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Uma pequena história de carnaval ( conclusão )

Levar Rui do salão de festas ao carro foi uma verdadeira via crúcis.O "mala" avançava um passo e recuava dois.Ao final da tarefa, Paulo e Clóvis estavam pingando de suor. Para completar,a "figura" reclamava a todo momento de enjoô.Irritado,Clóvis bradou:
___ Vomita logo de uma vez,que o mal estar acaba,porra!!!

___ Eu sei.....,mas é que eu tenho dificuldade de "botar pra fora",..., mesmo colocando o dedo na goela!(disse Rui,amparando-se numa pilastra,para não cair de cara no chão).

___ Não tem problema,você passa a noite lá em casa. Se quiser, "chama o Raul", se não conseguir, te dou um sal de frutas, mas vamos para casa pelo amor de Deus!(disse Paulo,com a paciência no fim).

Rui,então, foi "jogado" no banco de trás,Paulo assumiu a direção,e Clóvis ficou com o assento do carona.Saíram do clube e penetraram na madrugada.A atmosfera calma da noite, dava uma falsa sensação de tranquilidade.

O trio já havia percorrido quase metade do caminho da volta,quando o marasmo da viagem foi interrompido por um estampido "seco", seguido de um barulho de plástico e vidro quebrados.Por estarem com o ar do carro ligado,Paulo e Clóvis demoraram um pouco para perceber ,que o retrovisor direito do focus havia sido estraçalhado por um.... tiro!!!.Ao olhar pelo retrovisor remanescente,o arquiteto visualisou,logo atrás deles, um monza branco,modelo "tubarão".Da janela do carona,saía um reluzente revólver,que ainda soltava a fumaça do tiro recém disparado.O carro tinha os vidros escuros,o que os     impedia de ver seu interior.

___ O que está acontecendo Paulo? (perguntou Clóvis).

___ Eu acho que nós vamos ser assaltados! (Paulo respondeu,sem tirar os olhos do retrovisor).

O monza branco acelerou, aproximando-se.Quando ficaram quase lado a lado,os primos viram,aterrorizados,os ocupantes do veículo:Eram os namorados das"meninas do trênzinho",aquelas que o Rui "xavecou".Imediatamente Paulo disse para Clóvis,que parecia querer entrar no porta luvas:

___ Primo, pôe o cinto!

O arquiteto pisou fundo no acelerador.Pelo retrovisor interno,viu Rui,totalmente chapado, e teve ódio do amigo.Mais uma vez entrava em fria por sua causa ,como   naquela vez, aos doze anos, quando emprestou sua espingarda de pressão ao "mané",e ele a usou para matar o periquito da vizinha,com um tiro certeiro na cabeça.A vizinha viu a "bala",ao lado do cadáver do pobre Psitaciforme,somou dois mais dois(ela sabia que Paulo tinha o brinquedo),e foi fazer queixa ao pai do futuro arquiteto.Sem poder provar que era inocente,pois Rui tinha ido embora sem falar nada,Paulo levou uma baita surra,e ficou um mês sem ir na rua.Mas agora a situação era bem pior; Se fossem pegos por seus algozes,os três iriam para a "cidade dos pés juntos", porque os brutamontes não iriam querer deixar testemunhas,já que não era um simples assalto,era um caso de vingança.

Inicialmente, o sinistro carro branco ficou para trás,mas logo recuperou terreno,e agora avançava rapidamente pela contra mão.Por sorte, um ônibus vindo no sentido contrário,forçou o veículo macabro a voltar para sua pista,colocando-se novamente atrás do focus.Se os dois carros ficassem emparelhados, seria o fim do trio.Um novo estampido "seco" ecoou na madrugada,e agora era o retrovisor esquerdo que explodia com um tiro certeiro.No auge do desespero,Paulo teve a idéia salvadora.Inclinou-se na direção de Clóvis,e disse alguma coisa bem baixinho no seu ouvido.Não queria que Rui, mesmo bêbado como um gambá,ouvisse nada,pois ele seria parte vital do estratagema.Ao receber as instruções,Clóvis pulou para o banco de trás,e colocou  Rui perto da janela .Alheio a tudo,como se estivesse num universo paralelo,o bebum protestou:

___Qualé...Clóvis "bate bola"!,para de me agarrar!!,eu sou é homem!!!......meu negócio é mulher!!!! .....

Enquanto Clóvis colocava Rui em posição,Paulo controlava a distância entre os dois carros.Mais à frente,num trecho escuro e anterior à uma curva de noventa graus para a direita,havia uma pequena calçada de concreto,que impedia o prosseguimento da estrada em linha reta.Quem não conhecia o local,muitas vezes seguia em frente,pensando que a estrada continuava.Paula torcia para ser este o caso de seus algozes.

Quando a curva estava próxima,Paulo desacelerou um pouco o focus,permitindo a aproximação do monza.No momento em que os dois carros estavam emparelhados,Paulo abaixou o vidro traseiro do lado esquerdo,e deu o comando à Clóvis:

___ Vai primo,agora!!!!(havia tensão e expectativa em sua voz.)

Rapidamente, Clóvis direcionou a cabeça do pé de cana para à porta dianteira do monza, fechou o punho, e desferiu um potente soco na barriga do amigo de Paulo.Como um vulcão adormecido que volta à atividade ,Rui lançou de suas entranhas, um potente "jato" de líquido, formado de,obviamente, cerveja e ,acreditem,......de macarrão!,que o "mala" havia comido no almoço, e o macarrão era......talharim!!!!.

O jato ácido atingiu em cheio, o rosto do marombeiro que empunhava a arma,fazendo que ele a deixasse cair,e o motorista ,ficou tâo enojado com a cena escatológica,que não notou a divisão de concreto mais à frente.Paulo virou todo o volante para a direita,e conseguiu fazer a curva.O monza, entretanto, seguiu em linha reta. Logo, um barulho de metal batendo contra concreto foi ouvido.

Ao olharem para trás,os primos viram o carro branco ,com o assoalho enfiado no anteparo de concreto,enquanto os brutamontes discutiam entre si e xingavam suas antigas vítimas,agora transformadas em seus algozes.No banco traseiro,Rui balbuciava:

___ Pô....esse jeito de "chamar o Raul"funciona ...... mas dói "prá canudo"!.(disse isto,e caiu no sono profundo dos justos).


Paulo e Clóvis explodiram de alegria com o sucesso do plano.Rapidamente,trataram de chegar em casa,pois não queriam mais nenhuma surpresa desagradável.Guardaram o carro, e improvisaram uma cama na cozinha para Rui,já que Paulo não queria correr o risco de ter seu quarto "batizado" pelo colega.Depois disto foram dormir.

Na manhâ seguinte,Rui acordou sentindo a cabeça explodir. Olhou seu relógio de pulso e viu as horas: meio dia e meia.Foi correndo falar com Paulo,que contou  tudo  que a bebedeira o fêz esquecer.Envergonhado,perguntou por Clóvis,e soube que o primo do seu amigo tinha ido para casa bem cedo,pois não queria encontrar com o motivo de toda aquela confusão, que quase acabou em tragédia.Querendo "limpar sua barra", disse para Paulo:

___ Cara,...... essa foi a gota d'água para mim.Vou dar um jeito na minha vida!

___ Eu acho bom mesmo!outra dessas eu não aguento!(paulo era só ironia).

Paulo obrigou Rui a almoçar com ele,pois o "mala" estava de estômago vazio,e o arquiteto não queria que ele tivesse uma tontura ao volante.À tarde,Rui foi embora no seu focus,que agora parecia ter vindo diretamente da guerra do Iraque.Ao ver o carro "sumindo na poeira ",Paulo sentiu-se aliviado:O pesadelo tinha terminado.

O carnaval acabou,os dias passaram e, três meses depois, o arquiteto recebia o convite do casamento de Rui e Cléo.Ao ver o papel branco com letras douradas,Paulo concluiu, que finalmente seu amigo tomara jeito.Ficou feliz por ele.    
arqueiro
Enviado por arqueiro em 02/03/2007
Reeditado em 02/03/2007
Código do texto: T398290
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arqueiro
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