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UM CLAQUE NÃO CRACK




         A platéia estava em silêncio, apreensiva... atenta ao evento que em menos de dez minutos teria início. Os maestros, os músicos, os convidados... Bem dizer, todos os presentes estavam ansiosos para que o organizador daquele fabuloso evento anunciasse a primeira apresentação e, mais ansioso que todos, estava um alguém. Não só ansioso para que o seu contratante o visse atuando, como também, para mostrar a sua utilidade.
         O local onde ele encontrava-se era simplesmente fantástico; era tão diferente que ele estava fascinado,  não vendo a hora de iniciar o seu trabalho; trabalho que ele nunca havia visto, conhecido, muito menos,  trabalhado.
               José Ambrósio; nome não comum, mas cenário comum como de milhares de brasileiros; um desempregado no meio da multidão. Um brasileiro que passaria desapercebido dentre tantos que fazem parte do batalhão dos que marcham, diariamente, em busca de um emprego. Sete meses... isso mesmo! Sete longos meses que mais pareciam-lhe sete anos.
        Como tudo muda... estava José Ambrósio andando no calçadão, no centro de Juiz de Fora, mais precisamente na Rua Halfeld e, de repente,  sentiu que a sorte estava ao seu lado... sem mais nem menos, fora abordado por um homem bem vestido que lhe perguntou se desejava trabalhar.
       – Uai, sô! O sinhô tá me perguntado se doente qué saúde?
       – Não sei se vai lhe servir, mas o nosso claque está doente e preciso de alguém para substituí-lo. Você só precisa saber o que faz o Claque, e na hora “H”.
        Desconfiando, como todo mineiro...
        – Plack? Que  trem é esse, sô?
        –  Não se chama plack e sim, Claque! – o homem o corrigiu com ar carismático e sorriu.
        – Bem, moço... vontade de trabalhar eu tenho em qualquer coisa que aparecer, mas eu num sei se vô saber fazer isso não sinhô.
         – É simples, simples! Basta que você preste atenção no que está ocorrendo no palco. Assim que os atores, isso é, não serão atores a se apresentarem no palco e sim, corais – continuou – assim que os maestros derem por encerrada cada música que o coral estiver cantando, então será a vez de você fazer a sua parte; você, antes mesmo que as pessoas comecem a aplaudir, fingi-se de exaltado e começa a bater palmas e, se possível, a assobiar e a gritar. Mas, repito: deve existir muito cuidado para que os seus aplausos saiam na hora certa.
         – Bem... se for só isso, é fácil demais. Quem não consegue trabalhar nesse trem, sô? Isso é mole, mole!
         – Eu repito: é nada mais, nada menos que um figurante disfarçado na multidão.
         Tudo combinado, José Ambrósio começaria a trabalhar naquela mesma noite. Até mesmo o salário foi combinado, e no batalhão dos desempregados, mesmo que a cada minuto incorpore um novo membro, naquela noite um dos antigos membros estava deixando o tal batalhão.
          Até sonhos ele estava alimentando. Pelo jeito, a sua vida agora iria mudar; se estava desempregado há sete meses, e de repente um emprego lhe chega de mãos beijadas, tinha tudo para dar certo. E ele, que pensou que o despacho que fizera na encruzilhada de nada tinha valido; demorou, mas chegou! – sorriu.
           Às 18h30min, já estava no Cine Theatro Central  onde o evento teria início às 20h. Chegou cedo a fim de mostrar que possuía  pontualidade britânica.
        Teatro lotado, não havia nem mesmo uma cadeira vazia. Todos os espectadores estavam atentos para o início. Assim que evento teve início, José Ambrósio ficou muito feliz, mas também, muito tenso. O dirigente do teatro, atento a tudo, não teria tempo de preocupar-se com o pormenor, que seria, lógico, o mais novo funcionário.
       Assim que as cortinas foram abertas, uma salva de palmas se fez ouvir; era toda a platéia fazendo a sua parte e o nosso amigo, não sabendo que aquilo iria acontecer, mais e mais tenso ficou. Quando lembrou-se de dar os assobios e os gritos, toda a platéia já se encontrava em silêncio e pronta para ouvir as primeiras palavras do apresentador.
       O apresentador chamou o primeiro coral ao palco e o mais novo empregado do Cine Theatro Central começou a gritar. O apresentador, por um instante, parou e ficou a observá-lo. Mesmo ele não tendo percebido, continuou com seus gritos estridentes e o homem, mesmo incomodado, para manter a compostura, continuou as frases; começou com o histórico do coral que naquele momento  se apresentaria.
               O maestro iniciou a primeira música. Com dificuldade, o coral conseguiu cantar o seu repertório.
               O segundo coral também fez a sua apresentação conturbada, não com os aplausos da platéia que estava atenta, mas com os aplausos solitários e não concatenados de alguém que, mesmo não percebendo, estava por demais sendo inconveniente.
         Foi então anunciada a apresentação do terceiro coral. Mais precisamente, o Coral Cantavento, da Faculdade de Cabo Frio.
         A primeira música apresentada foi Uno (tango). O Maestro Ruy Capdeville estava extasiado e sentia-se no céu. O grupo estava fazendo uma bela apresentação e isso podia ser notado na fisionomia não só do maestro, como também, dos coralistas. Em uma das pausas, para a estrofe, ouviu-se, suplantando não só o coral que estava concentrado, mas todos que ouviam, gritos que fazia com que todos dirigissem seus olhares a um local que não era o palco, onde ouviu-se palmas estridentes que fez com que o maestro perdesse a sua concentração tendo que  pedir desculpas à platéia.
         Mesmo com dificuldades foi possível concluir a primeira música e tentar distinguir os aplausos concatenados e conscientes da platéia, que mesmo atordoada, conseguiu prestigiar.
         O Maestro Ruy Capdeville, após agradecer aos aplausos, anunciou a próxima música; uma música magnifica e que necessitaria de maior atenção para que assim, a música tão bonita e complexa em seu arranjo, pudesse ser sentida.
        Era a música, Judas Mercator Péssimus.
        A música teve início e pelo arranjo e melodia, a emoção era algo visível na face dos presentes. Exceto um cidadão que tentando fazer jus ao salário, nas pausas entre tantas que a música tem, descontrolado gritava e os seus gritos estridentes acompanhados de aplausos fortes, faziam com que até o experiente maestro ficasse atordoado, quase perdendo a seqüência da mesma.
       Quando foi anunciada a terceira e última música, a soprano Avelina cantaria Eu Sei Que Vou Te Amar, de Tom Jobim; mais uma vez aqueles gritos se fizeram presentes a ponto de deixá-la  apreensiva, e todos os presentes olharam mais uma vez, dentre tantas, para o Claque.
       Avelina tentou não se intimidar com aqueles gritos histéricos, mas, impossível; pois, mais histéricos que aqueles gritos, estava o homem.
      Quando o maestro tocou o diapasão na cabeça, levando-o em seguida ao ouvido a fim de saber o tom, não pôde ouvi-lo devido os gritos do homem ser superior ao som emitido pelo instrumento. Naquele instante o maestro não olhou, e sim, encarou  o Claque, a tal ponto das pessoas  notarem o seu acentuado nervosismo.
       O maestro, Ruy Capdeville, parou por instantes o que estava fazendo e dirigiu-se a um dos seguranças e cochichou algo ao seu ouvido.
       Em seguida, com um riso pálido no rosto, dirigiu-se mais uma vez até onde estava não só a soprano, como o Coral Cantavento.
       Ruy Capdeville ergueu um dos braços e com o outro levou mais uma vez o diapasão à cabeça, e aquele riso típico da sua face quando está regendo, desta vez não foi observado pelos coralistas; o mesmo estava possesso de ira.
      O segurança dirigiu-se até o homem que gritava e pediu-lhe para conter-se, do contrário, teria que ser tomada alguma providência.
       Possivelmente aquele momento tenha sido a única vez que ele fez uma pausa para responder...
      – Meu amigo, você sabe quem sou... heim?!
      – Não senhor. Só estou pedindo que se contenha para que os artistas possam trabalhar.
      – Pois bem, vou te falar quem sou. Espera aí!... – falou – você está fazendo seu trabalho, não?
      – Isso mesmo! Eu estou fazendo o meu trabalho.
      – Eu também estou fazendo o meu... e posso te avisar mais: não se meta comigo. Depois de todo esse meu esforço a fim de transmitir alegria às pessoas, você acha que o meu patrão vai gostar de saber que você está querendo atrapalhar o meu serviço, é?!
      – Mas senhor, o senhor está sendo inconveniente! Se o senhor insistir em obstruir o evento, serei obrigado a retirá-lo deste recinto.
      – Me... O quê?! – perguntou com um riso de escárnio.
      – O senhor deve conter-se; está deixando as pessoas irritadas.
      – Inveja! Isso sim. E posso dizer que você está com inveja por saber que eu ganho o meu salário para alegrar as pessoas enquanto você não passa de um pobre cão de guarda, por isso está com inveja.
             Depois de ouvir aquelas palavras o homem saiu irado e o deixou falando sozinho, enquanto Eu Sei Que Vou Te Amar, estava sendo cantada de forma esplendida por Avelina e pelo Coral Cantavento.
             Mas, antes mesmo do fim da música, ouviu-se mais uma vez, dentre tantas, os gritos e aplausos do Claque que estava tão distraído e não viu quando a soprano foi obrigada a parar de cantar, pois se perdera na melodia. Ele também não percebeu que várias pessoas da platéia aproximava-se dele; não foi preciso que o segurança que antes o ameaçava a retirá-lo do recinto, pois o mesmo foi retirado em uma maca.
            José Ambrósio foi levado para o hospital cheio de escoriações; não por ser agredido pelo público que assistia ao espetáculo mas, pelos coralistas que já não suportavam mais tantos aplausos.
            O diretor do Theatro, mesmo desejando, não pode mandar o Claque embora, pois ele foi despedido primeiro.
            O Maestro Ruy Capdeville, depois daquela apresentação, resolveu não mais reger corais, fez até um juramento.
            Para não quebrar o juramento, por ser orgulhoso, quando ele sente falta dos aplausos, em surdina recorre à fita que fora gravada no Cine Theatro de Juiz de Fora e fica a recordar aquela noite de muitos anos atrás e imagina que aqueles aplausos, feito por um único homem, fossem executados por toda a platéia. Só assim Ele Continua A Enganar-Se E A Ser Feliz Longe Da Regência.




Este trabalho está registrado na Biblioteca Nacional-RJ
carlos Carregoza
Enviado por carlos Carregoza em 30/11/2006
Código do texto: T305578
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Sobre o autor
carlos Carregoza
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 53 anos
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carlos Carregoza