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Cinema

Naquele instante de tensão e expectativa, quando o mocinho vai atirar no bandido e todos, com os olhos fixos na tela, gritam por silêncio, a fita enrosca e a sessão é paralisada. Alguns chamam o diretor do cinema, confundindo-o com o filho da atriz do filme pornô. Outros abraçam, beijam e dão o maior malho na namorada, aproveitando o escurinho do cinema. Somente depois do "pofft" na cara e do zumbido no ouvido lembram não terem levado a namorada. Os puxa-sacos não perdem tempo. Gritos agudos e graves ecoam na acústica do cinema: "seu viado; sai fora sua bicha, vai passar a mão no saco do seu pai; vou te dar umas porradas" e etc. Na última fileira de poltronas, ouvem-se ruídos bastante incomuns: "ahnnnnn..., ahnn..., huhnn..., ynhek..., tchec..., tcheck..., ááááááhhhhh..., nããããããoooo..., aaasssiiimmm...", etc. Ninguém presta atenção. Objetos estranhos e nem sempre identificados sobrevoam o ambiente. Só os mais comuns são possíveis identificar: calcinhas, sutiãs, camisinhas, pílulas, revisitas pornográficas, vaselina, vibradores, garrafas de Coca-Cola, entre outros. Alguns conseguem até mesmo fechar grandes negócios na imensa escuridão.
— Quanto?
— Cinqüentinha.
— Muito. Trinta.
— Trinta e cinco e mais nada.
— Fechado.
O lanterninha desce a rampa do corredor apontando a lanterna em direção às poltronas e ri divertido enquanto caminha. De repente, três vultos enormes puxam-no para entre as poltronas. Quinze minutos depois, podia-se ouvir o choro do lanterninha enquanto subia a rampa. Alguém encontra a lanterna do lanterninha caída no chão do corredor, acende e aponta para a tela branca, onde é projetado o filme. Uma moça muito tímida, vestida de vermelho, meias e botas pretas e peruca ruiva, sobe no tablado abaixo da tela. Todos, em coro, assobiam a música de uma propaganda de cerveja. A moça, corada, tira a roupa enquanto dança. Quando o filme recomeça, uma grande vaia une uma mesma frase: desliga essa droga.
Marcelo Melero
Enviado por Marcelo Melero em 28/01/2006
Reeditado em 08/10/2008
Código do texto: T105336
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Sobre o autor
Marcelo Melero
Curitiba - Paraná - Brasil, 49 anos
38 textos (5715 leituras)
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Marcelo Melero