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MUSCALAÇÃO

MUSCULAÇÃO

___Fala baixo ô carinha, minha cabeça tá um balaio de jaca, estremece tudo.
Olegário estava deitado, de calção e toalha enrolada na cabeça. Deixava dúvidas: um porre homérico! Explicou:
___ Sabe, fiquei interessado nessa coisa de mexer o corpo, saúde perfeita, e acabei assim estraçalhado. Continuando, nem sei se sobreviverei pra gozar as delícias que a musculação poderá me oferecer. Cheguei na Academia muito animado com o que falavam: iriam me produzir de novo, eu transformado num outro eu. Desconfio que não vou esperar terminar essa superprodução, acelerada demais, uma Fórmula Um, e nem sei se chegarei ao pódium.
Olegário estava em depressão, como se o tivessem virado às avessas.
___ Já botou a barriga pra derreter naquele rolo, girando sem parar? Eu botei. Virou o estômago e não derreteu nada. Fui lá todo produzido, tênis, calção e camiseta, e o treinador foi logo falando:
___ De começo os equipamentos básicos. Uma série de dez!
___ Preciso contar: era um carinha mafioso, desconfio que treinava os Al Capones da vida. Com muito sacrifício fiz os equipamentos  básicos. Voltou e olhou pra mim pouco animador, até com certo desprezo, apontou o dedo para um retrato na parede, um carinha forte pra caramba. Só podia ser um desses carinhas criados em cocheira, comendo no cocho e fazendo ginástica. Quase apelei: qual é seu estábulo? Cadê coragem. Sei dizer que o Rambo foi botando um desses pesos bem pesados que chamam de halteres, nas minhas mãos.
___  Vamos, faça vinte! virou e saiu.
___ Sei dizer que do jeito que ele deixou, ficou. Aquilo pesava mais que consciência, e se levantasse estrangulava minha hérnia. Fui agachando e botando tudo aquilo no chão, e o carinha nem sacou.  Vi que voltava e comecei a bufar com rinoceronte no cio, só pra enganar.
___ E aí! Fui logo dizendo:___ Trabalho feito.
___ Então pegue e faça mais vinte! Aqui não tem moleza.
Resolvi não levar desaforo. O hateres no chão, pensava e olhava, tomava fôlego e desistia. Olhando já ficava satisfeito e pronto pra descansar. Resolvi enfrentar, afinal fui lá pra isso, e num esforço consegui tirar tudo aquilo do chão, eu sozinho, pode crer. Levantei e metralhei, desci sem borrar na calça: consegui! Nem bem botei a mão na boca pro coração não sair e vem o peito-de-aço:
___ Quer viver com saúde, não é? Falou e prescreveu a refeição do Hulk. Pra ter uma idéia, a salada depois de pronta parecia um pasto. Meu estômago dilatou a olhos vistos, mas fui lá no dia seguinte, porque era tudo como eu sempre dizia pra mim mesmo: tudo pro meu bem.  E se quer saber, pro meu bem já tentei de tudo na vida: engoli hóstia, comi cobras e lagartos, deixei de fumar, e chopinho só de fim de semana. Como dizia: tudo pro meu bem.
___ Vamos iniciar os exercícios com o rolo, sua barriga está dilatada.
Reneguei. Amargurei a idéia de querer viver com saúde perfeita, porque o rolo rolava e a barriga cheia também.
___ Tá querendo viver com saúde perfeita ou não tá?
___  É que estou com dor aqui do lado direito, e quando boto a barriga no rolo, dói.
___ Tai, é o figado. Logo vi que essa palidez era de bebida!
Os carinhas que faziam musculação pararam e ficaram olhando, e fui tirando de leve a mão  daquele lugar pecaminoso.
Olegário segurava a cabeça, causando dó, até que falou como se tivesse encontrado a solução.
___ Estou achando melhor mesmo é morrer quando Deus quiser, de choque, atropelado, acordado, dormindo, sonhando, com pedra nos rins, porque ficar levantando peso, dormir arrebentado e amanhecer dolorido, é que não dá mais. Resolvi. Amanhã mesmo vou dizer que não irei mais, e que me desculpem de alguma coisa.
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Miro Camargo
Enviado por Miro Camargo em 20/08/2005
Código do texto: T43987
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Sobre o autor
Miro Camargo
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 81 anos
13 textos (1719 leituras)
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