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CRISELDA, A DESFRUTÁVEL

    Criselda ouviu sua mãe iniciando o trabalho de fiar na sala e, fechando a porta do quarto com um sorriso malicioso nos olhos, disse a ela com voz de melissa:
- Mãe, vou ficar aqui rezando um pouquinho e gostaria de não ser incomodada.
Dona Miquelina ajeitou os óculos para ver melhor o que fiava e deu um suspiro, sem acreditar. Como Deus era bom! A filha naquela idade em que o coração é açoitado por inelutáveis tormentas, por acalorados furacões, e de uns tempos para cá a menina não pensava em outra coisa a não ser orar. Toda tarde, Criselda trancava-se lá no quarto e passava horas entretida com aquelas cousas divinas que muito lhe apraziam. Uma santinha de altar! Certa feita, estranhando a mãe a súbita mudança da filha, que nunca fora dada a padres e igrejas, adentrou no quarto de surpresa e deu com Criselda debaixo do lençóis em tão fervorosas orações, que a menina suava mais do que égua parida. Agradeceu piamente ao Pai Celeste pela filha preciosa e deixou o quarto na ponta dos pés para não atrapalhar Criselda em suas tão ardentes preces.
- Você tem rezado muito, minha filha, dizia a mãe toda orgulhosa.
- Nem tanto, minha mãe. Hoje, foram só dois rosários e um jaculatório...
Mas se parecia isso, não era bem isso. Talvez por causa dos óculos, dona Miquelina via apenas o que queria ver, ou seja, não via nada. Mulher de profundíssima fé, mas de raríssimas luzes, ela pouco trabalho se deu em verificar os verdadeiros motivos que produziram tamanha mudança no comportamento da filha. Toda a vila conhecia de trás para diante a fama galinácea de Criselda, sujeitinha fácil e torta de idéias, que passava os dias pendurada nos beiços de seu vizinho, um tal de Zé Tripé. Dona Miquelina é que não aprovava de jeito maneira aquele namoro. Diziam que esse Zé Tripé tinha feito o pacto com o Sem-unhas e entregara a alma ao cujo a troco de umas ditas catorze polegadas. E olhe que não estou falando de televisão!
Talvez por isso mesmo, Dona Miquelina proibira terminantemente a filha de encontrar-se com o espigado varão. Mas tinha cabimento uma aberração dessas? A menina ainda há um nada brincava de bonecas e agora só queria saber de se lambuzar na língua enviesada daquele crápula tinhoso afilhado de Satã. Ah!, isso é que não, Deus que lhe cobrisse! No início, Criselda esteve para dar travesseiros de cobra à mãe, tanta era sua cólera por causa daquela injusta proibição. Mas depois, a menina foi calmando... calmando... até que calmou de vez, justamente quando as orações começaram a lhe penetrar a existência.
Porém, o que ocorreu em verdade foi de fazer Boccaccio sentir-se aprendiz na arte de engendrar novelas licenciosas. Esse Zé Tripé, que morava sozinho numa casa geminada à residência de dona Miquelina, não achou graça na idéia dele não poder mais saborear a menina à vontade e, para continuar desfrutando das delícias dela quando bem lhe apetecesse, combinou com a amada o seguinte artifício. Deveriam fazer justamente o que dona Miquelina mais desejava, ou seja, Criselda não mais se encontraria com o rapaz e ela, de ora em diante, entregar-se-ia às preces e orações, que tanto a mãe lhe incentivava. Assim, Criselda passou a orar todos os dias para o deleite dos três. E as orações eram feitas como vai explicado a seguir.
Zé Tripé fez um buraco numa parede de sua casa, que dava exatamente no quarto de Criselda, onde a menina tinha encostada a cama. Para encobrir o orifício na parede, situado pouco acima da altura do colchão, Criselda colocara ali um retrato de São Jorge, o tal da lança comprida. Quando a necessidade de orar era muita, bastava retirar dali o santo e chamar pelo namorado para que este lhe acudisse em tão agradabilíssima tarefa. Assim passavam horas e mais horas enlevados na mais profunda penetração daqueles mistérios celestiais.
Não me peçam detalhes a respeito dessas tórridas preces e tampouco explicações pormenorizadas de como eles a praticavam, pois isto é privilégio de iniciados, mistério conhecido apenas pelos ascetas mais rígidos e pelos contorcionistas mais flexíveis. Digo apenas que Criselda e Zé Tripé entregaram-se a todo tipo de reza, chegando, inclusive, a inventar algumas orações novas ou mesmo adaptar antigos e interessantes mantras tântricos como mais lhes convinham. Mas um belo dia...
Um belo dia, a mãe de Criselda mandou que a filha fosse levar uma bacia de repolhos para uma parenta lá dela, pois esta ouvira dizer que cozido de repolho com ovo era santo bálsamo para hemorróidas. Acontece que a referida parenta morava a umas boas pernadas de distância e Criselda não queria se ausentar por muito tempo, pois havia combinado com o namorado seus folguedos para aquela tarde. Tanto dona Miquelina insistiu, que a menina não teve outra alternativa a não ser concordar:
- Não seja teimosa, minha filha, a Odete está que não se senta!
- Tá bom, mãe! Mas se eu for para o inferno por falta de orações, a culpa é da senhora!
- E não se esqueça de comprar umas berinjelas na feira e pagar a prestação da casa e jogar na vaca e...
Queria dona Miquelina que Criselda não tornasse a casa tão cedo, pois a cuja tinha tramado das suas. Ainda que ela vestisse uma máscara de honestidade para parecer aos olhos dos outros uma matrona honrada e digna de créditos, dona Miquelina era feita com a mesma lama que corria nas veias da filha e em nada ficava devendo à menina. Nem bem ela se viu livre de Criselda e fez entrar em sua casa o padre Gerardão, com o qual ela confiava suas intimidades e seus pecadilhos:
- Padre, careço ardentemente me confessar.
E o padre, desvestindo o hábito que escondia seu latejante tonsurado, respondeu aos responsos, voz de confessionário:
- Não esconda nada deste irmão menor.
O fato é que acabaram se jogando sobre o primeiro lugar adequado que encontraram, no caso, a cama de Criselda. Sucedeu, porém, que tão altos eram os gemidos e sussurros da confissão, tamanhos eram os suspiros das molas da cama, que o Zé Tripé achou que aquela balbúrdia toda se devia a Criselda ter vindo rezar antes da hora combinada. Ficou muito satisfeito o sôfrego mancebo com a novidade e nem se lembrou de averiguar se o que se passava do outro lado era realmente aquilo que ele tinha em mente. Como não queria perder tempo para não deixar a menina aflita, foi logo introduzindo no orifício da parede a sua portentosa reza. Porém, o demo tem sutilezas e manhas inacessíveis à razão dos homens, de maneira que as orações do rapaz foram encontrar em cheio a retaguarda da mulher. Supôs dona Miquelina que o inesperado adendo se tratasse de artes do padre e adorou muitíssimo a proficuidade do brinquedo. Aquela confissão estava lhe saindo melhor do que a encomenda. Mas... ah!, preces imarcescíveis, orações rombudas! Ah!, deuses priápicos e pilherentos! Ah!, destino truanesco de insofismáveis chacotas! O padre e dona Miquelina resolveram se aventurar em novas posições e acabaram trocando de lugar durante a confissão. Achou o Zé Tripé que Criselda gostaria de rezar um jaculatório e prontamente se prestou em satisfazer os apetites da menina. Quando o padre Gerardão sentiu que aquelas insólitas e tronchudas orações se lhe embrenhavam por entre as carnes mais íntimas, deu tamanho pulo da cama, feito cavalo selvagem picado a espora, que foi bater os chifres na cômoda de cerejeira. Assombrados com as preces que viram emanando da parede, os dois calaram mudos uns instantes, talvez pela surpresa, talvez pelo absurdo, um com uma pontinha de inveja, outra com idéias lascivas lhe acariciando o espírito concupiscente. Depois, disse o padre:
- Mas isso é... um pinto!
- Capa! Capa! - gritava a mulher toda assanhadinha.
    Ao ouvir tais palavras, Zé Tripé parou de rezar subitamente e retirou-se o mais rápido que pôde de perto da parede, pois tinha receio de ficar com a voz fina. Nesse exato instante, por caprichos de algum desses diabretes trocistas que atiram cascas de banana no caminho dos infelizes mortais, Criselda entrou em casa. Ficara a menina boquiaberta com a cena que vira, ou seja, o padre Gerardão pelado e de quatro sobre sua cama, olhando idiotamente pelo buraco da parede. Dona Miquelina, duplamente surpreendida pela chegada imprevista da filha e pela audácia absurda do vizinho, só conseguiu remendar algumas palavras chochas e sem sentido:
- Minha filha, peça a bença do padre!
    O padre cobriu com o quadro de São Jorge, deu a bença como se estivesse espantando mosquito e explicou que aquilo nada mais era do que um mero ritual de exorcismo, feito à maneira antiga, para enxotarem o Capiroto às trevas profundas, pois este, desgraçadamente, havia feito ninho naquela parte do quarto. Criselda fingiu acreditar, porque não queria perder seus privilégios adquiridos. Nem ela censurou a insídia da mãe, nem a mãe reprochou os costumes da filha. Tinham telhados de vidro e queriam continuar com eles. No mais, como Inês já era morta mesmo e o serviço estava feito, restou ao padre vestir seu hábito puríssimo e despedir-se das duas, recomendando sempre a elas que nunca deixassem de fazer suas preces e confissões. E assim foi dito e foi feito. Lato sensu.
José Antonio Martino
Enviado por José Antonio Martino em 29/10/2006
Reeditado em 21/06/2009
Código do texto: T276788
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Sobre o autor
José Antonio Martino
Atibaia - São Paulo - Brasil, 48 anos
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