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Os símios

vOs símios

Naquela redundância que é a imensidão da floresta virgem, os símio se abrigavam. Protegiam-se das bombas mortíferas, distantes das revoluções, cruzados, cruzeiros e real.
___ Quem trata, cuida. – era o macho.
___ Quem cuida, tem. – arrematava a fêmea.
Fria aquela gruta. Não havia o fogo – esse que amolece até o metal mais nobre. Havia o fogo capaz de deixar rubro o símio macho e mole o corpo fêmeo. Calados, na calada da noite, rodeados por uma aura de irreverência, romantismo e excentricidade, mantinham uma relação capaz de cancelar qualquer outra já vivida. Os grunhidos da noite arrepiavam seus pêlos, e entre uma banana e outra, filosofavam:
___ Somos filhos pródigos do amor.
Na imensidão, sem influências, numa originalidade simiesca enchiam a mata-virgem de humor. Árvores centenárias camuflavam os dois.
___ Corremos o risco de correr risco. – era o macho.
___ É o que a vida nos oferece. Estou com os pés no chão. –completava a símia.
___ Pés e mãos. Esteticamente é melhor pra nós. Não dói as nádegas. – concluía o macho.
Amor selvagem, simiesco, protegido na mata-virgem. Só. Nenhum outro com disposição de grafitar como relação marginal, periférica: símio tem a vantagem de ser irracional e abestalhado. Não acredito que corram o risco de uma casca de banana nanica: preservam a intimidade da parafernália racional.
___ Já ouvi falar do bicho racional; creio que vivemos melhor. – era o macho mostrando conhecimento.
___ Ouvi também; o que você tem pra contar? – interessada a símia.
___ Engraçado. O racional não pode sujar em qualquer lugar. Mas tem uns que podem. Insultar, pichar, uns podem, mas têm muitos que não. E iludir! Ah, têm alguns que são eleitos pra isso. – arrematava o macho.
___ Ouvi falar de uns racionais chamados de hippies. Diziam: ‘paz e amor, bicho!’  Fiquei enternecida, porque até lembravam da gente. Andavam com uma flor: murchou. Que pena! – lacônica a símia.
___ Ah, os hippies! Também ouvi. Sucumbiram. Sonho apenas. Uma realidade irreal. Ficou a racional, neurastênica, monótona, cheia de regras. Própria deles. Zoológica. – explicava sabiamente o símio.


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( Miro  Camargo )
Miro Camargo
Enviado por Miro Camargo em 03/06/2005
Código do texto: T21956
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Sobre o autor
Miro Camargo
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 81 anos
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