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LINHAS TORTAS




     Nesse momento ele só tinha uma certeza, não tinha sorte, a sorte nunca esteve ao seu lado, por isso estava ali, sobre um viaduto esperando o momento certo para se jogar e acabar de vez com todo o sofrimento que sua vida se transformou.

     O lugar é alto, não tem chance de sobreviver à queda, se sobreviver os carros que passam lá embaixo se encarregam de terminar o serviço, pois o movimento é muito grande.

      Ele se prepara para se jogar, mas, de repente, falta-lhe coragem, então desiste.

      Algumas lembranças vêem à sua mente.

      Lembra-se de como quase perdeu tudo o que tinha em um negócio.A princípio o negócio tinha tudo para dar certo, não tinha erro, era investir e o retorno vinha rapidamente, com todos foi assim, ele vendeu o carro e a casa para o investimento, mas, meses depois uma grande crise assolou o país e...

       Mas esse não foi o único infortúnio da sua vida, não tinha sorte com empregos, todos empregos bons que ele conseguia em pouco tempo os perdia, não era por falta de capacidade não, pois ele sempre foi um excelente profissional, quando a empresa não fechava, várias das quais ele trabalhou fecharam, ele era mandado embora sem sequer saber o motivo, corte de despesas, diziam.Nos trabalhos ruins ele conseguia se estabilizar chegou a trabalhar até quinze horas por dia sem receber horas extras e era sempre humilhado pelos chefes, ficou anos trabalhando assim até não agüentar mais tanta humilhação e pedir demissão e perder todos os benefícios que a lei estabelece aos empregados demitidos.

       Sua falta de sorte vinha desde adolescente onde era considerado um ótimo jogador de futebol, fez alguns testes em clubes de grande expressão até passar em um, mas não teve muita sorte, pois, após passar ele sofreu uma contusão que o afastou para sempre do futebol.

       Melhor aluno na faculdade, considerado um gênio pelos professores, tudo isso não lhe trouxe sucesso profissional, muitas vezes após apresentar seu invejado currículo, era dispensado pela empresa contratante temendo não poder pagar o salário esperado por ele, mesmo antes dele fazer sua oferta.

       Com as mulheres as coisas não eram diferentes, todas as vezes que achou que tinha encontrado a mulher da sua vida algo acontecia, seus relacionamentos sempre foram decepcionantes.É, ele não tinha sorte mesmo, nada que fazia na sua vida dava certo, não merecia mais viver, nem por um minuto sequer.Em uma fração de segundo sua coragem voltou e sem pensar ele se jogou do viaduto.

        Coincidentemente um caminhão lotado de estrume passava no exato momento em que ele se jogou.Com os olhos fechados, ele não percebeu que caíra bem no meio do estrume.

- Caramba! Eu não sabia que mesmo depois de morto a gente sentia dor, ai como dói o meu corpo, puxa vida, se depois de morto eu estou me sentindo assim, o meu corpo deve estar em pedaços na outra vida, ai, ai.
Um vento bate em seu corpo.

- Será que eu estou voando? Que sensação boa essa que eu estou sentindo, mas eu estou me sentindo tão sujo, e esse cheiro, parece merda, está tudo escuro, deixa eu abrir os olhos, pensei que não era necessário fazer mais força, que tudo viria com o meu pensamento, afinal, estou no mundo espiritual, ou não? Claro que estou.
Ao abrir os olhos.

- Meu Deus! Que carma é este que eu carrego, até depois de morto. Eu sou azarado mesmo até depois de morto eu venho parar em um caminhão cheio de merda...Espera um pouco, eu conheço esse lugar...Droga, droga, droga...Essa porcaria de caminhão tinha que passar bem na hora de eu me jogar...Droga, droga, droga.

O caminhão pára em um sinal vermelho e ele mais que depressa desce sob olhares
desconfiados dos transeuntes.Envergonhado pela sua situação, afinal está todo sujo, ele está também muito envergonhado pelos seus últimos atos, mas uma vez sente que fez tudo errado.

        Ele corre pela rua para chegar o mais rápido possível em sua casa, por onde passa ele é o centro das atenções, atiçando a curiosidade das pessoas que o vê.

        Chegando em casa, envergonhado e muito aborrecido, ele vai tomar o seu banho, quando uma idéia vem à sua cabeça, uma grande idéia.

         Liga para alguns amigos, para contar sua grande idéia.As opiniões são desencorajadoras.

- Voce está louco? Isso nunca vai dar certo.

- Só você mesmo para vir com uma idéia dessas.

- O dinheiro é seu mesmo, rasgue-o se quiser.

- Sabem de uma coisa eu já perdi muito, uma vez mais, não vai fazer diferença.

- Depois não diga que não avisamos.

        N o outro dia, logo cedo, ele vai para o banco onde contrata um empréstimo, que, juntando com as suas economias dá para o investimento inicial.Dias depois sua empresa de esterco para adubo está aberta, e, por incrível que pareça dando muito certo, tão certo que meses depois as maiores cidades do país tinham escritórios da sua empresa.

        Um ano depois, ele está com sua noiva em uma igreja.

- Quero que o nosso casamento seja no dia 25 de abril,o dia em que eu nasci. Tudo bem para você?

- Tudo.Mas você não nasceu no dia 22 de dezembro?

- É que no dia 25 de abril descobri que nada na nossa vida é por acaso, que tem uma força maior que nos guia para o melhor caminho, que tudo tem sentido e que nossa hora sempre há de chegar, tudo é questão de tempo. No dia 25 de abril eu nasci para uma nova vida, após ter ficado na merda, literalmente...
E solta uma tremenda gargalhada.


                                                                 

       

                                                                                                             
Marc Souz
Enviado por Marc Souz em 06/09/2006
Código do texto: T233787
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Sobre o autor
Marc Souz
Birigui - São Paulo - Brasil
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