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Tem dia que de noite é assim mesmo...

O dia terminara como outro qualquer. Ninguém no trabalho se lembrou - nem eu! Após o expediente estou no ponto de ônibus de sempre - no Socorro, em Mogi das Cruzes, na praça da Igreja do Socorro. Tanto tempo ali parado e nada do coletivo aparecer. Portanto, quando finalmente o vi, senti um alívio natural (ufa! até que enfim!) e uma antinatural fisgada na barriga - aviso de que precisava fazer algo que ninguém poderia fazer por mim.

Que foi isso? - pensei. Vontade de ir à casa de força!!! Logo agora que o ônibus apontou na curva, depois de tanto tempo esperando?! Eu até poderia ir na padaria, mas a idéia de usar aquele banheiro para o serviço especial não me agrada nem um pouco, além do tempo de espera depois até o próximo... Não!, eu aguento! Uma hora a mais, uma hora a menos para descer o barro, não fará diferença... Ah! se eu soubesse...

No começo foi tranqüilo e parecia que a vontade passaria, mas depois foi apertando, apertando... Caramba! Nunca tivera essa experiência... que coisa mais desagradável! E assim prosseguiu a viagem: às vezes apertando, depois acalmando e em seguida apertando novamente. Em alguns momentos pensei em descer na estrada e atender ao chamado da natureza em qualquer lugar e da forma como desse. Mas já era noite e tudo conspirava a favor do sofrimento cada vez mais insuportável.

Vinte quilometros depois ao se aproximar de Biritiba Mirim - a meio caminho da viagem, resolvi que desceria nela e iria direto para a casa da minha irmã. Mas assim que entrou na cidade me lembrei que ela havia se mudado para Mogi e só vinha ali nos finais de semana. Naquele dia, portanto, ela não estaria lá. Mas eu poderia ir num comércio qualquer e resolver a parada. Sim, era isso que eu faria. De repente, no entanto, a coisa foi se acalmando e o intestino parou de torcer pelo pior.

Passamos pelas ruas da cidade, saímos dela e eu continuei ali – firme! Assim continuou até a divisa dos municípios. De repente começou a torcer de novo... Meu Deus! – pensei – isso não vai acabar bem... Várias vezes pensei novamente naquela possibilidade de descer em qualquer parte da estrada. Por que não desci em Biritiba? – eu me recriminava.

Já estava próximo do Distrito dos Remédios. Terei que descer lá – pensei novamente. Mas a cena se repetiu. Igualzinho, parecia até que fora ensaiado! Não desci e me arrependi novamente. Está ficando muito repetitivo, mas é assim mesmo que aconteceu, então, não dá para descrever de outra forma a experiência de sofrimento pela qual passei.

Chegando em Salesópolis eu já estava na porta de saída, preparado para saltar no primeiro ponto após o portal da cidade e correr para a padaria Nascente do Tietê. Estava tão pálido e me contorcendo de uma tal maneira que as pessoas olhavam para mim e nem perguntavam. Eu também não respondia, apenas olhava com a boca fechada e contorções faciais que até hoje não sei explicar direito, nem consigo esquecer. Meu problema era terminal e a sensação de um extremo estava impressa no outro - dispensava comentário!

Mas, engraçado! Foi só aproximar-se do ponto que tudo se assentou. Posso agüentar até chegar à minha casa – pensei! Não me pergunte como, mas eu realmente consegui - embora tenha pago ainda muitos pecados neste percurso. Chegando no meu ponto, desci com cuidado para não explodir. Assim que senti meus pés na calçada olhei para a minha casa a uns cinqüenta metros e para a margem do rio Paraitinga a uns cinco. Nunca essa pequena diferença se fez tão significativa como naquele momento. Minha vontade era fazer ali mesmo... Mas, pensei, já cheguei até aqui e não vou me desesperar agora. Além do mais – avaliei – já pensou se alguém me vê fazendo isso na beira de um rio a poucos metros da minha casa? vai pensar o quê? No mínimo que sou um maluco, depravado, ou sei lá o quê... Resolvi ser sensato e atravessei a avenida com passos tão miúdos e as partes tão apertadas que uma agulha não se soltaria dali.

Cheguei - graças a Deus! - à porta da minha casa. Está por pouco... mentalizei satisfeito. Girei a maçaneta... e nada! Procurei as chaves... e nada! Meu Deus! Que dia! (ou seria noite?). Aquela porta nunca estava fechada a chave naquele horário e eu dificilmente andava sem a minha – embora quase nunca a usasse... Mas naquele momento eu xingava a mim por não estar com a minha chave e ao filho da mãe que trancou a porta. Pra que isso? – pensava eu... E gritava para que alguém abrisse. Percebia movimentos dentro da casa e me desesperava porque ninguém me atendia.

- Abram rápido essa porta! Pelo amor de Deus! Anda logo!
Mas ninguém abria, nem respondia... E eu lá, me contorcendo, me desesperando cada vez mais, irritado comigo mesmo e com quem estava lá dentro fazendo de conta que não tinha ninguém ali fora – nem lá.

Uma eternidade se passou até que minha mulher veio abrir a porta reclamando: - Que é isso? Parece até que tem alguém morrendo?

- Por enquanto ainda não morreu ninguém, mas se demorasse mais um pouco ia começar a feder!...

Tão logo a porta se abriu passei como um tufão por ela e fui direto para o banheiro. Não vi nada, nem ninguém. Também, com a escuridão que estava... Quando sentei no trono o tempo caiu... Foi uma loucura, uma sensação indescritível e sons os mais variados... O tempo passou e eu lá, curtindo aquela sensação gostosa, aqueles sons que eram música aos meus ouvidos...

E o tempo realmente passou, e eu lá, sem pressa nenhuma de sair daquele lugar nunca antes tão sagrado, tão desejado, tão festejado... Descarga após descarga e eu ali, disponível e relaxado - na expectativa de algo mais, me aliviando por completo e sentindo prazer naquilo. Refletia sobre a minha passagem pelo purgatório e me sentia contente por estar finalmente no paraíso!

- Não vai mais sair daí? – perguntava minha mulher.
- Pra que pressa?

E eu realmente me acomodei. Minha vontade agora era morar ali, ficar até onde desse por ali, me aproveitar ao máximo daquele recinto nunca antes tão íntimo, tão necessário, tão gostoso...

De repente começaram os risos. Alguns conhecidos, outros nem tanto...
O que está acontecendo aí fora? – foi minha vez de perguntar.
Ninguém respondeu, mas os risos continuaram.
Resolvi então sair. Quando entrei na cozinha, as luzes se acenderam.
- Parabéns pra você!...

Mulher, filhos, irmãos, sobrinhos. Surpresa pelos meus cinqüenta anos. Que bela (e única, e atípica, e inesquecível...) surpresa!

Jamais esquecerei. Nem os convidados, provavelmente... (quase morri de vergonha naquela hora, mas agora que desabafei me sinto duplamente aliviado...). Aprendi minha lição e desde então não desprezo mais os avisos - perco até avião se for preciso! Mas, por via das dúvidas, já avisei em casa que não quero que isso se repita no meu centenário!
Lourenço Oliveira
Enviado por Lourenço Oliveira em 06/05/2006
Reeditado em 11/01/2007
Código do texto: T151108
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Lourenço Oliveira
Salesópolis - São Paulo - Brasil
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Lourenço Oliveira