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         CONSULTÓRIO ESPIRITUAL D. ALICINHA

              Inocência da Silva nos manda esta cartinha mimosa, contando-me suas a(des)venturas amorosas com Folgadinho de Tal. Inocência e Folgadinho conheceram-se numa balada do babado forte que rolou lá pelos idos de dois ou três meses atrás (ela não sabe precisar, porque como se pode imaginar, no babado forte rolou uma manguacinha legal). Desde então Inocência da Silva vem vivendo um tórrrrrrrrrido romance sexualmente muito satisfatório com seu Folgadinho de Tal. Ocorre que o Folgadinho amado anda, segundo o entender da inocente Inocência, sofrendo de terríveis crises de indecisão e conflitos existenciais que o levam a oscilar em períodos de “quero te comer” com outros de “perdi totalmente o petite”. Relata ainda a inocente, que o pobre, assustado com a força incomensurável deste amor avassalador que se abateu sobre os dois, tem apresentado estranhas atitudes do tipo encontrar-se em lugares estranhos e sem riscos de gente conhecida aparecer; apresentar a Inocência apenas pelo nomezinho sem fazer menção ao laço que os une e, ao final e principalmente, ter acentuado a fase do “perdi totalmente o petite”. Duas semanas atrás, Folgadinho de Tal jantou (com) ela na casa de Inocência e foi-se dizendo que ligaria depois. Não ligou. Inocência pergunta, preocupada, estressada e descabelada: teria ele ido comprar cigarros e não achou o caminho de volta? Teria o pobre Folgadinho perdido o celular e com ele toda a agenda telefônica, com o nomezinho da Santa Inocência junto? Teria sido abduzido e levado para fora do sistema solar? E acrescenta: por favor, Alicinha amiga, responda-me. Estou tão desorientada...
Então, amigas, aí vou eu, num exercício de solidariedade feminina e abnegação total, tentar dar um fim a tamanho sofrimento:
“Minha querida Desorientada , digo Inocência,
Não quero ser pessimista, mas se o Folgadinho foi comprar cigarros e não voltou, acho pouco provável que tenha se perdido no caminho, já que qualquer butiquim da esquina da sua casa deve ter o produto aos montes. Também acho improvável que tenha perdido o celular com seu numerozinho e por isso não tenha ligado. Bastaria procurar seu nomezinho na lista telefônica. Abduzido??? Bom, tem havido notícias por aí de uma certa loiraça Belzebu que anda abduzindo sujeitinhos folgados para a caminha dela...é uma possibilidade, mas remota, visto que seu Folgadinho não é lá um sujeitinho muito interessante e nem original na atuação. Assim, que, fazendo o sacrifício de engulir eu própria meu veneninho de serpente, tentarei ser otimista, ainda que pareça pessimista: Inocência, Fulaninho de Tal sumiu porque simplesmente morreu. Captou, lindinha? É . M – O – R –R – E –U, capisce??? Então não resta muito senão enterrar o pobrezinho de maneira condizente. Vamos ao ritual:
Pegue lá todos os pertencinhos do Folgadinho que porventura ainda volitem por aí pelo seu apê, compre uma caixa bem bonitinha (daquelas que a gente compra em qualquer R$ 1,99), coloque tudo bem direitinho lá dentro, junte todos os resquícios de qualquer coisa que eventualmente possam fazê-la lembrar o falecido, e pra combinar com o estilo do dito cujo, agora de cujus, faça tudo isso ao som de Luka. É. Aquela mesma do “Tô nem aí”. Volume máximo, por favor. Feche a caixa bem direitinho, não deixando nenhum espaço sem fita crepe por cima. Compre uma fita vermelha (bem baratinha, por favor), embrulhe tudo e faça um laço bem forte, sempre com a trilha sonora ao fundo. Escreva em letras garrafais e caprichadas: AQUI JAZ FOLGADINHO DE TAL. DESCANSE EM PAZ.
Depois deste ritual espiritualista de aceitação, você sentirá uma paz enorme invadindo seu coração. Uma vez que tenha se completado o ritual de aceitação, cabe agora a você a parte mais difícil, que certamente, você conseguirá. Todas conseguimos. Pegue aquele seu pretinho básico arrasa-quarteirão, faça uma bela maquiagem, meta um tremendo salto alto e gaste tudo o que puder para dar um upgrade no seu look. Sem esquecer de passar na porta da casa do Folgadinho, deixar o caixão com os restos mortais e a vela acesa in memoriam. Não se esqueça: esta importante atitude faz parte do ritual espiritualistas do desapego. Já aceitou o falecimento, é hora de desapegar-se.
Para completar, depois de devidamente desapegada, com uma melhoria considerável no seu look, faça-me o favor: caia na balada e aproveite para cair na real.
Abraços,
Alicinha, sua mestra zen, sempre a postos.




Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 04/10/2005
Reeditado em 19/07/2006
Código do texto: T56667

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Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
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Débora Denadai