O POETA CANHOTINHO

UM POUCO DA HISTÓRIA DO POETA CANHOTINHO

Essa semana (05/06/2013) fez 48 anos da morte do poeta Elísio Felix da Costa, mais conhecido por Canhotinho. Nasceu na cidade de Taperuá, interior da Paraíba. Foi chamado de Canhotinho porque era canhoto, mas existem relatos de que na cantoria ele tocava na viola dos dois lado, dando a entender que também era destro.

Não se sabe ao certo, mas estima-se que Canhotinho tenha nascido por volta de 1912, vindo a falecer no dia 05 de Junho de 1965, vítima de um infarto, quando tinha 52 anos, aproximadamente. Era poeta repentista, considerado um dos maiores cantadores da época, pelo fato de ser analfabeto, pobre e preto, essa última característica gerava um preconceito muito grande, perante a sociedade naquele tempo.

Canhotinho viajou para cantar pelos Estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e praticamente em todo o Nordeste, sempre acompanhado de grandes nomes da cantoria, como Pinto do Monteiro, Manoel Xudu, Otacílio Batista, Lourival Batista, Sebastião José, João Furiba, José Alves Sobrinho, entre tantos outros.

O poeta José Hermínio da cidade de Mari fez muitas cantorias com ele, inclusive muitas participações na Rádio Planalto de Carpina. José Hermínio filho, que na época acompanhava o pai cantando com o grande Canhotinho, recorda muitas dessas histórias, fatos oculares, testemunhados pelo jovem poeta Hermínio, que estava apenas ingressando no universo da poesia improvisada, onde ficou sabendo de muitos fatos ocorridos na trajetória do grande cantador taperoaense, residente na capital João Pessoa.

Conta José Hermínio filho que existia na Zona Rural de São José do Egito, um apologista e promovente de cantorias por nome de Nicolau, que certa vez ajustou uma cantoria com os poetas: Lourival Batista & Canhotinho. E havia na região uma pessoa apelidada de Bacalhau, famoso por acabar com brincadeiras na região, e teria dito que iria acabar essa dita festa com suas badernas. A cantoria, muito bem organizada com bebida e comida a vontade, teve início, muita gente assistindo e por volta das 4 horas da manhã, já terminando a festa, iniciaram um assunto falando sobre o Bacalhau que não apareceu para interferir de forma negativa no evento, e o poeta Lourival terminou uma estrofe dizendo:

BACALHAU DE ÁGUA DOCE

NÃO ENTRA EM ÁGUA SALGADA

Num intervalo de 2 ou 3 segundos o poeta canhotinho pegou na deixa e mandou essa:

EU ACHEI MUITO ANIMADA

A FESTA DE NICOLAU

O GUINÉ ENTROU NO CHUMBO

O BODE MORREU NO PAU

SÓ NÃO PODEMOS BOTAR

O COCO NO BACALHAU

As dezenas de pessoas que ainda estavam na cantoria, sabendo do assunto, aplaudiram Canhotinho de forma tão intensa, que o parceiro, num gesto de reconhecimento, parou a viola para abraçar o amigo.

Outras características marcantes e louváveis do poeta analfabeto na caneta, mas dotado de conhecimento, eram: a simplicidade, a humildade, cantava com qualquer cantador, não tinha vaidade nem boemia, apenas falava cantando sobre sua saudade, sua alegria e sua dor, no entanto, era um dos poetas mais requisitados para fazer cantorias. Temos essa estrofe belíssima do poeta:

EU CANTO PRA TODO MUNDO

COM MINHA VOCAÇÃO SANTA

CANTANDO TAMBÉM SE CHORA

CHORANDO TAMBÉM SE CANTA

A MINHA MÁGOA SECRETA

CONFESSAR NÃO ADIANTA

Havia na cidade de Bayeux, região metropolitano de João Pessoa, um comerciante por nome Sátiro. Ele promovia muitas cantorias e a presença de Canhotinho era certa, como um dos cantadores para realizar o evento. Uma vez, Sátiro percebeu que a viola do seu preferido cantador estava bastante deteriorada, e agendou em sua casa uma cantoria para a noite de São João do ano 58 e toda a renda dessa cantoria seria para a compra de uma viola nova para o poeta Canhotinho, sem que ele soubesse que o beneficiado seria ele, sabia apenas que era para ajudar uma pessoa. Nessa época o pessoal fazia fogueiras de São João com bastante lenha e passava a noite toda queimando e ainda entrava pelo dia. Quando terminou a cantoria ás 6 horas da manhã, o comerciante ordenou que ativassem ainda mais as brasas da fogueira e pediu a viola de Canhotinho, quase toda quebrada e jogou no fogo, a qual foi consumida pelas chamas em 2 minutos. O poeta sem saber das pretensões do amigo, ficou triste ao ver sua companheira se transformando em cinzas, foi quando apareceu uma de suas filhas trazendo uma viola nova, linda na capa e lhe entregou em nome do seu pai, lhe entregando também o restante do dinheiro arrecadado na cantoria. Nossa! Foi uma emoção geral. Canhotinho falava desse momento mágico de sua trajetória com muita alegria e orgulho, sempre fez questão de mencionar os favores e as coisas boas que os amigos faziam por ele.

Eu particularmente conheço pouco sobre essa lenda viva da poesia popular. Mas cresci ouvindo as pessoas falarem sobre a sua fama e sobre o trabalho desse artista da autêntica cultura nordestina. Sei também que foi e continua sendo avô da minha querida amiga Socorro Fernandes, que reside e trabalha na cidade de João Pessoa-PB.

HELENO ALEXANDRE

Sapé-PB

Heleno Alexandre
Enviado por Heleno Alexandre em 08/06/2013
Reeditado em 10/06/2013
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