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Um retrato infiel de um bom menino

(Autor do texto: Richard Hell)
[Por ele mesmo]

Meto os pés pelas mãos constantemente. O que me traz sérios problemas na hora de jantar e de cortar as unhas. Gosto de chutar o balde e já nem ligo pras reclamações da faxineira sobre os amassados em todos eles. Mesmo porque não adiantaria ligar. Ela não tem telefone. Como não tenho amigos, pago um pra me ouvir falar toda semana. Tenho o pé chato. E me esforço muito pra fazer com que todo o resto pareça legal. Só meu intestino que não tem jeito. Vai ser sempre grosso. Minha preocupação com a maneira como as mulheres me vêem me faz acordar às 5 e meia da manhã pra ir pra academia às 6. Depois passo o resto do dia me comportando como se eu não ligasse pra isso. Fiz tatuagens pra que as pessoas falem comigo na rua. Ando meio viciado em problemas. Depois que minha vida ficou perfeita comecei a sentir um vazio -já preenchido e assinado em duas vias. Não consigo me libertar da prisão do pensamento de que agora passou um segundo depois de um "outro agora". Olha lá, de novo (nossa, essa influencia Arnaldo Antuniana é foda). Não declaro imposto. Eu o declamo. Sem platéia. Depois do canal de sexo, fui inventor do canal de almoços, onde milhares de pessoas almoçam 24 horas. Almoços em grupo, inter raciais, só com mulheres e grupos inteiros almoçando. Um sucesso que me levou ao auge do declínio. Como todo baterista, meu prato preferido é o zildjian. Gosto de aeroportos. Primeiro porque acho o nome engraçado. Um porto onde você viaja num ônibus que voa. Acho que poderiam chamar aerodoviária. Aliás, nunca entendi porque o motorista de ônibus não é chamado de comandante como no avião. Mas o outro motivo de gostar desses lugares é porque posso observar as fisionomias das pessoas que estão chegando, que estão indo viajar, que estão recebendo os passageiros no saguão e da tripulação. Pioneiro na prática de esportes radicais fui o primeiro atleta a atravessar a avenida paulista fora da faixa durante uma tarde toda. Personagem principal, coadjuvante, figurante, roteirista e diretor da minha vida eu não me deixo levar pelas aparências. A não ser que ela apareça numa mercedez conversível. Comecei a estudar ocultismo quando me mudei para Boston. E ainda adolescente, fui o fundador da coprologia, método de previsão do futuro através da leitura da disposição do cocô na privada. Enfrentei muitas dificuldades no começo graças ao cheiro de Boston. Mas com o advento da Polaroid e da foto digital comecei a atender por e-mail e hoje posso dizer que merda dá dinheiro. Como hão de concordar a Xuxa, o Murilo Benício, o Carametade, e muitos outros expoentes desse setor. Um pouco teimoso só dei o braço a torcer uma vez: numa luta de jiu jitsu e perdi na hora. Tenho alma de guerreiro, mas o corpo é de bunda mole. Não posso ver uma mulher chorando, por isso quando presencio essa cena olho pro outro lado. Aliás esse meu lado sentimental,­ o lado direito é muito forte, quando vejo alguém sofrendo sou incapaz de repetir a sobremesa. Assim como os aparelhos da CCE, tenho meu defeitos, por exemplo: as vezes simulo orgasmos. Mas estou fazendo um tratamento hormonal pra crescer e acredito que com uns dois cms a mais já dê pra alcançar a felicidade. Sou contra a paz mundial por acreditar que isso vai gerar um tédio sem fim, além do desemprego em massa dos jornalistas. Defendo muito as minorias e acredito que as universidades deveriam ter cotas pra todas elas. Sou autor do projeto de lei que obriga todas elas a destinarem 10% das vagas em cada curso para os ambidestros são paulinos que comem arroz integral as quintas na hora do almoço. Meu humor muda sempre. Atualmente ele mudou pra Florianópolis mas combinamos de nos encontrar na Bahia no final do ano. Bom, agora que você já me conhece dá pra me emprestar quinhentinho?

Maria Quitéria
Enviado por Maria Quitéria em 21/10/2006
Código do texto: T270080

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Sobre a autora
Maria Quitéria
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