Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

           DIAS DE MERDA

            Despertador, seis da madrugada. “Puta que pariu este mundo todo, isto lá é hora de uma criatura normal acordar? Isso é hora de galinha, porra...” E segue, xingando em pensamento, a humanidade inteira e o Todo-Poderoso, que com tanto poder, não deixou nenhunzinho pra elazinha. Levanta meio sonolenta, chuta sem perceber a quina da cama. Um sonoro “merda” reverbera em alto e bom som (nos pensamentos, que é pra não acordar a serra elétrica que dorme a sono solto no outro travesseiro). Depois de tropeçar em metade da mobília e dar com a cara na porta do closet, confundida com a do banheiro, segue na missão impossível de atingir o dito cujo.
            Finalmente acessa o banheiro. Luzes??? “Onde foi parar a porra do interruptor que estava aqui ainda ontem?” Sai checando em braile a parede até encontrar o dito. Olha pro espelho e só não cai de costas porque está tão sonolenta que até pra cair dá trabalho. “Mulher, que cara horrorosa...Anotou a placa do caminhão? Pelo estrago deve ter sido uma jamanta!” .
          - Deixa pra lá, não vou responder aos desaforos desse vidro metido...
          Enquanto lava o rosto, segue pensando que já anda tão mal que fala sozinha, com o espelho, com as paredes. É o que dá: quando se tem gente demais, quase sempre não se tem ninguém. “Melhor passar logo um reboco nesta parede de igreja velha e dar um up nessa cara horrorosa.”
         - Vou passar coisa nenhuma. Saco cheio, tem um monte de coisa me esperando e ninguém pra fazer. Merda, merda, merda... Até pra isso não sou original. Só sei meia dúzia de palavrões. E ainda tenho hora com a doutora das idéias. Nem sei o que vou fazer lá. Num tenho nada pra falar e muito menos vontade.
          Vai pra cozinha, prepara o café, derruba metade fora da xícara. Xinga mais meia dúzia de merdas pelo caminho enquanto arruma a mesa do café para os “hóspedes” do “hotel”.
          - Tudo eu, que merda....Vou acordar aquela serra elétrica pra assumir o comando. Pelo menos faço uma caridade para os vizinhos: ele pára de roncar e o resto da humanidade pode dormir. Sacode a serra elétrica até ativar o botão de “desliga” e avisa que já está indo:
          - Ó, o café tá lá na mesa. Tem que acordar os moleques e dar café senão todo mundo perde a hora.
          - Ahn....humm....Caramba, não dá pra você fazer isso pra mim? Tô morrendo de sono...
          - Ai , criatura...vê se acorda pra Jesus e trata de servir pra alguma coisa nessa vida!!! Te vira, homem, que eu tenho hora na médica das idéias...Ó, fui, hein!!
Sai batendo a porta, procurando a chave certa no meio daquele chaveiro de São Pedro. É a da porta da sala, da porta de serviço, do carro do marido, do carro dela... “Merda, o carro dele está atrás do meu na vaga da garagem. Ai, Senhor, ainda vou ter que trocar. Merda!”
           Vai cortando Deus e o mundo inteiro pelo caminho, toma uma multa naquele maldito radar que puseram bem no meio do percurso e solta outras inúmeras merdas até chegar ao consultório. Sala de espera lotada. A recepcionista, com aquela cara de moça desenhada em computador, sempre com aquele sorrisinho bobo informa que a doutora das idéias “tá com o horário atrasado”.
           “Fazer o quê?? Só me resta encarar esta pilha de Caras de três anos atrás que já li quinhentas vezes...” Passa a mão na primeira revista da pilha e começa a folhear, sem perceber o par de tênis que passa por ela rapidamente em direção à mesa da recepcionista:
           - Tenho um horário às 10h, diz o par de tênis com uma voz que faria tremer a mais casta das celibatárias.
            Conversaram mais alguma coisa que ela não ouviu direito, porque resolveu ver outros detalhes no dono da voz e dos tênis. Alto, meio quarentão, algum grisalho nas têmporas, e sim, senhora, um tremendo gato. Aliás, um tigre. “Merda, justo hoje eu saio de casa parecendo uma mistura de diarista com feirante...Merda, merda!”
            - Você também está marcada?
            “Não, meu amor, mas se quiser deixar sua marca, do jeito que a coisa anda, vou agradecer a Jeová o resto da vida, esfregando o joelho no chão e me converto imediatamente...”
           Segurou o pensamento pecaminoso e respondeu com o melhor sorriso que achou que sim, estava marcada, mas estava tudo atrasado. Seguiu-se uma conversinha informal, o tigre elogiou seus olhos, depois os cabelos e ela já estava começando a achar que não era tanta merda assim. Pelo menos um gataço daquele notando aquela miserável abandonada pela Mãe Natureza, não é todo dia. Lá pelas tantas, o moço diz que ela é muito legal e que poderiam conversar mais, tomar um café depois da consulta etc... Não precisa dizer que a pobre já estava flutuando em alguma nuvem celestial, mais alheia do que monge budista. E, sim, é claro, vamos tomar o tal cafezinho.
            - Você vem sempre aqui?
            - Claro. Ela é minha terapeuta, tenho sessão toda semana.
            - Terapeuta??? Errei a sala...Eu ia ao ...deixa pra lá.
            - Imagine, não precisa ficar sem graça. Todo mundo erra de sala num prédio cheio de médicos...
            - É ...acho que já conversamos tanto que ficamos quase íntimos, né? Eu até ia te pedir uns palpites, que vocês mulheres são muito boas nessas coisas...
           “Opa! a coisa está ficando interessante. Intimidades, palpites e com esta maravilha??? Obrigada, Senhor!!! Vou voltar pra casa de joelhos”
         - Na verdade, estou com um probleminha, sabe. É que eu sou...bem, como dizer, eu sou gay e eu estava indo ao consultório do proctologista que......
Daí pra frente não ouviu mais nada. Só uma palavra, que nunca lhe pareceu tão propícia, repetia no seu cérebro:
“MERDA, MERDA, MERDA!!!!”




Débora Denadai
Enviado por Débora Denadai em 05/10/2005
Código do texto: T56856

Copyright © 2005. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre a autora
Débora Denadai
Caracas - Distrito Federal - Venezuela, 54 anos
722 textos (154036 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 10/12/16 01:09)
Débora Denadai

Site do Escritor