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Causos dos meus bailes - Parte II

Conforme comentei em "causos dos meus bailes - I", voltei a frequentar bailes, agora de terceira idade, após muitos anos de ausência e encontrei algumas situações insólitas.
Vejamos uma delas:
Um senhor, de bastante idade, impecavelmente trajado no seu terno e gravata, convalescente de um derrame, está sempre no mesmo salão, no mesmo dia da semana, na mesma mesa. É dos primeiros a chegar e dos últimos a sair. Explica, com visível dificuldade de fala, que gosta muito de dançar mas não consegue ficar muito tempo em pé.
Deixa sua bengala de lado e, conhecendo várias senhoras, solicita-lhes para convidá-lo a dançar.
Quando se mune de coragem, convida também senhoras que não conhece, arriscando-se a levar um não, que encara sem dramas.Mas algumas, compadecidas com a sua situação ou admirando sua perseverança, entram de boa vontade "no jogo". (Eu, particularmente, já entrei, deliberadamente nessa cena, a fim de satisfazer minha curiosidade e conhecer mais de perto uma pessoa "sui generis" como essa).
Após algumas poucas e lentas voltas pelo salão e muita conversa, retornam com ele à mesa, geralmente a seu pedido.
Ele oferece a cada uma delas uma humilde balinha, das muitas que tem espalhadas sobre a mesa e volta a sentar.
Se recusam, ele insiste, numa interminável contenda, forçando-as a aceitar a gentileza, para evitar maiores discussões.
Pelo número de balinhas na mesa, pode-se arriscar a previsão de contradanças que ele tem intenção de fazer!...
Fica a pergunta no ar: A balinha é dada em agradecimento à dança - ou para melhorar o hálito da dançarina... Uma vez que a dança é mínima, a senhora vê-se forçada a falar muito, durante todo o passeio pelo salão...
Insondáveis mistérios da mente humana...
Bem, deixando de lado o humor, o personagem dessa cena, merece louvores pois, enquanto pessoas jovens e sadias desperdiçam sua vida  "assistindo" ( e não jogando) futebol e outros tantos passatempos frente à TV, esse senhor, com as  poucas possibilidades de movimentação e de fala que dispõe, encontrou uma maneira de exercitar-se, fazer novas amizades, enquanto reaviva as antigas, passar horas agradáveis, produzindo a serotonina que lhe garante satisfação e melhora na qualidade de vida.Por isso merece todo o respeito.
Aplausos para ele...
Serelepe
Enviado por Serelepe em 18/11/2006
Reeditado em 22/11/2006
Código do texto: T294346

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Sobre a autora
Serelepe
Curitiba - Paraná - Brasil
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Serelepe