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Daqui ninguém sai (Brasil X Itália - 17/07/1994)

DAQUI NINGUÉM SAI (BRASIL X ITÁLIA - 17/07/1994)


  Sempre quando entramos nesse clima de Copa do Mundo de Futebol, me vem à lembrança, uma situação, que eu diria "constrangedora", ou então no mínimo, bem diversa do clima que era sentido.
   Nossa filha caçula completava 9 anos no dia 16 de julho de 1994. Por ser véspera de decisão Brasil X Itália, na Copa dos Estados Unidos, resolvemos fazer a festa de aniversário no sábado, para que nada nos atrapalhasse no domingo dia 17 de julho de 1994. Queríamos estar tranqüilos e bem "concentrados" para o jogo às 16:00 horas, daquele dia cheio de sol, apesar do inverno.
   Todos os primos, tios, padrinhos, avós, amigos, coleguinhas de escola, vieram para comemorarmos o nono aniversário de Angelica.
   Lá pelas tantas, alguém levantou um dilema: ONDE SE REUNIR PARA ASSISTIR O JOGO NO DOMINGO?? Fiquei quieta, meu esposo também. Nosso plano era bem outro: ficarmos em casa, nós e nossos três filhos, assistirmos o jogo e depois sair para comer pizza. RESULTADO: NOSSA CASA SERIA O LOCAL PARA A REUNIÃO!!! Que fazer? Cunhados, são cunhados, e depois estavam tão animados, que não deveria estragar isso por nada. Justificaram que sobraria muita comida da festa, bebidas, e assim o ALMOÇO, ficaria melhor, e mais prático, por aqui mesmo! Uns sobrinhos nem foram embora, dormiram na sala.
  Pela manhã, perto de 08:00 hs, eis que meu cunhado chega buzinando sua caminhonete, acordando todos. Era uma festa sem dúvidas! Assim que tomaram o café da manhã, sairam para comprar cornetas, bumbos, apitos, foguetes, bandeirinhas, chapéus, camisetas, etc...
  Meu irmão chegou às 10:00 hs e foi fazer fogo na churrasqueira, encheu o freezer de cerveja. A animação prometia muito.
  Minhas irmãs faziam saladas, ora limpavam o salão de festas, enfim todos ajudavam.
  Ouvi várias vezes o telefone tocando, mas nem perguntei nada. Cada pessoa que queria atender, atendia e eu não me preocupei com isso.
  Saíram novamente pelas ruas fazendo muito barulho. Nenhum recado me foi passado. Creio que a animação não permitiu que isso fosse feito.
  Almoçamos muito alegremente. Havia 52 pessoas no total, em nossa casa naquele dia.
  Cada um ajudou a arrumar as coisas no lugar e organizar a cozinha, a sala ... Ahhhhhhh! A SALA! Haviam transformado nossa sala em um cinema improvisado com telão e caixas acústicas em cada canto. Dispuseram os sofás contornando o ambiente. Almofadas pelo chão. Tapetes enrolados. Quando vi, contei até 100, e respirei fundo. Eu não sabia como agir naquela situação, me senti impotente dentro de minha casa. Mas tudo bem! Era decisão de Brasil X Itália, pela Copa do Mundo... Vale a pena!!!!!!
  Minha mãe foi para uma reunião na igreja. Nós nos posicionamos naquele "cinema" como pudemos. Cada um arranjou-se e todos poderiam assistir o jogo na "tranqüilidade", como dizia meu cunhado. Reservaram um "lugar especial" para os donos da casa, ainda bem, pelo menos isso, pra aliviar a tensão do corre-corre.
  O relógio marcava 15:55 hs quando o telefone tocou e minha sobrinha atendeu. Era Beatriz, uma amiga de faculdade, com a qual tenho grande amizade desde então. - Você não vem para o enterro da vovó?? Quase caí dura, não sabia nem o que dizer, e agora??? Ninguém me avisara de nada. Lamentei o ocorrido, perguntei como foi, onde estava sendo velada e que horas seria sepultada. - Agora às 16:00 hs... Pensei comigo: - Essa não, quatro horas? Bem na hora do jogo? Beatriz coninuou falando: - E, sabia que agorinha mesmo chegou aqui o corpo de um tio seu? Nooooossssaaaaa! Agora o chão sumiu de vez! - Que tio Bia? Não estou sabendo, quem foi??? - O meio-irmão de sua mãe, se chama Alfredo... O susto foi tão grande que eu derrubei o telefone da mão, minha irmã veio e continuou falando com Bia que repetiu toda a história. E, agora??? O que é que eu vou fazer?? Jogo, enterro, velório?? Tinha que decidir, e queria ver o jogo. Chamei meu marido, contei-lhe o ocorrido. Ele decidiu que íamos até o cemitério, para o enterro da avó de Bia, e para o velório de Tio Alfredo.
  E, como iria falar para minha mãe? Ela adorava aquele irmão. TERIA QUE IR BUSCÁ-LA? Alguém disse que não fizesse isso. Deixasse a mãe rezar bem, depois contaríamos. Caso contrário, ela iria querer que todos fôssemos para o velório e adeus jogo do Brasil X Itália. Que angústia nesse momento. Eu chorei. Minha irmã chorou, e todos de repente ficamos muito abalados. Porém, ninguém abria mão de assistir o jogo. Isso não, diziam em coro.
  A espera pela chegada de minha mãe foi uma eternidade.
  Foguetes explodiam no céu, e nós querendo que terminasse logo o enterro para irmos correndo ver o jogo. Foi até engraçado, quando a irmã mais nova de Beatriz, disse que queria ir embora para ver o jogo...
  Calma, muita calma. Eu repetia isso para mim mesma, a todo instante. Não me continha. Passamos pelo portão central e fomos para casa. Depois do jogo, e com minha mãe voltaríamos para o velório de Tio Alfredo.
  Chegamos em casa! Uma festa. Gritos festivos de BRASIL, CAMPEÃO! Faltava pouco para acabar o primeiro tempo e tudo indicava um belo empate. Meu coração disparava. Achei que ia explodir de ansiedade,quando fomos para os pênaltis.
  Minha mãe chegou! Meu cunhado correu e falou para todos na sala: - Olha aqui, ninguém conta nada pra Nona, hein? Vamos ficar aqui, "bem comportados"...assistimos o jogo tranqüilamente,DAQUI NINGUÉM SAI, e depois...Bommmm, depois... quem quiser que caia na choradeira...
 
NENINHA ROCHA
Enviado por NENINHA ROCHA em 13/06/2006
Reeditado em 09/08/2006
Código do texto: T174908
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Sobre a autora
NENINHA ROCHA
Guarapuava - Paraná - Brasil, 56 anos
310 textos (10916 leituras)
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NENINHA ROCHA