vezes a maior força e bravura de uma pessoa estão justamente na sua capacidade de suportar pacientemente cada intempérie que a vida lhe apresenta. Assim era o tio Laurindo.

Ao longo dos seus 62 anos, teve sim uma vida de realizações. Construiu e manteve uma família com esposa, dois filhos e um neto. Com toda a família praticante do budismo, reverteu a situação de privação extrema indo trabalhar do outro lado do mundo, no Japão, primeiro sozinho e depois junto com toda a sua família.

Fez tudo que pôde, fez o que estava além do seu alcance para proporcionar uma vida mais digna e com mais conforto à sua família, ajudando inclusive aqueles ao seu redor que mais precisavam. Assim ele foi. Foi-se como sempre foi. Foi tranquilo, feliz, realizado.

Bom descanso, tio Laurindo.

(Cerimônia de 7º dia de falecimento – 1º/02/2013)
Hélio Fuchigami
Enviado por Hélio Fuchigami em 05/02/2013
Código do texto: T4124262
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Sobre o autor
Hélio Fuchigami
Catalão - Goiás - Brasil, 35 anos
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