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RECEITAS PARA UMA ILHA DESERTA OU DOU MEU BRAÇO POR UM "X-TUDO"

          Ao abrir os olhos com dificuldade, cabeça a estalar de dor, você percebe que está estirado nas areias de uma praia, aparentemente deserta.

          E de forma ainda vaga, começa a recordar que aquele luxuoso navio de cruzeiro, desgraçada e inexplicavelmente resolveu afundar.

          Justo à noite, esquecendo que você é tão míope que nem mais dirige automóvel de madrugada. E, no meio daquelas ondas revoltas e tão gigantescas que nenhum adoidado surfista teria coragem de por defeito. Tão frias que fariam por dispensar o gelo na mais quente das bebidas.

          Ao lentamente levantar você lembra de ter-se agarrado, como uma craca desesperada, numa tora de madeira que o destino levou ao seu encontro. E, de passar horas boiando ao lado daqueles horíveis tubarões que insistiam em confundi-lo com uma picanha grelhada.

          Tristemente percebe que não era pesadelo. E terá, qual Robinson Crusoé, de dar um jeito na vida.

          Eu, que escrevo, nada tenho com seu problema. Apenas pretendo orientá-lo a safar-se, no aspecto gastronômico-alimentar, desta triste situação.

          Em primeiro lugar esqueça a comida. Todo mundo sabe que qualquer um de nós pode muito bem sobreviver sem qualquer alimento por mais de trinta dias. Especialmente você a quem a vida sedentária fez acumular um não desprezível sobrepeso.

          De forma que sua preocupação maior deve ser encontrar água. Potável, claro, que da salgada à sua frente você está farto.

          Procure embrenhar-se na floresta à sua frente, sem se afastar muito da praia. Com cuidado e atento a qualquer barulho diferente como ribombar de tambores ou zumbido de flechas envenenadas. Pois estas ilhas do Pacífico não são nada confiáveis e podem ser reduto dos mais temíveis canibais.

          Animais ferozes como leões ou tigres famintos, igualmente deveão ser evitados. Outros, menos comprometedores como rinocerontes, orangotangos, elefantes, girafas, etc., caso sejam encontrados, não deverão ser incomodados.

          Concentre-se no seu objetivo. Se a sorte não o abandonou, você encontrará sem dificuldade esse elemento precioso. Lagos, mesmo pequenos, irão servir. Cachoeiras ou quedas d'água, até as de pouca altura não deverão ser desprezadas nesta hora em que o bar está distante.

          Depois de encontrado o líquido vital, mas sómente deois, é que você deverá preocupar-se com o estômago.

          Não tente encontrar frutas, pois elas não existem nas florestas. São típicas de fazendas bem cuidadas e não florescem expontaneamente a não ser em contos infantis. Mas, ao contrário, devem ser semeadas, amparadas, adubadas, desinfetadas, convenientemente regadas e, ao tempo certo, colhidas.

          Esqueça, também, essa história de raízes comestíveis. Mesmo que afortunadamente existam, você não saberá reconhecê-las e terminará envenenado num lugar em que nunca ouviram falar de INSS,SUS ou plano saúde.

          Da mesma forma não perca tempo atrás de caça. Em primeiro lugar porque você não tem qualquer arma ou munição. E, depois, porque a ilha onde você se encontra não é supermercado e, os animais comíveis, não estão oferecidos por aí, esperando você chegar para colocá-los no carrinho.

          Mas, então, o que lhe restará?

          Peixes, frutos e até legumes do mar é a adequada resposta. O mesmo alimento de que serviram seus mais primitivos ancestrais. Eles viviam a beira mar e dele nunca se afastavam, porque sabiam que sempre foi a fonte mais abundante de comida do planeta.

          Mesmo para um panaca despreparado de todo, não será difícil extrair o indispensável para sobreviver, do incomensurável celeiro aquático que o cerca.

          Examine, primeiramente, a praia em busca de moluscos. Com certeza vai encontrar aquelas conchas brancas, pequenas, conhecidas por berbigões ou vôngoles. Eles vivem quase à superfície da areia e costumam revolver com o quebrar das ondas. São deliciosos com espaguete. Como você não tem a massa, deguste-os ao natural pois são igualmente bons. Abra-os e chupe-os à vontade sem se importar com o barulho que ninguém estará se importando.

          Vasculhe, depois, as rochas marítimas. Geralmente estão infestadas de saborosos mexilhões, esperando por serem colhidos. E siris e caranguejos são fáceis de capturar sem qualquer equipamento especial. Com sorte até uma lagosta poderá cair na sua rede. Se nada conseguir, pelo menos não pare de tentar que tempo não lhe falta.

          Outros bichos serão igualmente benvindos. Na dúvida, se são ou não comestíveis, não hesite: coma. Com segurança não estão poluídos e farão menos mal que muita estrumela congelada que você já comeu.

          Não despreze os peixes. São abundante, muitos vivem nas águas razas e poderão ser facilmente fisgados por qualquer simplório despreparado

          Quando pegar, finalmente, um belo espécime, não se entusiasme demasiado. Se você for um bom "gourmet" logo perceberá que terá poucas opções para prepará-lo. Conforte-se, todavia. Todas são absolutamente "lights".

          Nessa hora você já terá aprendido a fazer fogo. As primeiras tentativas, bem sei, são desanimantes. Mas, com o tempo, você se transformará num verdaeiro perito no atritar gravetos secos.

          Faça uma boa fogueira e terá como preparar um fresquíssimo e maganífico peixe grelhado. Ou, se preferir, improvise uma cumbuca, encha-a com puríssima água do mar e deixe-o cozinhar por algum tempo. Coma-o puro, pois nesta hora, os acompanhamentos forma dispensados.

          Mas, se a fome for demasiada, lembre-se das técnicas milenares dos sushis e sashimis. Dispense os temperos ausentes nestas paragens e coma o dito cujo como a natureza o criou: cru.

          Você poderá estranhar um pouco no começo. Mas não esqueça. Você é um náufrago iniciante. Esses novos sabores logo integrarão seu cardápio.

          Mas, acima de tudo tempo não faltará para conscientizar-se de que poderá desfrutar de uma temporada especialmente feliz e gratificante.

          E, ao consumir esse alimento absolutamente natural, sem ser forçado a ingerir massas, pizzas, sorvetes, bebidas, cremes, molhos e um sem número de comidas altamente processadas e calóricas, provavelmente tornar-se-á esguio e leve como uma pluma, perdendo aqueles indesejáveis quilos que sempre o perseguiram.

          Ao mesmo tempo em que terminará por adquirir aquela tão sonhada cor bronzeada Sem ter que internar-se em um SPA ou pagar uma fortuna por esse salutar tratamento.

          Tranquilize-se. Relaxe. Você é mesmo um sujeito de sorte!
Tagobar
Enviado por Tagobar em 10/10/2005
Reeditado em 23/10/2005
Código do texto: T58405

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