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É muito legal quando aprendemos a trocar o “por que”, pelo “para que”, as coisas acontecem em nossas vidas.
Era um grande Shopping Center. 
Eu estava lá, uma multidão de pessoas transitava de um lado para o outro, quando, de repente, avisto ao longe muitos ladrões saqueando lojas, quiosques, num assalto coletivo, que deixava as pessoas tontas, correndo de um lado para o outro, e cada um, tentando safar-se da situação como podia. Uma cena bárbara, grotesca e surreal, onde não conseguíamos ver os rostos dos encapuzados. O pânico era geral. Parecia um enxame de abelhas desvairadas, saindo em todas as direções, inclusive eu, que assistia a cena a uma certa distância. 

Sem ter muito o que pensar naquela hora e constatando a violência instalada, pude ver imagens, onde,  jóias, roupas, brinquedos, livros e alimentos, eram jogados ao alto, numa grande confusão, que não cabia nas valises dos assaltantes, trazidas nas mãos para encher com as mercadorias roubadas. 

Nitidamente, eu ouvia uma voz muito sinistra, que sei lá de onde vinha, gritando, creio que por um megafone:
- “ Hoje aqui não vai sobrar nenhum!” 

O mais estranho dessa história é que eu assistia aquilo tudo como se fora um filme de terror,  mas,  ninguém envolvido nas cenas me enxergava. Quando então, uma enorme sensação de medo tomou conta de mim, comecei a correr pelo shopping, sem saber onde chegar,  nem por onde sair. Olhei para trás e vi um homem correndo em minha direção dizendo: 

- “ Eu vou com você, me espera...” 

A voz desse cidadão ecoava e isso fazia com que eu corresse mais e mais. De repente, vejo uma porta de ferro, parecendo uma saída de emergência. Abro e me deparo com uma escada enorme que parecia não ter fim. Começo a subir correndo e vejo que o tal homem me alcançaria, sem que eu chegasse ao topo da escada, que sequer, eu sabia onde ia dar.  Imediatamente pensei:
Se eu já tivesse feito a gastroplastia,  teria mais fôlego... mas, gorducha assim, não vai dar ... e agora? 

Com o coração disparado,  parei no meio da escada e quando o sujeito chegou perto de mim, dei um chute com toda a força que nunca imaginara poder ter. Pegou bem no queixo dele, que caiu desmaiado, todo ensangüentado, e eu, ainda apavorada, agradecia à Deus ter vencido o inimigo. 

Acontece, no entanto,  que quando olhei o rosto do moço, ali, inerte e caído, não era nada mais, nada menos, que o Murilo Benício, vestindo aquele personagem maravilhoso que fez em Orfeu, com uma interpretação impecável. 

O peito do meu pé doía horrores, a força do chute foi tão grande, tão grande, que despertei desse pesadelo, tentando pedir desculpas ao Murilo, constatando que havia, num transe de sonambulismo, levantado da cama e chutado com enorme violência a porta do banheiro da suíte. O meu pé bateu bem na quina do portal (era o queixo do Murilo) e tamanha foi a violência que quase derrubei a porta do banheiro, ela chegou a sair do lugar, mas estava fechada! ( Bem que me diziam que nossa força interior não tem limites) 

A sorte é que meu marido, dois minutos antes do episódio, levantou-se com sede e foi à cozinha beber água, senão, nem ladrão, nem Murilo, mas seria ele, a provavelmente levar o chute. ( é claro que Deus protege os inocentes). 

Assustado com o imenso barulho, volta da cozinha com os olhos arregalados e me encontra tonta, quase desmaiando, às gargalhadas, ao concluir que tudo não passou de um sonho. 

Nós rimos muito naquela noite...mas o meu pé...parecia um ovo de páscoa tamanho 26, enorme, todo roxo, tive fratura em dois dedos, rompi alguns ligamentos e fiz uma lesão nos tendões. 

Nunca pensei que uma dor demasiadamente aguda, pudesse se transformar numa história que faria tanta gente rir.  Até agora, quando conto o episódio e ele se espalha, invariavelmente, a reação é a mesma: muita risada e depois, cada qual na sua crença dá uma versão: 

- Você venceu o demônio...
- O estresse social que vivemos é o grande culpado...
- Tem algo de para normalidade nisso tudo...
- Uma pessoa tão boa,coitadinha,ela não merecia...
- Orai e vigiai...
- Deve ser a tensão pré-operatória...
- Dormiu com o estômago cheio...
- Todo mundo que ajuda os outros,enfurece o maligno... 

Seja lá qual for a explicação, uma coisa é certa: 

Murilo Benício, é sonho.
Assalto coletivo, é pesadelo social da nossa nação em desalinho.
Que Deus protege, disso, não tenho a menor dúvida... 

Apesar do pé quebrado, foi muito bom ser veículo do sorriso, ou melhor, das gargalhadas desse povo  tão sofredor, no qual estou incluída.
E viver, viver é bom demais, independente das dores que somos levados a enfrentar, afinal, só sonha quem está vivo, pois quem deixou de sonhar,  morreu e nem sabe disso. 

Daqui a pouco o pé é só lembrança, e eu, repleta de esperança, hei de alcançar o último degrau daquela escada, que para mim, é o percurso que estou trilhando na cura de uma doença, chamada obesidade. 

Ter uma atitude pessimista e de auto-piedade, é colocar-se como vítima da própria vida, numa visão umbilical, que não nos deixa ver além ou aquém do próprio umbigo, por isso, o dito popularizado: 

- Tinha que ser comigo, por quê? 

Mas sair desse patamar e entrar no entendimento de todos os “para quês” que circundam nossa passagem pelo planeta, certamente, é consciência dos melhores aprendizados que a vida pode nos oferecer, especialmente, se somos protagonistas do nosso otimismo e compreensão, de que tudo passa,até a uva-passa, posto que viver, é, essencialmente, aprender sem fenecer.

Rir é o melhor remédio. Este foi o para que relevante desta história, superando qualquer  porque  desnecessário. 


Márcia Beatriz Prema
Enviado por Márcia Beatriz Prema em 10/08/2006
Reeditado em 26/08/2006
Código do texto: T213358

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Sobre a autora
Márcia Beatriz Prema
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Márcia Beatriz Prema