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Propício

Quando a gente recebeu o convite, ficou, como é costume dizer-se, com um pé atrás.
O Alfredo, a quem secretamente a gente chamava "Propício", era um sujeito financeiramente muito "controlado".
Era muito comum ele entrar no boteco onde tomávamos nossa cervejinha após o expediente recusando bebida. Mas ficava ali por alguns minutos e de repente se dirigia ao dono do bar:
- Ô fulano, dá um copo aí que vou tomar só um copinho aqui com a turma.
Geralmente, este "um" copinho virava dois ou três, ao fim dos quais, invariavelmente dizia:
- Bom, deixa-me ir andando que hoje o dia não ta "propício" pra beber não.
E ia embora. Naturalmente, sem pagar nada.
Agora estava chamando a gente pra tomar uma cervejinha e comer uma carne assada na sua casa.
Todo mundo meio desconfiado, mas a gente pegou o endereço direitinho e na sexta-feira, após o trabalho, todo mundo foi pra lá.
Chegamos já pelas sete da noite, porque tivemos algumas dificuldades pra achar o endereço, o lugar era um pouco distante, as ruas mal identificadas e... mas não vamos nos ater a estes pormenores.
Havia um certo movimento na parte externa da casa, uns três ou quatro pequenos agrupamentos de pessoas, meio dispersos, pessoas que olhavam desconfiadas para nós e para os lados, sussurrando daquele jeito muito comum em velórios.
Olhamos interrogativamente para a casa e nossos instintos nos levaram diretamente para a porta entreaberta da garagem, onde nos esperava um sujeito enorme, com ombros muito largos e cara de poucos amigos.
Quando o cumprimentamos, ele não respondeu e ficou olhando pra gente atentamente, como um tigre olha pra sua presa esperando o momento certo pra dar o bote fatal.
A gente já tava meio que desistindo daquele programa quando o Alfredo veio lá do fundo do "não sei aonde", com aquele sorriso largo, característico dos que têm boa vida pra viver.
- E aí, pessoal? Vocês demoraram! Pensei que não vinham mais! - e apontando pro tigre:
- Esse aqui é o Djalmão. É um amigo nosso e ta dando uma força aí pra coisa não virar bagunça! Vamos entrando, vamos entrando.
Já mais aliviados e tranqüilos, entramos pelo portão e demos com meia dúzia de pessoas a quem fomos cumprimentando timidamente.
O Alfredo nos trouxe uma espécie de  "Livro de Visitas" e pediu que assinássemos, o que prontamente fizemos.
Havia um sujeito remexendo uns espetos na churrasqueira e um freezer ali ao lado, onde uma menina -  com cara de desenho animado - estava recostada.
Vi que ela se aproximou do Propício e cochichou alguma coisa nos seus ouvidos, mas dei pouca ou nenhuma importância ao fato. Logo depois, aquela menina começou a nos servir cerveja.
Estávamos todos morrendo de sede, e bebemos sofregamente aquele abençoado líquido.
Mais tarde, quando já tínhamos comido alguns nacos de carne e bebido bastante cerveja, o Alfredo nos surpreendeu com o aparecimento de um violão que passou a dedilhar enquanto todos cantávamos algumas melodias mais simples e conhecidas.
Já passava de 9 da noite e a gente começou a achar que já era hora de ir embora. Alguns de nós já estávamos misturando as frases e se engasgando com as letras na hora de falar.
Foi aí que veio a grande surpresa da noite. O Propício, com um jeito meio sem graça, aproximou-se da gente vagarosamente e pôs-se a falar:
- Olha gente... O problema é o seguinte: As coisas custaram um pouco mais caras do que eu previa... Eu não esperava que o custo dessa brincadeira fosse tão alto... De forma que...
A gente já tava trocando olhares sorrateiros e esperando pelo desfecho:
- De forma que eu vou precisar de uma ajudinha de vocês.
Alguns coçaram a cabeça, outros olharam para o teto, mas no geral, todos estavam sentindo como se tivessem levado um coice.
- E... de quanto é essa ajudinha, Alfredo? - perguntou alguém, finalmente.
- Bem... - disse ele, metendo a mão no bolso e retirando uma longa folha de papel -
- A cerveja é R$ 4,50 cada ...
Todo mundo manteve a boca fechada, mas os olhos se arregalaram.
Ele continuou:
- O refrigerante, R$ 3,50 ... O churrasqueiro R$ 150,00 ... O porteiro R$ 100,00 ... Tem o aluguel do freezer... O gelo...
Agora, além dos olhos arregalados, todos estavam também de boca aberta.
O Alfredo prosseguiu:
- O carvão custou R$ 12,50 ...
Aí, o Eustáquio, um dos nossos, perdeu as estribeiras:
- Peraí Alfredo! Carvão a R$ 12,50 ?! Com este preço era melhor queimar a carne e comer o carvão!!!
O Alfredo não se abalou. Com seu jeito calmo e tranqüilo, coçou a cabeça e mandou:
- R$ 99,50... R$ 100,00 pra cada um...
Teve gente que quis protestar, mas os mais controlados não deixaram.
Pagamos e fomos embora.
Passamos todo o fim de semana ruminando aquela picaretagem do Propício e nem vimos o Sábado e o Domingo terminarem.
Na segunda-feira, após o expediente, como de praxe, estávamos no tradicional boteco tomando a cerveja nossa de cada dia e passamos a comentar o acontecido.
O Eustáquio, o mais revoltado de todos, dizia que tivera vontade e deveria ter se retirado por volta das 8 da noite. Assim, a despesa teria sido menor.
Como tudo em boteco acaba em piada, alguém sugeriu que possivelmente teria sido pior:
Bem provável que o livro que a gente assinara fosse um contrato com cláusula prevendo a permanência no local até,no mínimo,  9 horas, sujeitando-nos a uma multa gorda em caso de descumprimento.
Outro comemorou o fato de termos ido embora antes das 10 horas, porque provavelmente a partir deste horário já seria bandeira 2, e aí é que os preços iam disparar mesmo.
Alguém lembrou-se do violão e observou que a nossa sorte fora ele ter se esquecido de nos cobrar o couvert artístico.
E outro já ia exercitar sua criatividade e seu bom humor... mas não pode:
O Alfredo estava entrando no bar com aquele belo sorriso, e já ia se explicando lá de longe:
- Só passei pra dar um alô. Nem precisa me convidar que hoje o dia não ta "propício" pra beber não.
Pensamos que o Eustáquio fosse morrer.
Tony
Enviado por Tony em 25/04/2005
Código do texto: T12912
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Sobre o autor
Tony
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 65 anos
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