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Hoje é dia do Vovô

Hoje não é dia do Avô, é somente dia 26/07,mas durante toda essa semana uma pessoa bem peculiar ficou como hóspede lá em casa, meu Vô.

Sr Francisco Correa Mendonça, vulgo Seo Mendonça é meu único vô ainda vivo. Uma coisa bem engraçada do meu avô é que come feito a magali, e a qualquer momento. Basta dizer, 'vô você quer pão com presunto, queijo, requeijão, maionese e coca?', ele sorri e diz : 'hmm, seria bom'. E na idade dele, que aliás já ultrapassou os 90, é deveras engraçado comer de tudo.

Minha vó diz, sem papas na língua, que meu vô ainda é assanhado, e ele nem liga, talvez nem ouça devido a surdez.

Essa mesma vó não gosta de ser chamada de vó, então a chamamos de mãe e pra diferenciar fica mãe-velha, logo meu avô também é apelidado de pai-velho.

Nessa mesma semana ficou até tarde assistindo ao jogo do flamengo, nem vi que horas foi durmir . No dia seguinte, minha irmã pergunta quem tinha ganhado o jogo, ele faz cara de quem está pensando e confessa que já esquecera o placar. Olhamos espantados e caimos na gargalhada.

Teve um ano que cismou que ia não chegaria vivo até o natal, e fez uma reuniãozinha familiar pra despedida. Eu já sabia que era mais uma de suas armações, mas levou tantos aos prantos, com direito a últimos sermões e leitura da bíblia. E vejam onde ele está, não só chegou vivo até o natal, como já comemorou tantos outros. suportou inclusive a perda de um filho.

Quando era menor,sempre que nos visitava trazia milhares de moedas que eram divididas igualmente entre os netos. Ou quando havia uma briguinha de irmãos, sempre nos fazia uma leitura da bíblia, e dava sermões engraçados. É uma figura esse vô.

Lembro muito pouco do outro avô, o vô Miguel, só lembro da felicidade quando nos via, que me chamava de neto preferido (e único, as outras eram meninas). Pegou uma doença logo cedo, e desde então viveu em uma cama, e todo fim de semana faziamos visitas pra ele. Eu ficava maravilhado com aquela casa, cheia de árvores, com um quintal gigantesco. Abraçava como se não houvesse amanhã, dava refrigerante na boca dele, afinal ele era o doente e pensava que estava cuidando dele. Também lembro de sempre estar vestido em uma calça marrom, deitado e de cabelos branquinhos.

No dia que ele morreu, também estava por lá. Aliás não estava entendendo muita coisa, tinha muita gente, as pessoas me abraçando, e eu achando que era festa. Minha mãe falou pra mim: 'fica aí com teu vô que vou lá na cozinha', abracei e ele me pediu um copo com água. Fui até a cozinha, e as pessoas me ignoravam, até que consegui falar, meio que gesticulando que ele queria água. Minha tia não me entendeu, e correu pro quarto. Todos correram, e eu vi ele morrendo.

Não entendia o significado da morte, só sabia que era despedida do meu vô. Meus pais não nos deixaram ir pro velório, e nem pro enterro. Fiquei em casa, assistindo desenho e de noite fomos pro circo. E conhecendo aquele vô, que apesar da doença sempre sorria quando nos via chegando pra fazer visita, não deve ter ficado triste ao saber que fomos pro circo no dia do seu enterro.

Eu não lembro de uma cena onde meus dois vôs estejam presentes ao mesmo tempo, vai saber o porquê. Prefiro pensar que não conseguiria ver os dois juntos, seria tanto amor, tanto amor que não resistiria e nem conseguiria abraça-los como se não houvesse amanhã.
diley rodrigues
Enviado por diley rodrigues em 17/09/2007
Código do texto: T655875

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Sobre o autor
diley rodrigues
Manaus - Amazonas - Brasil, 29 anos
17 textos (927 leituras)
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diley rodrigues