Capa
Cadastro
Textos
┴udios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Dod˘...


                                          Terezinha Pereira*

Ele se lembrou da agulhada. Estava ainda dentro do camburão. Agora, via-se de  branco, deitado numa cama de grades brancas. Grades? Sobre um lençol branco,  criado branco, branco até nas grades da janela. Mas, grades na janela?  Porta de aço, branca. Ouvia-se um ruído de chuva.  Onde estava? Dois policiais os jogaram com força no camburão. Mas cadê  sua roupa? A carteira que havia jogado para cima, esta,  tinha  certeza de que estava vazia. De dinheiro, de talão de cheques, de documentos, de retratos. Era a carteira nova que havia ganhado de presente do amigo oculto do curso de inglês,  na véspera. Véspera. Mas que dia era mesmo esse?
- Izabela, ô Izabela!  Como  você deixou que os tiras me pusessem dentro do camburão? Não havia percebido que eu estava apenas me fazendo de maluco?  Que eu estava sem... Ô Izabela!  Onde você está? Me deixou aqui sozinho. Ô, ninguém responde neste lugar? É casa de surdos?
       Era um dia de muita chuva. Uma chuva que já vinha da semana passada e faltavam três dias para o Natal. Dá-se para imaginar o tumulto das ruas entupidas de gente e cheias de água, sacolas  e guarda-chuvas se esbarrando por todos os lados. Nesse dia Dodô havia levantado  com o pé esquerdo. Bem, pode até ser que nem tivesse  posto o direito no chão naquele dia. Examinou a carteira nova, beleza, a outra estava  um caco  e como  era  seu costume, saíra  apressado para o trabalho. Acontece  que o caco continha dinheiro e  etc. e tal. O carro, fazia três dias que estava na oficina e só  ser-lhe-ia entregue no dia 24. Se não fosse a chuva... Pegar ônibus não era coisa das mais estressantes. Melhor do que aturar a chefe maior com TPM. Seria menos desgastante se não tivesse tirado os óculos da madame com uma barbatana do guarda-chuva. Óculos que teriam voado longe se não fosse a correntinha de contas de pérolas... Coitada, com tanto charme e de ônibus... O carro deveria também estar na oficina. Bem que madame costuma ser prevenida com seus óculos.  Encontrar um assento seco no ônibus foi bom, mas da mesma forma foi ruim. Se tivesse ficado em pé, não teria pendurado  o guarda-chuva na janela  do ônibus, e consequentemente... Só notou  que estava sem ele quando se viu no meio  da rua e o ônibus, ó, bye-bye.  Acabou de atravessar a rua e andou o quarteirão que faltava para chegar no escritório da fábrica, já sabem como.
Viu que ainda dispunha de  alguns minutos para tomar um café. A lanchonete do lado estava ainda vazia, as mesas empoleiradas junto a  parede do fundo. Pediu a xícara com o pingado e o pão de sempre, com manteiga. O paletó meio  molhado o incomodava. Foi então até o fundo da lanchonete e puxou  uma das mesinhas na intenção de pôr-lhe em cima  a pasta e o paletó. Não fazia mal. Ali todos se conheciam. Desconheciam  era aquela zoeira  de todas as mesas caindo de uma só vez. Como já havia pago pelo pão e o pingado, nem olhou para trás para ver o desarranjo. Olhou o relógio e viu que ainda teria tempo para  ir ao banheiro, antes que chegassem mais funcionários no escritório.
Entrou no escritório e nem precisou dizer bom-dia a ninguém. Acomodou o casaco e a pasta na cadeira e correu para o banheiro. Jantares de final de ano costumam ser picantes. Voltou para pegar o jornal que já estava sobre a mesa. Separou o caderno Economia  e com ele foi resolver seu primeiro problema do dia. Com o vaivém da Bolsa e do dólar, Dodô se esqueceu , ou não se lembrou de usar o papel daquele jeito que a mãe havia lhe ensinado.  Não teria sido muito importante, se o lavatório não fosse do lado de fora do banheiro e se não tivesse ouvido que Izabela já havia chegado. Merda. Teria que  limpar a mão com aquele restinho de papel que sobrava do rolo, vestir as calças e só depois usar o lavatório. Abrir a porta com as calças arriadas... bem... não era mais hora.
Saía sempre com  Izabela  para o almoço. Costumavam almoçar por ali mesmo, no “Peso Bom”, um restaurante bem próximo. Se ao menos Izabela  tivesse levado a sombrinha. Mas, isso ela nunca fazia. Era caroneira até de sombrinha.
     - Doutor Salvador, está sem carro e sem guarda-chuvas! Mais um dia...
     - Não me chame de doutor. Dodô só,  está bem. Estou sem carro e sem guarda-chuvas. E você de vestido branco. Poderia ter deixado essa roupa  para o Ano Novo. Não dizem que dá sorte? Me acompanha, assim mesmo? Não gostaria de que eu lhe trouxesse uma quentinha?
Os dois saíram debaixo dos respingos. Iriam andar pouco. Na volta, caía mais água.  Custaram a atravessar  a rua, por causa da enxurrada. Teriam outra rua para atravessar, quando Dodô avistou uma amiga do outro lado da rua. Fazia dois anos que não a via. Teria sido também numa época de Natal, mais seco aquele Natal. Era a amiga que lhe passava todas as colas nas provas de inglês. Deixou Izabela, afinal ela estava mesmo na chuva e correu para encontrar a amiga. Correu tanto que quase passou. Teria passado. Se não fosse o esbarrão que ele deu no cabo da sombrinha da não muito jovem senhorita, que acabou entrando dentro do seu sorriso e lhe roubado a ponte dental móvel. Estático, ficou olhando a amiga, tão gentil, correndo atrás de seu tesouro, que a enxurrada levava sem cerimônia.
    - Não precisa dizer nada, Izabela.
    - Não direi. Estou enxugando os olhos, mas não é de chorar.
    - Trouxe outra roupa para usar hoje à noite?
    - Sim. Hoje teremos a nossa festa de Natal no “Quintal  do Chico”, lembra?
    - Claro. Eu, vou ter de  ir com roupas meio molhadas.
    Quando chegou a noite, o terno do doutor Salvador, ou Dodô, como ele mesmo gosta
de ser chamado,  já não estava tão molhado. Peneirava um chuvisco pouco e a roupa que Izabela  usava era elegante. Izabela de vermelho, deslumbrante. Ela queria ser vista assim, mas Dodô, parecia ver  de menos... Chegaram juntos ao “Quintal do Chico” e Dodô nem havia percebido que os outros olhavam Izabela com bons olhos. O lugar que sobrou para Dodô havia sido o da cabeceira da mesa. Não diria que havia sobrado. Como era chefe do escritório, anfitrião “de honra”, os amigos lhe haviam reservado aquele assento ideal. Ideal para exibir sua arte de destrinçar o peru. Esquecia de dizer que o “Quintal do Chico” era um restaurante  bastante informal. Vamos lá, fizeram a mesa grande para os 15 companheiros de trabalho, chefe na cabeceira, sete de um lado, sete de outro, tudo limpinho, forradinho de papel novo e serviram o cardápio combinado. Não seria necessário dizer qual era. A bebida, traziam quando solicitavam. A comida, dessa cada um servia seu prato. O peru foi ficando sobre a bandeja, guarnecido de verde e de ameixas. Se estava realmente morto, no findar do jantar ninguém seria mais capaz de garantir. Como ninguém se aventurava, Dodô se viu na obrigação de resolver o problema. Afinal, era ele que havia feito a encomenda, era ele quem iria pagar o jantar para aqueles 14 subalternos. Feio esse termo, não? Dodô então se levantou, apanhou a bandeja e pôs o peru bem na frente de seu lugar. Chamou o garçom e pediu-lhe uma faca de serra, que seria prático. Tem gente que nem viu o garçom trazer a faca. Viu  apenas o peru voando. Um vôo rasante por sobre toda a mesa comprida para 15 pessoas. Deixou  rastro e acabou no passeio do outro lado da rua,  não sem antes arrastar consigo a peruca de um senhor gordo que estava na ponta da mesa que ficava próximo a porta de saída.
Foi um tal de isso acontece, não faz mal, já comemos um pernil inteiro, esse havia vindo fatiado, ontem comemos muito na festa de amigo oculto.... Deixa pra lá.
Todos comido e bebido bastante, incidente esquecido, quer dizer, deixado de lado, Dodô vai até o caixa e pede a conta. Não queria que ninguém visse o custo da festa. Enquanto somavam as despesas, ele enfiou a mão no bolso e tirou a carteira. Gelou. Estava com a carteira novinha em folha no bolso. Lembram, daquele caco de carteira? Pressa parece ser coisa de costume nos dias de hoje. A dita  pressa o havia impedido de fazer a mudança de seu conteúdo para a carteira nova.
Daí para frente, o restaurante ficou meio agitado. Dodô voltou sem a conta, jogou a carteira nova para cima, subiu em cima da mesa e seguiu  o rastro do peru. Quando chegou na outra ponta, ninguém sabe como fez isso sem cair, as mesas estavam apenas juntadas, o gordo que há havia recomposto a cabeleira o segurou numa gravata. Dodô ficou uma fera. Começou a gesticular, a gritar. Nessas horas o que costumam fazer é chamar os homens. 190? 190. Um doido no “Quintal  do Chico”? Armado? Que isso! Está é alterado. Zummmmmmmmmmm. Lanternas  acesas e sirene  ligada. Pegar um doido, maluco, lelé da cuca.... Zummmmmmmm. Antes  passaram num hospital e requisitaram um enfermeiro para o  camburão. Doido não se pega todo dia. Se fossem  assaltantes armados até os dentes... Ora. Com isso  estavam acostumados. Pum... pum... pum... Que o enfermeiro trouxesse, já preparada, uma seringa com medicamento  para acalmar  um maluco.  Zummmmmmmmmm. Direto para um hospital psiquiátrico. ?? Positivo... Rápido!


Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 28/09/2005
Cˇdigo do texto: T54591
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Terezinha Pereira
Parß de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
124 textos (52831 leituras)
(estatÝsticas atualizadas diariamente - ˙ltima atualizašŃo em 04/12/16 12:25)