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CAMARÃO ZERO A GREGA OU BENGALA (CARREGADA) NÃO EMPRESTO





Convidaram-me para ir a um leilão de arte.

Ao chegar logo percebi que incluía uma infinidade de objetos dos mais diferentes matizes e procedências como quadros, estatuetas, tapetes persas, antiguidades, reproduções, gravuras e um sem número de bugigangas de múltipla variedade.

Estavam expostas em um elegante salão em anfiteatro onde os presentes examinavam as peças que iriam ser vendidas.

Percorri-o lentamente a observa-las e nenhuma delas conseguiu despertar-me maior interesse. Foi quando deparei com duas bengalas de cor preta, esguias, ambas encimadas por belíssimos cabos torneados, decididamente encantadoras.

Mas o que mais despertou minha  atenção foi o fato de que, aparentemente inteiriças, podiam dividir-se na parte central, desenroscando-se em imperceptível emenda.

Uma delas deixava entrever, quando secionada, uma afiadíssima lamina com cerca de vinte centímetros de comprimento.  Transformava-se numa eficaz arma de defesa que podia ser manipulada pelo cabo.  Seria um instrumento de rara utilidade numa emergência.

A outra, todavia, despertou-me maior e mais profundo interesse. Ao ser desenroscada exibia em seu interior uma ampola que permitia abrigar exatamente uma dose de qualquer líquido. Whisky escocês deve ter pensado seu fabricante ou legítimo Campari italiano pude eu, modestamente, imaginar. Igualmente, numa emergência, poderia ser de indeclinável valor.

Três ou quatro senhores sérios e compenetrados as examinavam. – “Fim do século XVIII ou começo do XIX”, afirmava um deles. – “Com segurança de procedência inglesa”, sublinhava o outro. – “Pelo formato e acabamento percebe-se que são peças muito antigas”, asseverava o terceiro.

Indiferente aos comentários fui sentar decidido a adquiri-las, em especial aquela que escondia o estratégico reservatório líquido.



Desconhecia o funcionamento desses leilões mas logo percebi que  transcorria como em qualquer quermesse. O objeto a ser leiloado é exibido, ocasião em que é feita a sumária descrição de suas características e depois são recebidos os lances. E, o maior, leva a peça.

Aguardava ansioso. A bengala contendo a lâmina foi finalmente apregoada. Já familiarizado com o esquema dei o primeiro lance:

Cem reais, disse.

Cento e dez, imediatamente gritou uma mulher de rosto emplastrado e nariz vermelho à minha direita, mais à frente.

Cento e cinqüenta, disse um homem careca à minha esquerda.

Cento e cinqüenta; tenho cento e cinqüenta; quem dá mais por esta belíssima bengala? repetia como uma matraca o leiloeiro.

Após uma pequena hesitação resolvi cobrir a oferta. – Duzentos, falei em alto e bom som.

Duzentos e dez, gritou incontinenti, mais uma vez aquela energúmena mulher de nariz vermelho.

Duzentos e cinqüenta, bradou o deslumbrado careca a minha esquerda.

O leiloeiro repetia incessantemente este último lance. – Dou-lhe uma; dou-lhe duas...

Num gesto de loucura resolvi, mais uma vez, superar a quantia ofertada. Trezentos reais, afirmei de boca cheia.

Trezentos e dez, gritou aquela feiosa à minha direita que além da cara emplastrada tinha o narigão vermelho.

Desisto, pensei com meus botões. Não pretendo ficar disputando nada com esta possessa mulher. É melhor deixar que leve o que quer, mesmo porque a bengala que pretendo é a outra.

Depois de algumas cantilenas o leiloeiro bateu o martelo. E a dita cuja foi à frente buscar sua preciosa prenda. Não sem antes dirigir-me um furtivo olhar de indisfarçável superioridade e desprezo.

Permaneci indiferente a aguardar a exibição da peça na qual tinha vivo interesse. Pouco depois chegou a sua vez.
Cem reais comecei.

-Cento e dez, esbravejou aquela endemoniada mulher á minha direita com aquele ridículo nariz vermelho.

Já assisti esse filme, pensei. Se esta melancólica senhora já se apoderou de uma das bengalas, por que quer também a outra?

Enquanto conjeturava ouvi um troar vindo da minha esquerda: cento e cinqüenta disse o malsinado careca.

Não esperei. Duzentos reais, afirmei de pé para ser visto por todos os presentes.

Duzentos e dez, foi o que ouvi ainda de pé, em som cavo e gutural, vindo da minha direita, daquela mesma despudorada mulher que além da cara emplastrada tinha um merecido nariz vermelho.

Duzentos e cinqüenta, em tom de desafio retrucou aquele empedernido e desrespeitoso careca à minha esquerda.

O leiloeiro repetia a sua ladainha procurando incentivar a progressão dos lances.

Trezentos reais, ousei lançar, pois não iria desistir fácil da almejada prenda.

Aquela insensível e malsinada mulher de cara despudoradamente emplastrada não hesitou um segundo: trezentos e dez grunhiu com cínica voz.

Não esperei. –Quatrocentos, asseverei.

Quatrocentos e dez, gritou alto como a relinchar a portadora daquele intumescido nariz vermelho.

Quinhentos, gritei sem titubear.

Quinhentos e dez, explodiu num alto estertor aquela vergonhosa cara emplastrada sede do descomunal narigão pecaminosamente vermelho.

Seiscentos reais.

Seiscentos e dez.

Setecentos reais.

Setecentos e dez.

Eu bato nessa estúpida mulher.- Oitocentos reais, vociferei nervoso.

Penso devam todos ter ouvido meu pensamento pois seguiu-se estranho  e significativo silêncio.

Quem dá mais? Tenho oitocentos reais. Ninguém dá mais? Oitocentos, dou-lhe uma; oitocentos dou-lhe duas. Vendido por oitocentos reais para aquele senhor de paletó creme.

Fui buscar minha prenda. Não me dignei a dirigir o olhar para aquela emplastrada mulher com seu deselegante nariz vermelho. Limitei-me a pagar e ir embora.

Custara-me caro. Mas cheguei em casa satisfeito. Conseguira adquirir uma preciosa peça que me acompanharia em todas as ocasiões salvando-me das mais desesperadas crises de abstenção forçada.

No domingo resolvi carrega-la convenientemente. Com uma garrafa de Campari de induvidosa procedência do lado desenrosquei-a em suas duas metades. Abri-a facilmente e destaquei a ampola de vidro.

Ao repô-la em seu lugar, já convenientemente municiada, notei que havia algo escrito no fundo da cavidade que a aninhava. Muni-me de um farolete. E pude ler, no fundo daquele espaço, impresso em letras de fôrma inconfundíveis: “Made in Taiwan”.

Fiquei possesso. Para não dizer o palavrão que efetivamente pensei e na hora proferi.

A bengala inglesa do século XVIII, fora fabricada provavelmente em série. E com certeza fora adquirida juntamente com outras bugigangas de menor valor. E por ela eu pagara preciosíssimos oitocentos reais.

O tempo passou. Não me desfiz mas ao contrário adoro essa bengala que continua a me salvar de delicadas situações onde o álcool se faz carente. Igualmente não recrimino o leiloeiro. Em nenhum momento ele mentiu ou afirmou que as bengalas eram antigas ou inglesas. Ele simplesmente as exibiu e vendeu a quem mais deu por elas.



Mais tempo levei para esquecer aquela empedernida mulher que resolveu atazanar-me. Penso que decididamente não deve primar pela inteligência, é feia e desengonçada e acredito seja destituída de personalidade além de viver carente de afeto. Conforto-me em saber que com certeza terminará seus dias com a cara emplastrada e dela somente restará a lembrança de seu enorme nariz vermelho.

Mas toda esta história veio-me a mente porque, ao passar por um restaurante, vi anunciado à porta, em letras garrafais: camarão a grega – para duas pessoas - $ 19,90.

Passei a conjeturar comigo mesmo: ou aqui se lava dinheiro ou esse prato é uma droga. Com segurança, neste lugar, procura-se impingir deliberadamente para os incautos algo de terceira categoria. Como a bengala que erroneamente acabei por adquirir.

Porque não se desconhece que os camarões que essa iguaria exige lamentavelmente devem ser graúdos. E, via de conseqüência costumam ser caros.

Neste passo necessário será abrir um parêntesis explicativo. Camarões existem de inúmeros tipos e tamanhos. Mas o que permite a feitura deste prato é o denominado V.G. (verdadeiramente grande, para os neófitos).

           Cerca de quinze espécimes inteiros (com casca e cabeça) perfazem aproximadamente um quilo. Com esse material é possível elaborar um prato deslumbrante.  A utilização de outros menores, filhotes ou mal nutridos, constitui suma heresia culinária.

Entretanto se você for fissurado em camarões, procure  encontrar o denominado camarão zero. Ou camarão oito/dez. Assim são chamados porque com apenas nove ou dez peças completa-se um quilo. São assustadoramente gigantes, raros e horripilantemente caros.

O saboreá-los, todavia, é sumamente gratificante. Para degusta-los você precisará garfo e faca. Esta última aquela própria para cortar carne, com adequada serra, que com a de peixe, só com muito esforço você conseguirá parti-los em pequenos bocados mastigáveis.

Seu paladar é soberbo e satisfativo. Não peça mais que três unidades pois tal número é suficiente para aplacar a fome de um lutador de sumô.

E, finalmente não se preocupe com o alto preço que você irá pagar para ter o prazer de saboreá-los. A vida costuma ser só uma, exatamente essa que você desfruta.

Mesmo a admitir-se que no fim dela você consiga a consagração final indo como gracioso querubim para o céu, não se esqueça que os anjos além de não terem sexo também não possuem estômago. E será triste passar toda uma eternidade a desconhecer o inigualável sabor de um camarão zero.
Tagobar
Enviado por Tagobar em 10/10/2005
Reeditado em 22/10/2005
Código do texto: T58489

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