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GAGUEIRA É FOGO!

                    O TROTE DO TELEFONE

Corria o ano de 1967 e o Sebastião “Texaco” (quem se lembra dele?) trabalhava no único posto de gasolina da cidade. Daí o apelido. Era uma figura folclórica como o “Dito Ronqueira” e outros (aliás, ainda preciso escrever sobre eles – principalmente daqueles apelidos que os donos carregam há meio século, mas não gostam).
O ”Texaco” era um freqüentador assíduo de bailes e tinha até terno de missa para essas ocasiões. Gostava, realmente, de fazer boa figura. Era o seu estilo. Parecia que tentava, com isso, disfarçar sua origem simples que pelo jeito o incomodava. Pelo menos era a impressão que passava para quem vivia nas mesmas condições dele.
        Mas talvez não seja nada disso. Enfim, era uma das suas marcas. Outra, naturalmente, era a gagueira. Coitado, a rapaziada era implacável na gozação e ele certamente sofria com a situação. E foi essa característica pessoal que registrou um pequeno episódio na sua vida.
Telefone naquela época não era muito comum, mas o trote sim (as duas invenções andaram sempre juntas). E como “cabeça vazia é oficina do diabo”, nos momentos de ócio ele ficava lá, naquele escritório que existe até hoje (onde funciona a quitanda – que já foi “das andorinhas”) sentado em frente à mesa vazia onde só havia o telefone com a inevitável tentação.
Se havia testemunha era melhor ainda, porque aí ele tinha com quem compartilhar suas hilariantes aventuras. Sim, porque na cabeça dele era até um fator de realização. Escolhia a dedo com quem falaria – de preferência aquelas mais distantes do seu convívio social.
        Nem poderia ser diferente por motivos óbvios – a menos que a empregada atendesse ao telefone. E era no baile que ele as selecionava. De preferência as mais “posudas”, as menos acessíveis. Ali, ao telefone, ele era mais ele!
        Tinha até alguns personagens que representava. E como representava bem! Não sei de onde tirava aquelas falas – talvez dos filmes que assistia. Mas a verdade é que ele sabia do que elas gostavam e conduzia o diálogo de forma a mantê-las interessadas. Parecia um “doutor” no papo, se transformava com aquilo e se deliciava com o que fazia. Seu texto era decorado e sua fala pausada – para não se entregar. E a concentração, é claro, era total. Mas foi numa dessas que ele se atrapalhou e pôs tudo a perder.
A voz do outro lado, já meio desconfiada de quem estava na outra ponta, dispara: – “Se manca, Texaco... Quem você pensa que está enganando?” E ele, todo atrapalhado:
– “Vo-vo-vo...cê está en-en-en...ganada. Não, não, não... sou eu, não...” E desligou.
Silêncio constrangedor na sala. Ele olha para os espectadores que aguardavam sua reação e diz, apenas:
– “Ca-ca-ca...ramba!”.
E saiu. Para onde ninguém viu. Estavam todos de olhos fechados... de tanto rir.

                   
                    GAGO DIZ CADA COISA!...

Desta vez com foi com o (hoje falecido) João “Brasileiro”, também conhecido como “Boca Rica”. Eu trabalhava na Tesouraria da Prefeitura e cuidava da Dívida Ativa. Fui até sua casa obter uma informação a respeito de um lote vizinho cujo proprietário morava em São Paulo e, como ele não estava, deixei um recado com os vizinhos para me procurar assim que chegasse. Logo em seguida ele aparece no prédio, perguntando por mim.
        -  “Quem é o Lou, Quem é o Lou, Quem é o Lou... renço?” E falava dando pulinhos. Me apresentei e ele perguntou, pulando no final de cada repetição:
        – “Você quer falar cu..., Você quer falar cu..., Você quer falar cu... migo?” Na hora não, mas depois que ele se retirou ninguém da seção parava de rir – principalmente com o “Zé Ruque” me perguntando a todo momento com aquela sua maneira tradicional de gozar seriamente:
        – “Mas, Lourenço, eu não sabia que você queria falar essas coisas?...”
Lourenço Oliveira
Enviado por Lourenço Oliveira em 26/02/2006
Reeditado em 17/03/2006
Código do texto: T116490
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Lourenço Oliveira
Salesópolis - São Paulo - Brasil
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Lourenço Oliveira