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O SOFREDOR

O SOFREDOR
(Autor: Antonio Brás Constante)

Ser goleiro não é fácil. É uma posição que exige um certo talento, ou ao menos alguma técnica. Enquanto todos os demais jogadores torcem para que a bola venha para o seu lado. O goleiro reza para que ela permaneça sempre o mais distante possível dele.
Nas partidas ele sempre fica atrás. Sozinho. Esperando que o pior aconteça. E o pior vem de forma redonda e rápida. A bola é a arquiinimiga do goleiro. Parece uma serpente, pronta para dar o bote através dos pés adversários, acertando, ou melhor, desviando do pobre goleiro para se acomodar junto à rede.
Pior ainda é a situação dos goleiros de fim de semana (como no meu caso). Onde a destreza com a “redonda” é quase nula. Ficamos lá no fundo da quadra. Vítimas de goleadores habilidosos. Sendo apelidados de peneiras, ou ouvindo chamarem nossas goleiras de aviários (já que elas vivem recebendo frangos).
Muitos de vocês sabem como é este sentimento. Pois também se arriscam no gol. Quando defendem, os outros insinuam que foi pura sorte. Mas quando ela passa, as expressões de reprovação na face de seus colegas são as piores possíveis.
Imagine-se em sua partida semanal. Os últimos três jogos perdidos. A culpa pelas derrotas, colocada sobre seus ombros. Não com palavras, mas com olhares. Aqueles olhares fulminantes. Esmagando-o como se fosse uma barata asquerosa.
“Mas aquele jogo será diferente”, você pensa. Irá provar que tem seu valor. O jogo vai seguindo. Algumas boas defesas. Várias desastrosas falhas. Porém seu time continua na frente por um gol.
         Então acontece. Faltam poucos minutos para o jogo acabar. O goleiro adversário – aquele que defende melhor que você, e por isso mesmo você o odeia com todas as suas forças – recebe uma bola, chutando-a em sua direção. Um chute forte, que executa um arco perfeito, passando pela cabeça de todos (inclusive a sua), entrando com graça dentro de sua goleira.
         O gol do empate. Todos do seu time querendo matá-lo, como se a culpa fosse sua. Você grita com eles. Agora é tudo ou nada. O jogo está para acabar. Um dos zagueiros lhe recua a bola (mais por falta de opção do que por vontade). Os jogadores do seu time prendem a respiração. Você só tem uma fração de segundo para se livrar daquele perigoso globo.
         Resolve se vingar. Reúne todas as suas forças e chuta aquela esfera com ódio e determinação. Vai devolver na goleira adversária o gol que acabou de levar. Ao chutar se desequilibra caindo de joelhos. Os braços abertos tal qual um mártir que pretende se redimir de seus pecados.
         A bola sobe. Mas não sobe o suficiente. Bate nas costas do zagueiro e volta. Miseravelmente volta de onde partiu. Você impotente vendo a trajetória da maldita, que poderia ter ido para qualquer lugar dentro da enorme quadra, mas preferiu adentrar com uma maldade cruel em seu próprio gol.
        A campainha toca. Final de jogo. Seu time sai de cabeça baixa. Nem sequer lhe olham. Mas no fundo você está tranqüilo. Sabe que na próxima semana voltará a atacar no gol. Como foi dito no inicio do texto, alguns jogadores têm talento, outros têm técnica, e você...Bem...Se você for como eu, possuíra aquilo que se considera essencial em qualquer partida: você terá a bola.

(SITE: www.abrasc.pop.com.br)

NOTA DO AUTOR: Divulgando este texto para seus amigos. (Caso não tenha gostado do texto, divulgue-o então para seus inimigos).

Antonio Brás Constante
Enviado por Antonio Brás Constante em 29/03/2006
Reeditado em 18/05/2006
Código do texto: T130720
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Sobre o autor
Antonio Brás Constante
Canoas - Rio Grande do Sul - Brasil, 100 anos
399 textos (85258 leituras)
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Antonio Brás Constante