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Casamento no interior

CASAMENTO NO INTERIOR


 Era começo de dezembro, e o casamento de Rosa e Sílvio aconteceria por esses dias. Como toda festa desse tipo, requer muita preparação, muita gente ajudando. No interior é assim.
  Minha mãe, D.Ada, assumiu a confecção dos bolos, uns quarenta, pelo menos, mais quinze formas de pão-de-ló, para o bolo dos noivos. Uma mesa inteira só para esse bolo.
  Sessenta quilos de batata para salada. Dois bois, cinco leitões, trinta galinhas. Era tanta comida, era tanta gente, que eu ficava tonta com tanta correria. No, entanto, eu havia prometido para a tia de meu esposo, que ajudaria, e além do mais, éramos padrinhos da noiva, uma pessoa que prezo muito. Seria servido um tremendo almoço, antes do casamento, que estava marcado para às quinze horas. Minha mãe, vendo um rapaz chamado Teodoro, muito acanhado e sem coragem de se servir, falou com a tia, mãe da noiva e esta disse-lhe que aquele moço era um pobre coitado que perambulava por alí, que vinha sempre cortar lenhas, varrer os pátios e que era de confiança, só não podia beber nada alcoólico que dizia muita besteira. Assim, minha mãe, ingenuamente, serviu-lhe uma "bandeja" de comida e entregou-lhe. O rapaz comeu forazmente,e repetiu duas vezes mais. Coitado, estav faminto, pensou minha mãe...
  A igreja, quase uma capela, não pôde acomodar tantos convidados. Que festa aquela. vinha gente de todo lugar. Após o casamento, que correu muito lindo, emocionante, seriam servidos os bolos, e os noivos cortariam o grande bolo, todo enfeitado com flores de açúcares coloridos e um enorme arranjo com um casal de noivos dançando.
  Todos estavam felizes, animados. Minha mãe notou o pobre Teodoro, sentado numa pedra no pátio. Preparou-lhe outra "bandeja" de bolos, com refrigerante, e levou até ele. Agradecido e encabulado, Teodoro, virou-se para o canto e começou a comer. A festa continuava animadíssima. Uns já improvisavam lâmpadas para o baile que certamente viria ao escurecer. Alguns aqueciam as carnes, pegavam saladas e recheavam pães e comiam de um jeito que nunca havia visto. Eu, grávida de pouco mais de dois meses, me enjoava com tudo, e talvez por isso ficasse assistindo, assim meio, "apavorada" aquela comilância. De repente, ouviram-se gritos atrozes, berros, um choro sem igual. Todos correram para ver o que acontecia, afinal. No canto, perto das garagens, estava Teodoro, com a enorme "bandeja" de bolos, segurando na frente do rosto todo lambuzado de poeira, glacê e lágrimas. Estava uma assombração aquela criatura. O pai da noiva, preocupadíssimo, acudiu-lhe: - Mas o que foi que houve Teodoro? Por que essa gritaria toda, rapaz? E todos perguntavam, ansiosos por uma resposta.
Teodoro, em meio ao pranto gritado, dizia com o enorme prato de bolo na mão: - Eu num güento mais comê...
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 12/06/2006
Reeditado em 09/08/2006
Código do texto: T174040
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
310 textos (10916 leituras)
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NENINHA ROCHA