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O papagaio sacana

Seu Duílio estava prestes a enlouquecer.
Não sabia mais o que fazer diante daquela situação.
Perdia o sono durante a noite, puxando os cabelos seus, e, às vezes, por engano, os de sua mulher, que acordava assustada e gritando, sem saber o que estava acontecendo.
Ele havia fugido novamente, e desta vez, há três dias.
Não adiantava cortar-lhe as asas. Quando menos se esperava, o Verdinho dava um jeito de fugir, mas fugia por simples sacanagem, pois adorava seu Duílio, dona Vanda e seu poleiro.
Ia embora para perto, pelo simples prazer de causar preocupação, ser procurado, encontrado e trazido para casa, empoleirado no ombro do dono.
Carente, nem pensar em dizer que fosse, pois era tratado como o bebê da casa. Nem as filhas de seu Duílio recebiam a atenção e o carinho recebidos pelo Verdinho.
Ele gostava mesmo de chamar a atenção de todos, pois cada fuga sua fazia movimentarem os habitantes de todo o quarteirão. Mas, o espertalhão viajava pelos muros.
Quando o procuravam numa casa onde realmente estava, pulava para o quintal vizinho e daí em diante, indo parar sempre no quintal imediatamente vizinho ao de seu Duílio e dona Vanda.
Ao levantar-se da cama, com o corpo todo moído pela péssima noite de sono que tivera, revirando-se, e acabando por acordar com a cabeça nos pés da cama, seu Duílio meteu um dos pés dentro do urinol, ensopando a meia e derramando o líquido pelo assoalho.
Xingou toda a geração do inocente objeto aparador de urina, a geração do papagaio, incluindo seus avós e bisavós.
Dona Vanda conhecia o marido. Era melhor escutar, escutar, sem nada dizer.
Sentou-se na cama, arrancou enfezado a meia molhada, jogando-a no chão, e saiu do quarto batendo a porta. E nem vestiu roupa. Saiu vestindo a ciroula com que dormira.
- Hoje aquele canalha me paga. Hoje ele vai conhecer o seu Duílio. Hoje ele vai ver uma coisa. Hoje eu torço o pescoço dele. Hoje eu arranco as penas dele. Hoje ele vai para a panela. Hoje... Hoje...
Sua mulher levantara-se silenciosa logo a seguir, correndo para a cozinha. Um café fresco sempre melhorava as coisas.
“O Duílio devia tomar um calmante, - pensava ela -, assim ele vai acabar tendo um troço no coração do miocárdio ou uma úlcera nos nervos”.
- Que que cê tá pensando, Vanda, com essa sua cara caída?
- Eu nada, Duílio. Imagine!!!
- Vou atrás daquele maldito, daqui a pouco. É só esperar o tempo pros vizinho acordar.
- Tá bom, Duílio.
- E vê se não vai chorar, viu? Vou trazer aquele desgraçado com o pescoço torcido.
- Que horror, Duílio!!!
- Horror o quê, Vanda?
- Nada, Duílio. Eu não disse nada. Imagine!!!
- Ah, bom. Me dá logo o café, vai.
Tudo foi feito de maneira nervosa e desastrada.
Dona Vanda saiu disfarçando para o quintal. Tinha um fundinho de esperança de que o bichinho houvesse voltado.
Poleiro vazio, contando a história de um papagaio sacana.
Seu Duílio saiu e percorrendo a vizinhança, ia dizendo:
- Me desculpe, mas o meu papagaio não está por aqui?
- Não vi, não. Mas se o senhor quiser entrar para olhar, fique à vontade.
Nada de papagaio.
- Acho que seu papagaio bateu asas e voou.
- Acho que o gato comeu.
- Ele deve ter se perdido por aí.
- Deve ter morrido no temporal de ontem à noite.
Eram onze horas da manhã e seu Duílio batia enfim na casa do Comendador.
Este abriu o portão, saudando-o educadamente:
- Bom dia, seu Duílio. O que houve? O senhor parece nervoso.
- O papagaio não voltou ainda. Ele me deixa louco. Queria que o senhor me desse licença para olhar no quintal. Pode ter passado pelo muro.
- Claro, como não?
Foram ao quintal.
Dois olhos atentos fitavam os homens descendo as escadas. Ele estava bem no alto, num galho de mangueira. Esperou um pouco, rindo da cara do homem, que não estava brincando.
Mas Verdinho sabia como era. Sempre acontecia desse jeito. Depois, quando seu Duílio o via vivo e salvo, molhava os olhos de emoção, pegava-o colocando-o junto ao peito e acariciando-lhe as penas.
Seu Duílio abria caminho entre as folhagens, arranhando-se enquanto chamava:
- Louro, currupaco, louro, você está aí?
O coração do Verdinho cresceu dentro do peito, cheio de amor e, não podendo mais, começou a cantar sua música preferida:
- “Atirei um pau no gato tô, mas o gato tô não morreu...”
Foi tanta a emoção de seu Duílio, que ele não pensou em mais nada. Sua raiva dissolvera-se como uma pedra de sal na água fresca.
Localizou o bicho, e passou a escalar um tronco ressequido, onde os galhos de vinólia se entrelaçavam.
Mamangabas quase entravam totalmente nas flores.
O papagaio alegre, quis prolongar ainda um pouco o jogo de pega-pega. Levantou um pequeno vôo, colocando-se num galho um pouco mais distante. E o homem foi depressa para outro tronco. Estendeu a mão, e lá foi novamente o papagaio curtindo sua sacanagem.
Seu Duílio agarrou-se agora num tronco apodrecido, para azar seu, o nicho das mamangabas.
- Ai, ai... - gritava desesperadamente.
Um dos insetos ferroara-lhe a palma de uma das mãos. Não podendo mais segurar-se, largou as mãos, deixou-se tombar, perseguido por um bando dos bichos enfurecidos.
Não fazia muito tempo que havia caído do telhado de sua casa, quebrando algumas costelas e ofendendo vértebras.
Lá estavam suas costas novamente beijando o chão, mas estas pouco doíam. Era a mão atacada pela mamangaba que doía enormemente. Era a dor mais intensa até então experimentada por ele.
Colocando-se em pé, subiu correndo as escadas e chegou na cozinha do Comendador sem sangue no rosto.
- Aquele papagaio vai me pagar, eu disse, ele vai me pagar.
- O que aconteceu, seu Duílio?
- Olhe que eu agarrei em plena casa de mamangabas. As malditas aferroaram minha mão. Nem sei se não vou perder essa mão...
- Imagine, seu Duílio...
Dona Vanda vinha entrando no momento, já preocupada com a demora do marido.
- Que foi, Duílio? Pegou o Verdinho?
- Nada. Ele me paga. E ainda riu de mim. Está rindo ainda, estão ouvindo?
O Verdinho ria realmente lá no fundo do quintal.
- Essa mão me dói que não agüento. Larguei o pau podre e... Mas se eu tivesse um revólver, ah, eu atirava naquela mamangaba maldita. Caí...
- Você caiu, Duílio?
- É. Eu tive que cair.
O Comendador conteve o riso diante da situação extremamente cômica.
Dona Vanda levou o marido para casa. Precisava colocar uma pomada em sua mão. Tinha em casa, com certeza, daquelas pomadas milagrosas que servem e curam tudo: queimaduras, picadas de inseto, alergias, entorses, e até... mau olhado.
Da cozinha ouviram a voz familiar do papagaio.
Saíram no quintal, e lá estava o penado verde, com o olhar mais doce e inocente deste mundo, oferecendo a cabeça para uma carícia.
Izabel Martho
Enviado por Izabel Martho em 20/05/2005
Código do texto: T18115

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Sobre a autora
Izabel Martho
São José do Rio Preto - São Paulo - Brasil
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