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COMO FAZER NADA EM UM DIA DE SOL

Comece acordando quase na hora do almoço. Esse é a primeira atitude que deverá tomar para fazer nada. Levante-se, olhe bem para o relógio e pondere a respeito da possibilidade de dormir mais uma hora. Faça isso, ajudará no ócio do dia. Mas antes, peça que alguém lhe chame tão logo o almoço estiver servido.

Almoço na mesa, e pronto, você já pode se levantar. Faça isso com certa calma, observando bem os raios solares que insistem em passar pela fresta da persiana. Pense em como o dia deve estar lindo lá fora, e você aí, prometendo que o tirará pra fazer nada. Faça menção de procurar seus chinelos, mas sente-se na cama... Não resista, deite-se novamente e olhe para o teto, pensando em como a sua cama é realmente confortável. Fique ali, alguns minutos, apenas pensando em... nada. Apenas olhe, desinteressadamente, para os detalhes que compõem a pintura da porta de seu quarto...

Passado algum tempo você terá um lampejo! Sim, um lampejo fisiológico, e então perceberá que algo dentro de você grita: sua bexiga. Levanta-se calmamente e agora sim procure seus chinelos. Ou não, afinal, o dia será regido pela lei do menor esforço. Se os chinelos estiverem ao alcance das mãos, perfeito! Coloque-os, mas nos pés. Caso contrário, saia descalço. Será bom, pois pisar descalço no chão é como aterrar seu corpo contra descargas elétricas. Encaminhe-se até o banheiro, mas tome cuidado para não tropeçar em nada pelo caminho: crianças, tapetes, cachorros, brinquedos, cadeiras, etc. E também para não trombar em nenhuma parede desavisada, que teima em ficar no seu caminho quando está sonolento. Tome todas as providências necessárias quando estiver no banheiro, pois você só retornará a ele em caso de extrema necessidade.

Sente à mesa e, como um bom aproveitador dos dias de ócio total, peça que lhe sirvam. Coma vagarosamente, e tenha até preguiça de esticar o braço para pegar o copo de refrigerante que encontra-se a um palmo de distância do seu prato. E somente estique se realmente estiver com sede, caso contrário, aproveite que seu corpo ainda dá sinais de apatia. Como bom preguiçoso que está sendo, termine de comer e nem sequer leve o prato na pia. Apenas levante-se da mesa e mire fulminantemente aquele confortável sofá que se encontra a alguns metros de distância do seu corpo.

Acomode-se bem e, se o controle remoto estiver ao seu alcance, ligue a tv. Se não estiver, espere que alguma boa alma passe por perto e peça então que faça a gentileza de lhe entregar o mesmo. Se ligar a tv não assista nada. Apenas olhe para as figuras que passam em sua tela. Procure desvincular seu pensamento de qualquer coisa que o remeta à reflexão. Fique ali, confortavelmente acomodado no sofá até a hora que alguma necessidade lhe acometer (que podem ser: fome, vontade de fazer xixi, sede). Se o telefone tocar peça para alguém atender, e se não estiver em condições de falar, apenas faça um gesto de negação com o dedo para que a pessoa que está atendendo entenda que você não se encontra (o que não deixa de ser verdade).

Passado algum tempo na mesma posição, seu corpo dará sinais de cansaço. Isso é normal, pois ele ficou muito tempo na posição horizontal e agora precisa “verticalizar-se” um pouco. Vá do sofá para a poltrona. Tente ler uma revista, ou um livro, mas perceba que seu cérebro dará sinais de esgotamento ao sinal de menor esforço. Jogue a revista de volta no revisteiro e incline a sua cabeça para o lado, a fim de olhar a janela, e o céu que teima em manter-se azul. Por um momento pense em como seria bom dormir um pouco, e se estiver realmente afim, se faça de logrado. Aproveite os bons cochilos que os dias de ócio lhe proporcionam.

Passado algum tempo reflita sobre a possibilidade de um banho, e de como isso será relaxante. Faça um lanchinho rápido. Coisas simples: uma fruta, uma bolacha, um docinho (porque ninguém é de ferro) e um copo de suco. Dirija-se ao banheiro e esqueça propositalmente a toalha. Entre no banheiro, tire a roupa, abra a porta, mas tomando o devido cuidado para que não lhe vejam assim, tão ao natural, e grite no corredor para que alguém deixe sua toalha pendurada na maçaneta da porta. Enrole bastante debaixo do chuveiro, sob a água morninha que massageia seu corpo tão cansado. Aproveite o momento para cumprir todos os rituais de beleza que se faz embaixo do chuveiro: esfolie sua pele, dê um jeito de esfregar as costas, lave bem os pés (afinal, andou descalço todo esse tempo), lave bem os cabelos passando três vezes o xampu... Quando estiver em condições de deixar aquele ambiente tão agradável, feche a torneira e, como a toalha está para o lado de fora do banheiro, enrole um pouco, encostado na parede, dentro do box, até que a água dê uma “escorrida”. Pegue a toalha, enxugue cada parte do seu corpo, dê uma olhada no espelho, “esprema” aquele cravo horroroso do seu nariz, e vá para o quarto. Entre no quarto já desejando a cama, e abra a porta do armário para escolher o pijama mais confortável que tem. Não feche a porta se estiver com vontade. Vista-se e olhe novamente para a cama. Não resista... Apague a luz, feche a persiana, desligue o telefone e durma feliz, pois você finalmente conseguiu fazer nada durante um dia inteiro.
Bruna Pattiê
Enviado por Bruna Pattiê em 02/12/2006
Reeditado em 03/08/2007
Código do texto: T307699

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Sobre a autora
Bruna Pattiê
São Paulo - São Paulo - Brasil, 35 anos
150 textos (13238 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 19/08/17 07:10)
Bruna Pattiê