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Viva o assaltante!



                                          *Terezinha Pereira


_ Vinte e cinco vezes.
Filó diz haver sido assaltada vinte e cinco vezes. Da primeira vez ela se recorda bem.
_ A primeira vez, vamos ver. Foi quando fui receber meu primeiro pagamento de aposentada, há sete anos. Minto, foi o segundo. Me lembro que estava chovendo, uma chuva de vento de querer levar tudo. A fila do banco se escorria rua abaixo, todo mundo querendo ficar debaixo das  marquises dos prédios ao longo da rua. Quando abriram a porta do banco, cada um ficou mais esperto pra manter seu lugar na fileira, sem ligar de ficar encharcado. Foi Deus quem ajudou. Um guarda organizou o pessoal na entrada do banco. Ficamos apertados lá dentro, mas protegidos do temporal. Consegui sacar  meu sagrado dinheiro hora e meia depois de entrar. Saindo do banco, cuidando de ajeitar o casaco e abrir a sombrinha, não é que passa uns desses pivetes e leva a minha carteira?  Não valeu gritar, berrar. O moleque dobrou uma esquina e se escafedeu. Até hoje vejo a cara dele, branquinho, cara suja, cabelo escorrido, pés no chão e encharcadinho. Fiquei sem meu dinheiro e com uma pena danada daquele  moleque. Ainda hoje, eu fico pensando, foi a pena que tive daquele pivete, que me transformou num  ímã de atrair assaltante.
Enquanto é levada para a sala de Raios X, Filó vai repetindo:“vinte e cinco vezes”.A enfermeira continua falando com ela, tentando acalmá-la. Pergunta-lhe como o assaltante a havia machucado.
_ Não foi o assaltante que me machucou. Foi um desmaio.  Olha aqui, como é seu nome?
_ Meu nome é Alice. Pode me chamar de Licinha.
_ Bem, Licinha, já fui roubada de toda maneira que puder imaginar. Só na minha casa já entraram quatro vezes. Sem dó, levam de tudo, de calcinhas a roupas de cama. Uma vez, fiquei trancada no banheiro de três da manhã até a hora em que as pessoas começaram a passar pela rua para trabalhar. Quando percebi ruído de conversas na rua,  gritei por  socorro. Minha sorte é que a janela do banheiro dá prum alpendre, que dá pra a rua. Logo que ouviram meu berreiro, surgiram três  pessoas pra me socorrer. Dessa vez fiquei só com a camisola que estava no corpo. Olha que eu havia reformado meu guarda roupa no bazar de roupas usadas da paróquia fazia pouco tempo, por causa de outro assalto. Até  panelas levaram. Fico pensando, o que poderiam fazer com tanta miudeza de gente pobre. Fiquei quase pelada, sem mantimentos, sem panelas e sem o rádio. Ser assaltada uma, duas vezes, pra mim já é um absurdo. Agora, Nicinha. Licinha, é? Licinha, inteirou as vinte e cinco. Quando chegar em casa, se ainda não tiverem levado minha caderneta de anotações, vou registrar  mais este. Pretendo mandar para aquele livro mundial de recordes. Ah, o rádio. Depois que levaram o rádio de eletricidade, grande, último presente de meu falecido marido, que Deus o tenha, só comprei desses rádios vagabundos, do Paraguai. E já me levaram três desses de cinco reais. Com a miséria de dinheiro que recebo de minha aposentadoria, do marido não ficou pensão... Ele era ambulante, nunca havia pago nada ao INSS. Sorte é que deixou a casa. Casamos já de idade, não tivemos filhos. Trabalhei numa fábrica de tecidos até me aposentar por invalidez porque fiquei doente dos pulmões por causa do pó do algodão. Passo os dias fazendo tricô e ouvindo rádio. Ainda bem que atingiram foi a minha perna.
_ A senhora disse que desmaiou?
_ Não. Não  fui eu quem desmaiou.
_ Não foi a senhora quem desmaiou?
_ Foi um PM. Quando eu gritei socorro, na hora que o negão havia acabado de atirar uma faca no rumo do meu pescoço sem acertar e levar meu dinheiro, sol quente, em pleno centro da cidade, dois PM que estavam na esquina vieram me ajudar, coisa que só havia acontecido duas vezes antes. Um deles pediu para ver o que restara na minha bolsa. Quando estendeu a mão para pegar a bolsa, ficou branco e caiu em cima de mim, me jogando no chão. Foi assim que machuquei.
A enfermeira saiu com as chapas do RX presas num pegador. Depois de mais de uma hora de espera na maca, Filó ouve a voz da enfermeira, que volta, acompanhada de dois homens.
_ D. Filomena, a senhora vai ficar internada. Precisamos fazer uma cirurgia no seu joelho para corrigir uma fratura_ disse o médico.
Filó reconhece o outro homem e sem dar atenção ao médico o aponta:
_ Foi ele, Licinha. Foi esse o guarda que caiu em cima de mim.
O médico apresenta-lhe o policial e explica:
_ O cabo Vicente é diabético e não pode passar muitas horas sem se alimentar. Pegou serviço à meia-noite. Hoje, na hora em que caiu sobre a senhora, já estava há dez horas sem comer. Ganha pouco, tem mulher e dois filhos para cuidar e estava sem um centavo no bolso para comprar qualquer coisa de comer durante a noite. Veio aqui para pedir-lhe desculpas.
_ Deus do céu. E o senhor ainda vem me pedir desculpas?
Filó enfia a mão dentro do sutiã e tira três notas de dez reais e oferece ao soldado:
_ Essas o ladrão não viu. O senhor não pode ficar passando fome por aí. Aceita como empréstimo, cabo Vicente. Anota meu endereço. Mês  que vem  o senhor me paga.
 


Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 02/10/2005
Código do texto: T55939
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
124 textos (52827 leituras)
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