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Max, O homem do futuro

  Conheci-o, um dia, pouco antes desse facto misterioso que lhe modificou a vida radicalmente, e, de certa forma, também àqueles a terem o azar de o rodear nessa altura.
Esta é a sua história, a história de

                MAX, O HOMEM DO FUTURO


            “If God will send his angels
              to can use here right now
               If God will send a sign
                      Where we go?”

Era alguém parecido com toda a gente, diferente apenas nalguns apontamentos mais pessoais, ao exemplo do que acontece a todos nós. Alegremente banal, pai razoável de cinco crianças indiferenciadas no recreio de um qualquer liceu ou escola, casara por acaso quando a sua namorada casual teve a pouca sorte de engravidar. Depois disso, homem de palavra e pouco adepto de grandes confusões, assumiu a paternidade e o compromisso muito antes dos seus prováveis sogros tomarem o conhecimento de que iriam ser avós.
Com o passar do tempo aprendeu a estimar a mulher e, tomando o gosto à criação, repetira o feito mais quatro vezes.
Pelos quarenta anos fizera-se um pai vulgar, com algumas aventuras pelo meio, mas, fiel ao seu espírito gregário, achava ser o poiso inicial o ideal e menos problemático e por isso, as deambulações líricas duravam o tempo da satisfação física.
Dono de um café que, pese embora os seus esforços empreendedores continuava exactamente na mesma, após 15 anos de duvidosa gestão e indefectíveis credores a perdoar-lhe os devaneios de empresário mal sucedido. Banal até à ínfima partícula, constituía a imagem perfeita do cidadão comum, votante fiel e incondicional do partido da moda, adepto não confesso da cultura das massas e receptivo a toda e qualquer coisa que o entretivesse, como quem diz, a permitir quebrar a pasmaceira de todos os dias, ou a variar esta. Assim, passava os dias de pasmaceira em pasmaceira, tirando cafés, fazendo tostas, reclamando à cozinheira menor e mal-paga os pedidos dos clientes, enquanto se entretinha a esticar a cabeça para mal ver, na televisão distante, concursos tipo “roda da sorte”. E por falar em sorte, a sua era ser discreto, pois, adepto incondicional da “televisão-enche-o-olho”, deliciava-se com toda e qualquer imbecilidade do tipo “visinho-não-gosta-de-visinho-e-por-isso-não-sabe-se-lhe-há-de-pôr-uma-fogueira-de-trampa-à-porta”, incentivado na sua hesitação pelo apresentador boçal demasiado bem pago.(este aspecto de critica social vem mesmo a calhar...)
Limitava-se a rir-se interiormente, impávido aos olhos de qualquer cliente mais susceptível.
Em princípio viveria o resto dos seus dias metido neste mundo radioso de vulgaridade, mas o destino deste homem entroncado, cara redonda, calvície avançada, cultura incipiente (tanto escolar como empírica) e normopata até ao absurdo (do género de ter sempre as coisas nos mesmos locais e, qualquer alteração se revelar problemática por o seu esquema mental ter sido moldado à rotina)...e modos discretos tinha sido traçado e ele estava destinado à diferença.
Para amantes de filmes tipo “Fenómeno”, séries na senda dos “X Files” ou da “5ª Dimensão”, o caso teria sido apaixonante e a estudar até à exaustão.
Mas para ele foi como se uma pequena tragédia tivesse eclodido.
Talvez tivesse sido algum fenómeno do género chuva de meteoros invulgar, variação nos campos magnéticos, tempestade solar ou até mesmo a aterragem/queda de uma nave espacial extra-terrestre, ou apenas o mero caso de poluição não declarada. Podia ter sido qualquer uma destas hipóteses, nunca o saberemos, sabemos sim que foi de noite e que ele, na manhã diferente acordou diferente.
Para começar berrou com a mulher por esta se encontrar no seu lado favorito da cama (do qual só saia para fazer amor e mesmo assim tal só acontecia quando as coisas aqueciam para além do normal...), embora ela argumentasse o contrário.
Começou a estranhar quando, depois de com maus modos ter acendido o cigarro trivial, e ter procurado sair do quarto, deu consigo, não à porta, mas bem perto da janela...
Pensando ter sido o efeito de mais uma noite mal dormida, não deu particular importância ao facto...mas quando se perdeu ao tentar encontrar a casa de banho (foi parar ao lado oposto do corredor...), começou a lenta tarefa de racionalizar o acontecimento. Provavelmente tinha sido o efeito conjugado de dois Valium e da Macieira. O médico já o tinha avisado para evitar abusos, mas como sempre, o detentor das suas verdades absolutas continuava a ser ele...; habituado a nunca dar parte de fraco, foi superando as dificuldades deste novo estado com a falsa indiferença do orgulhoso idiota típico.
Tarefas tão exasperadamente lineares, tais como lavar os dentes (o seu copo estava no lado pré-determinado...), tomar banho (descobriu as virtudes da água fria, ao invés da quente...) etc...constituíram suplício insuspeito...Irritado, recusou o pequeno-almoço e tentou sair o mais depressa possível “daquela casa de malucos”, como de resto berrou à estupefacta família.
Vivendo por cima do seu Café, à excepção de ter trocado o lado do elevador, nada de relevante aconteceu e, já minimamente habituado, foi um Max indiferente que percorreu o quarteirão à procura do estabelecimento.
Andou cinco minutos para encontrar os interruptores e enfim, passou o resto do tempo a mediar entre a abertura tentando redescobrir os cantos à casa (como é norma e a nível estilístico ficar bem dizer...)
Para além de tirar *Cimbalinos (convém evitar demasiadas repetições) de uma forma perfeitamente delirante e digna de figurar em qualquer filme de “gags” absurdos, tudo correu bem, ou menos-mal.
Ao almoço, metade dos pedidos anotados foram parar às mesas erradas, a exemplo das respectivas contas.
Por fim, e na hora do fecho, lembrou-se ter de ir ao outro, lado da cidade buscar géneros.
Foi o caos.
Às naturais dificuldades de reaprender a conduzir -o diabo dos pedais estavam trocados...-, quando foi para a estrada arrependeu-se tarde demais. Descobriu então as virtudes negativas de conduzir em contra-mão... (não há nada como o burlesco rodoviário para conquistar a crítica literária...!)
Após 3 intercepções por polícias mais ou menos compreensivos, e de várias multas além da carta apreendida, Max convenceu-se de que não estava bem.
No dia seguinte decidiu ir dar o braço a torcer e consultar o médico recomendado por alguém em quem confiava -não se lembrava bem quem era, mas sabia poder confiar... –
Todavia, o pior ainda estava para vir.
Ao acordar, sentira qualquer coisa na mulher, como se ela não estivesse bem. Viu dentro dela um vazio, de anos, por ele desconhecido.
Pela primeira vez em muito tempo sentiu-se perto dela e tentou auxiliá-la.
Tocou-a e acariciou-a como já se esquecera de o fazer. Esta respondeu com igual carinho. Quando saiu de casa, foi como se o tivesse feito pela primeira vez.
A pouca paixão renascera.
A jornada começara bem.
A caminho do consultório, (três parágrafos começados pela mesma letra (A) são uma marca de autor, não defeito de escrita!) viu um mendigo alcoolizado a pedinchar. Espantou-se ao sentir a sua tristeza, o seu abandono. Ao invés do pária habitual, viu nele alguém a cujo destino começara por sorrir, para, depois de um divórcio a romper vinte anos de casamento, o lançar para as ruas. Começara a beber e nunca mais parara; às naturais dificuldades, acresceram aquelas acrescentadas e hiper valorizadas pela bebida. Pagou e deu-lhe metade do conteúdo da carteira e um abraço.
De repente, mal Max lhe tocou, a atitude do indigente mudou. Empertigando-se, ergueu-se, alisando o sobretudo nojento e assumiu uma pose orgulhosamente insuspeita, recusando o dinheiro e desaparecendo.
O inusitado bem-feitor já não percebia patavina e menos percebeu quando, minutos depois o mesmo o interpelou, insultando-o.
-Você tirou-me tudo! Tudo! É um bruxo, uma maldição!!!
-Como?
-Eu estava tão bem até você aparecer! Tinha-me esquecido, mas você...fez-me qualquer coisa! Agora lembro-me de tudo! Do meu egoísmo, foi ele o responsável pela desgraça! Durante anos apostei tudo na porra da carreira e Ana, tudo suportou, até sair de casa farta! Levou os miúdos e eu perdi o significado, marimbei-me para a carreira e...Minha besta! Por sua culpa perdi o gosto pela bebida e agora vejo-me obrigado a recordar tudo! Quero atirar-lhe as culpas, mas fui eu o responsável! Como irei agora viver!
Espantado, Max, ainda balbuciou.
-Arranje um emprego...
-Emprego? Foi ele o responsável por tudo! Pois claro que arranjo, e até facilmente, mas depois vou-me recordar, vou tentar recomeçar a vida vinte anos depois de já o ter feito! Ainda agora quis pedir esmola na porta do Hotel onde tenho um ricaço fixo, mas perdi a vontade! Qualquer coisa me obriga a recomeçar, tenho essa força, mas não a quero para nada! Quero isso sim beber até esquecer mas não posso! Não posso! Você destruiu-me!
Nesse espaço de tempo a típica multidão idioticamente curiosa, que se costuma juntar à volta de qualquer coisa que dissipe, pelo menos momentaneamente a monotonia citadina, tinha feito a sua inevitável aparição. (e a forma como vejo e descrevo as massas...)
Embaraçado, Max decidiu sair de cena rapidamente, recorrendo ao estafadíssimo expediente de fuga apressada.
Quando as pessoas se aproximaram, julgou explodir: sentia um milhão de coisas dentro da cabeça, um milhão de dramas, de histórias, de imagens de gente que nunca vira, locais onde nunca estivera, mas sentia-os, como se fossem seus. Ao sair, tocou em várias dessas pessoas, reagindo estas da mesma forma que o mendigo.
Em breve tinha um enorme grupo atrás de si, perseguindo-o, vociferando, acusando-o de um sem número de coisas que ele estava longe de compreender.
Nas impossibilidade da sua obesidade, refugiou-se rapidamente num beco imundo, tapando-se com lixo.
Momentos depois “o perigo passara” (as aspas aqui dão um certo requinte estilístico que achei bem não negligenciar...).
Max estava aterrado.
O que se passaria consigo?
Toda a sua existência vivera-a para si, apenas se importando com os problemas dos seus, sendo esporadicamente generoso, nas alturas típicas porque toda a gente o fazia, e ele era igual a  toda a gente...
Mas agora...continuava o mesmo...o mesmo mas a ver-se obrigado a perceber os outros. Obrigado? Não! Impelido! E o pior de tudo era ter a percepção de as poder e querer ajudar realmente!
Horror dos horrores!
Se tivesse nascido com essa vontade e fosse mais voluntarioso, altruísta ou de coração mole, teria feito carreira na área!
Pelo contrário, achara, sempre achou, que era aos outros a quem competia essa tarefa, importando pouco a quem. Na mente primitivamente indolente e organizada, tudo parecia lógico; ora dentro dessa lógica, a sociedade estava bem arrumada, os papeis estratificados, com elementos a ocuparem-se de todas as tarefas, incluindo as altruístas...Ora ele julgava estar bem definida a sua...E talvez por isso não compreendia a razão da força dentro de si o empurrar para onde ele desconhecia o agir, embora agora se sentisse perfeitamente apto para tal!
Pôs a hipótese de estar a endoidecer, porque ouvira a história de o amigo do amigo de um conhecido seu, ter mudado repentinamente da noite para o dia. ao que parece deu-lhe qualquer coisa mística e decidiu evangelizar o bairro inteiro. Para um ateu era obra! Desesperada a mulher correu ao hospital e pediu ajuda. Depois dum diagnóstico feito sem a presença do visado (este naturalmente recusou a consulta...), o caso foi arrumado quando a personagem deu entrada num convento. Na altura as vocações estavam pela rua da amargura, pelo que a súbita reconversão calhou que nem ginjas aos padres que amavelmente o instalaram entre eles e escreveram uma belíssima carta ao bispo da paróquia anunciando-lhe a boa-nova.
   Mas o tipo em causa renunciara a quase tudo! Max, pelo contrário continuava a gostar das mesmas coisas mas...com a agravante de gostar de outras a si desconhecidas, como o exemplo de ajudar o próximo mostra...aliás, essa era a vontade mais forte, e por isso se sentia aterrado!
Precisava desesperadamente de um médico!
Verificou a morada constatando, agradavelmente, estar praticamente ao lado do prédio onde se situava gabinete. Para evitar encontros desagradáveis, semi-cerrou os olhos, puxou as abas do casaco e enfiou a cabeça o mais possível para dentro de si mesmo. Para seu grande alivio, a sala de espera estava vazia, o que poderia indiciar a má qualidade do médico...Pouco ligou a isso. Contactou a secretária, tocando-lhe involuntariamente na mão, e pediu uma marcação de urgência. Esta aceitou para, logo que Max se afastou, começar a chorar desalmadamente e a amaldiçoar em voz alta o patrão por lhe prometer desde há dez anos deixar a mulher para viver com ela, bem como as duas operações plásticas e implantes e silicone, a pedido dele, mas pagos pelo seu magro ordenado...De seguida, e após alguns minutos deste estranho monólogo, levantou-se e entrou no gabinete. Seguiram-se cinco longos minutos, em que Max ouvia a voz da mulher numa escala cada vez maior, e, quase como som de fundo subliminar, o murmúrio grave de um homem na tentativa óbvia mas também vã de acalmar a primeira.
Por fim ela saiu, e arrumou as suas coisas ar altivo, autónomo, dispondo claramente de outra atitude que não a da mulher apagada e introvertida encontrada pelo dono do café à entrada (aqui evitei repetir o nome dele outra vez por uma questão de estilo, afinal há  sempre quem repare nisto...)
-Senhor...Max? Pode entrar.
Ciente de que a discussão tivera origem no seu estado, o “paciente” hesitou; (esta forma de evitar a repetição do nome é qualquer coisa!). O aspecto dele ainda mais o       impressionou - Ainda jovem, na casa do trinta e cinco, perfil quase clássico, olhar entre o curioso e o intrometido, expressão altiva, reforçada pela parafernália de diplomas atrás de si, onde os mais diferentes graus académicos intercalavam-se com vários prémios, exibidos em artigos de jornal ostentosamente expostos.
-Mas...venha...
-Desculpe, mas duvido ter o Sr. Doutor encontrado um caso igual ao meu...
-Sente-se e explique-se.
-Preferia ficar de pé, pelo menos até lhe acabar de explicar...
-Faremos como diz...
Então, encostado à parede e de olhos ora no chão, ora no médico, Max explicou as estranhas e complexas derradeiras quarenta e oito horas da sua vida, frisando bem que tudo realmente acontecia mal ele tocava em alguém. Se não, e embora continuando confuso pela imensidão de coisas a invadir-lhe o espírito, o problema seria suportável. Sim, seria uma questão de tempo adaptar-se à nova visão e a poder conter toda a percepção ganha sobre os problemas das outras pessoas.
Dividido, o médico encostou-se bem à sua poltrona giratória, pondo as mãos em posição de prece junto do nariz. Respirou bem fundo e pediu a repetição da história para a poder gravar. De seguida decidiu intervir.
-Bem, já registamos o caso, agora vamos confirmar a história. Se fôr verdadeira, dentro de pouco tempo estarei a persegui-lo, senão, estarei a medicá-lo...Vamos, aperte-me a mão.
-Tem a certeza...?
-Mesmo que corra mal, depois de sair, estarei suficientemente lúcido para estudar a gravação e para o poder encaminhar a algum colega meu.
-Se assim o acha...

A alteração que se segui foi qualquer coisa de inimaginável e, definitivamente não estava naquele técnico a solução de Max - Completamente esbaforido, desatou a falar sobre o seu passado, presente e futuro, fazendo actos de contrição praticamente em todos os anos da sua vida. Assim, o infeliz comerciante ficou a saber que ele tinha acabado o curso após uma série de indescritíveis trafulhices, a incluir relatórios falsificados, copiados e encomendados a colegas dotados de génio e de ingenuidade profissional. Depois, conhecer as pessoas certas, **“encebá-las”, comer e dormir com elas foi o passo seguinte para o estrelato. Pelo meio casara mediaticamente com a filha trintona de alguém poderoso, tivera um par de crianças e dedicava-se à nobre arte da infidelidade que ocupava algumas colunas sociais. Personagem minimamente sedutora, prometera viver com algumas das amantes depois de deixar o “mostrengo da mulher”; compromissos pendentes a durar anos, como o demonstrava a sua ex-secretária. Neste role de coisas dignificantes também alinhavam as diversas vigarices feitas aos familiares próximos, a incluir naturalmente os pais, levados à falência pelo apetite predador deste “play-boy” de mau feitio. Ciente das trafulhices acumuladas, fizera uma pequena pausa, refazendo a vida discretamente neste consultório modesto, de onde pretendia sair, mal o último escândalo prescrevesse o impacto nos jornais.
E ele sentia-se agora profundamente arrependido, sentia-se o pior dos canalhas, queria reparar tudo, mas não via nisso a mínima vantagem para si, nem queria ver. Desesperado, berrou histericamente, arrancou as roupas, babou-se, arranhou o corpo e ficou estático a olhar para Max. Berrou-lhe ser demasiado cobarde para o tentar agredir, e por isso mesmo...Abriu a janela e saltou. Eram oito andares...
Com calma a advir do pânico, Max pegou discretamente no gravador com um lenço, tirou-lhe a cassete e saiu rapidamente. Quanto à secretária...Daria graças aos céus mal lesse a notícia no jornal, pouco se importando sobre os motivos do suicídio.
Os dias seguintes foram de quase suplício.
Decidido a resolver o seu problema, consultou toda a série de médicos de todas as especialidades, e como estes teimavam em o culpar, ora pela resolução dos seus problemas, ora pelo revelar destes, ora pela “redescoberta de uma nova pessoa em si que desconheciam e que equiparavam ao seu verdadeiro Self”, ele optou pela medicina alternativa. Em vão, as reacções eram sempre as mesmas...Desesperado, foi ao ponto de consultar técnicos dos chamados “fenómenos paranormais”, que embora inicialmente fascinados, em breve tinham a mesma reacção dos seus colegas menos heterodoxos. Por fim, Max buscou os serviços de Bruxos.
Quase deu em louco! Dessa vez acusaram-no de ser o apóstolo das trevas, filho do demónio e toda a parafernália de crendices malignas existentes, imaginárias ou imaginadas na hora.
Perante a falência das soluções, e perseguido agora pela multidão crescente daqueles a quem tocava, Max, num raro momento em que conseguiu aliar a sua parca inteligência a um raro sentido prático, bem como às suas – poucas - capacidades, teve a primeira grande e única ideia da sua vida: Não dispunha ele de um dom? Da capacidade de aliviar as pessoas dos seus problemas? Pois bem, até agora tivera apenas o azar de ter deparado com as pessoas erradas, e de forma a evitar este engano...Fundaria uma Igreja! Para ela chamaria os desabonados do mundo, cujo maior problema fosse mental, ou do foro psíquico, e que não conseguissem viver com ele!
“A sua vida está vazia? Não encontra um significado para continuar, uma razão? Venha à igreja Maximiliana da salvação!”-Pouco original, mas sem dúvida atraente, pensou animado.
Marimbando-se para o negócio, fez a indispensável hipoteca sobre a casa e o café e transformou este último em local de oração. Com a ajuda da mulher e de algumas amigas beatas desta, compôs cânticos alusivos, e adaptando orações de várias seitas, tinha por fim tudo pronto para avançar. Faltava apenas resolver o problema dos fiscais da câmara, a importuná-lo pela reconversão ilegal do estabelecimento. O resto das bebidas tidas em armazém resolveria o problema. De facto, a coisa correu bem, até Max selar o acordo com o trivial aperto de mão...Como resultado dispunha de quinze dias para regularizar a situação, quinze dias e depois iria para tribunal. Soube nessa altura poder existir alguém honesto por debaixo de anos como fiscal a receber luvas...
15 dias! Dispunha desse tempo para fazer dinheiro, involuntariamente, claro, que a nova personalidade descoberta em si impedia-o de lucrar com as desgraças dos outros; apenas se estes quisessem contribuir...
“Ajude-nos a crescer, deixe a dádiva que julgue por nós merecida”-E com este letreiro estava pronto para avançar.
A Igreja encheu moderadamente, mas encheu, e o primeiro caso até foi coroado de sucesso: jovem adolescente que procurava o sentido da vida. Em segundos, anos de crescimento foram acrescentados e o problema resolvido. Mais tarde descobriria que só a maturação cuidada das vivências resolveria essa questão, mas até lá Max já teria desaparecido.
Os casos seguintes eram dignos de figurar nos manuais de psicologia e psiquiatria, e as pessoas envolvidas potenciais clientes dos consultórios dos técnicos especialistas, mas se na Igreja Maximiliana resolviam a questão em minutos, sem pagar quase nada, sem terem de comprar medicamentos...
O sucesso da primeira semana foi tal que Max podia desde já desfazer a hipoteca e guardar ainda bastante dinheiro.
Fechou no fim-de-semana e procurou descansar enquanto pensava no uso a dar ao pecúlio e à fortuna que se adivinhava. Estava decidido, abriria mais Igrejas, muitas mais, e depois, com o que sobrasse garantiria o futuro da família! Foram dois dias de sonho, como ele não se lembrava de ter tido!
Mas na 2ªFeira o inferno abateu-se sobre Max.
Ao invés de novos crentes, os da semana anterior ocupavam totalmente o estabelecimento e reclamavam. Sim, estavam diferentes, sim, tinham mudado, mas não conseguiam viver com isso! Embora Max se desdobrasse na resolução deste novo problema, quando lhes voltava a tocar, eles regressavam ao estado anterior e assim sucessivamente!
À revolta sobreveio a fúria e a destruição do antigo café, seguida de natural intervenção policial.
Presa toda a gente, o centro das atenções foi naturalmente o “sacerdote”, elevado à categoria de crápula.
Um mês de cadeia depois, foi apresentado ao juiz. Sabendo perfeitamente da alhada em que estava metido, Max tentou recorrer ao seu dom para convencer o magistrado da honestidade da sua posição. Pelo meio três advogados tinham desistido de o representar, de tal forma que só conseguiu ser defendido por um estagiário que tinha nele o primeiro cliente... (piada à advocacia para abrir as portas ao mercado americano...)
Olhando aquele que iria decidir o seu destino, Max pediu-lhe para lhe poder tocar. Condescendendo, o juiz, que tinha um fraco por tolinhos, aceitou. Como resultado foi ordenado o seu internamento numa instituição psiquiátrica tão cedo quanto possível. Depois, outras pessoas mais bem colocadas olharam pela primeira vez da forma como ele queria. Essas pessoas eram dos serviços secretos e consideraram-no demasiado perigoso para ficar à solta.
Inventou-se uma doença perigosa que o tornava indigente e fechou-se o desgraçado num sítio qualquer em que o contacto físico lhe era totalmente recusado.

Max pensava dispor de um dom, de um dom que revelava às pessoas a sua verdadeira personalidade, com a qual deveria coordenar e orientar toda a sua conduta.
Foi ele a convencer-me de que tinha jeito para a escrita o que, como se pode constatar pela sua história, é um rematado disparate, a juntar à enorme lista resultante da perigosa actuação deste homem.

*designação dada ao Café em algumas zonas de Portugal
** Tentar subornar/comprar uma pessoa

Conto escrito em 1998 e ligeiramente alterado em Abril de 2004

Conto protegido pelos Direitos do Autor
Miguel Patrício Gomes
Enviado por Miguel Patrício Gomes em 20/03/2006
Código do texto: T125710

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