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Até que a morte os separe

Cena I

Após o jantar, naquele restaurante francês...

A filha, cabisbaixa e suspirante:

- Mamãe, eu preciso lhe falar!

A mãe, com voz solícita e infantil:

- U ti foi filha?

A filha, com voz entediada:

- É sobre o Saulo... O nosso casamento não vai bem e... vamos nos separar.

A mãe. Com voz chorosa:

- Mas o que foi que aconteceu, querida?

A filha, com certa indiferença:

- Incompatibilidade generalizada: Eu gosto de caviar, ele gosta de trufas... Eu gosto de champanhe  francesa, ele gosta de whisky escocês... Eu gosto de Paris, ele de Nova York...
 
A mãe, ainda com voz chorosa:

- Oh querida! Eu lhe avisei tanto! Desde o início achei que você estava se precipitando! Preferia que você tivesse se casado com o Plínio - um diretor bem sucedido de uma empresa multinacional sólida! Mas você preferiu um diplomata!...

A filha, com ar de impaciência:

- Mamãe, não vamos discutir isto agora, tá bom?

A mãe, com ar grave:

- Olha, você faz o seguinte: Hoje mesmo vou procurar o Dr. Danilo. Ele é excelente advogado e cuidará de todos os detalhes para resolver esta situação desconfortável.
Você vai pra Europa. Passa uns tempos lá, e quando a papelada estiver pronta por aqui a gente te avisa e aí você volta.
Hoje, você fica aqui em casa... Ou, se preferir, pode ficar em um dos apartamentos nossos... Ou nossa casa de campo... Ou a de praia... Enfim, como e onde você quiser. O Dr. Danilo vai conseguir acertar uma boa pensão e a partilha dos bens.
...
Não se esqueça de trazer aqueles 2 quadros do <i>Rembrant</i> que eu te dei. Eles me foram dados por seu pai, na primeira vez em que visitamos a França.
São a única lembrança que tenho do meu segundo casamento!

E após alguns segundos de silêncio, com ar de desprezo:

- E ainda dizem que casamento é pra toda a vida... "Até que a morte os separe"...

A filha, com desdém:

- Poisé mamãe: o casamento morreu !!!

A mãe, batendo palminhas e sorrindo:

- Daremos uma festa pra comemorar sua volta ao lar!

 
Cena II

Depois da macarronada naquele almoço de domingo...

A filha, com o olhar perdido no esqueleto que restou do frango, na travessa sobre a mesa:

- Mãe, o bicho tá pegando!

A mãe, com a testa franzida:

- O que foi, criatura?

A filha, com lágrima nos olhos:

- O meu casamento com o Epifânio... Esvaiu-se!

A mãe, com visível surpresa:

- Como assim "esvaiu-se"?

A filha, já em prantos:

- É mãe, esvaiu-se, acabou-se, escafedeu-se!

A mãe, com desgosto:

- Mas o que foi que aconteceu afinal?

A filha, tentando se controlar e enxugando o rosto:

- Trabalha, trabalha e nunca tem dinheiro pra nada... Exceto pra tomar cerveja com os amigos. Bebe muito.. Fuma muito... Ronca... Lá em casa, falta tudo... É sempre tudo medido e apertado. E agora, perdeu o emprego! Não agüento mais! Vou me separar!

A mãe, com ar de superioridade:

- Ah! Mas eu cansei de dizer: Não vai se casar com este aí que eu sei que é pilantra. Um cafajeste... Um vagabundo interesseiro que esteve, desde o início, de olho no barracão que estávamos construindo lá nos fundos...

E sussurrando entre suspiros:

- E que não terminamos até hoje!

A filha, com voz chorosa:

- Mãe, por favor...

A mãe, ainda com a testa franzida e voz chorosa:

- O que vai ser da sua vida, minha filha?

A filha, assoando o nariz:

- Eu pensei em voltar pra casa e...

A mãe, com olhos arregalados:

- O que?! Onde já se viu? Aqui em casa não tem lugar pra mais nada! Onde vamos enfiar o velotrol do menino? E a sua máquina de costura, a bicicleta, a enceradeira, os seus móveis?

A filha, voltando a chorar:

- Deixo tudo pra traz...

A mãe, com certa impaciência:

- E como vou explicar essa vergonha para os parentes?... E os vizinhos?...  Casamento é pra toda vida! "Até que a morte os separe", lembra-se? "Até que a morte os separe" é "até que a morte os separe" mesmo !!!

A filha levanta-se enxugando os olhos, assoando o nariz e se recompondo. Caminha rápida e resolutamente para a porta.

A mãe, com um sobressalto:

- Onde é que você vai?

A filha, decidida:

- Vou matar o Epifânio!
Tony
Enviado por Tony em 25/04/2005
Código do texto: T12906
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Sobre o autor
Tony
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 65 anos
22 textos (5068 leituras)
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Tony